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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

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08
Jan19

O privilégio de conhecer pessoas verdadeiramente inspiradoras

Agradeço, muitas vezes, o privilégio de me ter cruzado na vida com pessoas verdadeiramente inspiradoras. Deve ser uma forma de a vida ou o universo me compensar pela "família" em que calhei nascer e crescer. 

Nos sítios mais improváveis conheci pessoas verdadeiramente inspiradoras. Pela sua sensibilidade, pela sua alma gentil, pela bondade do seu coração, por qualquer dom que transmitiram e despertaram em mim uma empatia especial. Pelos valores que me passaram. Pela coragem que demonstraram. Pela sua vivência e luta. Pelo exemplo bom que deram e me inspiraram a ser melhor. Pelo carinho que partilharam. 

No curso (online) de escrita criativa que fiz entre abril e outubro de 2013, altura em que estava desempregada e dediquei o muito tempo livre que tinha a investir em mim e nas minhas paixões, conheci (uma forma de dizer, porque acabei por não poder ir ao almoço convívio que organizaram em Lisboa e, portanto, fisicamente não os conheci, não os abracei) pessoas diferentes, com diferentes estilos, de diferentes áreas, com diferentes objetivos, mas que partilhavam um objetivo: explorar a capacidade de escrever. 

Como é natural, criei mais afinidade com uns do que com outros. Tal como uma turma de 18 ou 20 alunos. Entre tantas personalidades diferentes, as afinidades surgem mais com uns do que com outros. Entre os 18 elementos da "turma", senti-me mais próxima de três pessoas, em especial.

Uma delas é uma verdadeira fonte de coragem e inspiração de vida, de luta, de resiliência. Criou um blog, e para quem quiser visitar, aqui fica o link: Viver a Flutuar. Deixo aqui um grande beijinho para ela, sei que me lê, assim como a leio. Ainda que nem sempre a troca de palavras seja assídua, sabemos que estamos uma de cada lado, unidas por uma qualquer força que nos atrai. Quando quiseres, sabes onde me encontrar!

A outra, era uma mulher tão doce e delicada, com um sentido maternal enorme que me emocionou particularmente. De uma extrema simpatia e gentileza, aquilo a que comummente se chama "coração de ouro". Fomos mantendo contacto pelas redes sociais, mas entretanto perdi-lhe o rasto. Ana Diniz, se me lês, dá notícias, porque ainda me lembro bem de ti e tenho saudades das nossas conversas.

E por fim, um verdadeiro senhor. Das pessoas do grupo foi, para mim, o que mais evolui na escrita. Foi arrebatador ver como evoluía e crescia no seu talento até então adormecido. Como se foi tornando maior a cada desafio semanal de escrita que tínhamos. O último e derradeiro desafio de escrita do curso venceu-o com maioria absoluta de votos, e foi bem merecido! Foi magnífico. 

Depois deste curso, foi este senhor que vi continuar a investir na escrita. Mais formações. Participações em desafios de escrita. Microcontos, e sei lá que mais. Era com orgulho que ia lendo o que ele ia escrevendo e partilhando, que rejubilava quando ele vencia um qualquer desafio de escrita. Pensava com os meus botões que se alguém devia mesmo escrever um livro e merecia publicá-lo era ele. E caramba, que privilégio tê-lo visto "nascer" como escritor.

É com um imensurável orgulho que anuncio que acabei de comprar o livro dele. Não sei quantos exemplares editou. Sei que divulgou no nosso grupo de escrita, já pouco ativo, um tanto ou quanto abandonado. Sei que está a reunir esforços para os distribuir a quem esteja interessado. E, infelizmente, sei que está numa luta cruel com uma doença grave, e passo a citar as palavras do próprio: "daquelas doenças em que agradeço todos os dias acordar bem".

E é fodido! Sim, é fodido. Porque estas merdas acontecem a boas pessoas, a pessoas especiais, a pessoas que têm tanto de bom para dar aos outros e ao mundo. E se fiquei imensamente orgulhosa por ver que ele publicou o seu livro, foi um murro no estômago saber a situação delicada e frágil em que se encontra.

Por isso agradeço. Agradeço muito ter-te conhecido, ter visto nascer esse escritor adormecido dentro de ti. Ter-te visto evoluir e ser maior. Agradeço que os nossos caminhos se tenham cruzado. E é com ansiedade que espero que me chegue às mãos o teu livro. Que guardarei como tesouro. Porque és tu em palavras, as tuas palavras. E nunca serás esquecido, porque as palavras que deixas escritas e partilhadas são eternas.

De coração, espero que continues esta luta contra a doença com toda a coragem e resiliência. Espero que tenhas muitos dias em que agradeças acordar bem. E nos quais possas escrever. Porque a tua escrita é extraordinária! 

 

30
Out18

Pandora abre a caixa... e tenta segurar a esperança!

Há dias li o post Blogar e o Estado de Espírito, do Triptofano, e pensei cá com os meus botões que eu partilho da mesma incapacidade de separar o estado emocional da escrita no blog. 

Primeiro: sou pessoa demasiado expressiva e, por muito que tente disfarçar o que estou a sentir, há sempre algo na minha voz, no meu olhar, no sorriso, na expressão facial que me denuncia. 

Segundo: o blog para mim é a mesma coisa que eram os diários perfumados com uma pseudo fechadura que usei na minha adolescência (hello 90's). É o meu espaço de terapia pela via da escrita. Um espaço que agora, ao contrário de outrora, é partilhado e aberto a comentários e outras partilhas. Mas é um espaço meu, logo das minhas vivências, emoções, estados de espírito, opiniões, dos meus dias. Sou eu que decido o que partilhar, até onde me expor, e acreditem (para quem aqui anda há mais tempo não é desconhecido) já houve textos que foram um verdadeiro, e creio corajoso, strip tease da minha alma e experiência de vida.

O meu estado de espírito reflete-se, invariavelmente, no que aqui exponho. E se, por ventura, ando mais desaparecida, não é só falta de tempo, porque esse arranja-se quando se quer, é porque estou a passar uma daquelas fases bem merdosas na vida, e só me apetece estar muito quieta no meu canto a lamber as feridas e a recuperar forças. Depois regresso. E até posso partilhar as dores pelas quais passei. Mas só quando já consegui reunir as minhas forças e ter um plano de ação para lidar com os problemas e dificuldades.

Hoje venho abrir, uma vez mais, a caixa de Pandora. Há algo que me tem derrubado nos últimos meses (ano) e me tem atirado para um pântano de lamas traiçoeiras. Tenho-me debatido, lutado, faltaram-me as forças muitas vezes, tive momentos de desespero que se traduziram em ataques de pânico e ansiedade, a minha autoestima anda em parte incerta e sinto-me um verdadeiro caco. Desabafei com poucas amigas sobre o assunto, porque falar disto em voz alta, verbalizar, soa a tamanha futilidade que até por isso me condeno. Não me tenho sentido incompreendida. Felizmente. E foi de uma dessas poucas amigas, com quem me abri, que me trouxe assim uma espécie de luz ao fundo do túnel, aquela luz que surge quando já se tentou tudo, quando já se procurou ajuda em vários sítios, sem resultado. 

Vamos começar pelo princípio.

Nunca fui, nem o procurei, a "gaja boa". Sou baixinha, tenho curvas, o típico biótipo de corpo da mulher latina: anca larga, cintura fina, coxa grossa. Na adolescência sofria a tentar disfarçar a anca larga, que uns elogiavam e outras invejavam. Mas fui amadurecendo e atingi a fase do aceitar-me como sou.

A par disto, nunca fui adepta de exercício físico. Tinha as aulas de educação física na escola, participei em alguns torneios de futebol feminino, gostava de voleibol (e joguei muito na praia nos verões com amigos). Entrei na faculdade e exercício zero. Depois comecei a trabalhar e fui sentido necessidade de me mexer, mais por uma questão de bem estar, de flexibilidade e de não subir um lance de escadas e ficar de bofes de fora. Tentei ginásios, aulas de grupo, tentei hidroginástica, nada me segurava. Até começar as danças. Que duram até hoje. Para completar as danças, experimentei umas aulas de cardiofitness que uma professora dá perto de minha casa e, uma vez mais, consegui fidelizar. Muito pelo teor das aulas, que envolve uma parte de dança, muito pelo carisma da professora e, indiscutivelmente, pelo grupo que conheci e hoje somos todas amigas e companheiras muito para além das aulas. Portanto, passei do zero para o exercício físico com intensidade moderada, três vezes por semana, cerca de 5h30 no total. 

A completar a tríade, desde criança que tive problemas de saúde relacionados com o aparelho digestivo. Refluxo gastroesofágico diagnosticado em criança, um problema para a vida, mas contornável com cuidados alimentares. Durante anos, em criança, tomei medicação, passei por vários internamentos, até estabilizar. Em adulta tive dois episódios que me levaram a medicação, mas está tudo controlado desde que mantenha uma alimentação saudável. Portanto, desde jovem que alimentação cuidada e saudável é o meu prato do dia. Ao longo do tempo, e nos últimos anos com ajuda e acompanhamento regular de uma nutricionista, fui conhecendo cada vez mais e melhor o meu organismo e estou perfeitamente disciplinada num plano alimentar, com diversos recursos e ajuste quando a situação assim o exige (por exemplo, quando estou no limiar da anemia por causa do défice de ferro, já sei como adequar a alimentação para normalizar).

O que me aconteceu nos últimos meses (ano)? Tenho engordado e aumentado de volume de forma absurda e sem aparente explicação. A nutricionista já desenhou vários planos, com recursos e medidas, alguns radicais, para ver se travava isto. Sem sucesso. E é desesperante ouvi-la dizer para manter o plano alimentar como estou a fazer, porque está tudo bem... 

Recorri a outras especialidades, em busca de algo que pudesse não estar bem em termos de saúde, tentando perceber os sinais que o corpo me dava (engordar, o inchaço extremo de pernas e pés). Endocrinologia foi o primeiro despiste. Uma bateria de análises hormonais, incluindo tiróide. Tudo impecável. Saudável que nem um pêro. O médico até brincou comigo e disse "deixe a sua tiróide em paz, vá-se embora que eu nunca mais a quero ver na vida, e olhe que é bom sinal se isso acontecer.". Confesso, fartei.me de chorar depois de sair da consulta. Eu sei, era muito mais grave ter um problema de saúde, ter detetado um daqueles problemas graves e complicados de tiróide. E foi a pensar assim que dei a volta e encarei o resultado dos testes com outros olhos. 

Novo despiste: cirurgia vascular. Tudo impecável. Não tenho problemas de circulação sanguínea, não tenho varizes, não tenho nada no sistema linfático que seja alarmante. É só retenção de líquidos. Devo continuar com a rotina de exercício físico que tenho, com a quantidade de água que ingiro, com a alimentação que tenho, devo tentar corrigir postura das pernas, já que passo muito tempo sentada no emprego (retificar cadeira, ou ter um apoio de pés que me permita ter as pernas num ângulo de 90º) e em situações de "crise" umas sessões de pressoterapia para ajudar a aliviar. Uma vez mais, a frustração bateu. Uma vez mais o "continue que está a fazer tudo bem" e no entanto não, não está tudo bem comigo. Mas ok, apoio de pés debaixo da secretária, umas sessões de pressoterapia, e as pernas e pés já desincharam e o alívio tem-se feito sentir.

Nova consulta na nutricionista: novo aumento de peso e volume. E está tudo bem em termos de saúde, e estou a fazer tudo bem... sinto-me a bater com a cabeça na parede. Independentemente dos esforços, o corpo não reage, não responde favoravelmente, estou em queda livre.

A roupa deixa de servir. Calças de ganga que comprei há um par de meses, não me servem. Se por um acaso, até consigo apertar o botão, sinto-me dentro de um espartilho que mais parece que me vai cortar ao meio.

O stress aumenta. A frustração idem. A autoestima já se foi há muito. E vou-me escondendo para crises de choro. Não reconheço o meu corpo. Não gosto do que vejo. E é absolutamente frustrante este "continue que está a fazer tudo bem". E continuo. A lanchar a meio da manhã uma gelatina e uma peça de fruta, a minha colega todos os dias enfarda iogurtes gregos, ora de caramelo, ora de morango, ora de outro sabor qualquer. Ela é magra, eu engordo (por osmose, só pode). 

Uma amiga falou-me de um médico (especialista em nutrição e obesidade) que a irmã mais velha procurou, porque andava exatamente como eu. Pior, ia ao ginásio todos os dias, esfolava-se toda na musculação, era um desatino para sair com ela para lanchar ou jantar porque ela tinha um monte de privações alimentares e em vez de emagrecer, engordava.

Lá me contou o caso da irmã, as consultas, o que mudou, o tratamento, etc. Pôs-me a falar com a irmã, que me contou na primeira pessoa as suas dúvidas e medos, mas que decidiu arriscar, já que nada fazia efeito. E vi, com os meus olhos, os resultados obtidos em seis meses. E agora, já meses depois de ter terminado o tratamento e ter tido alta, não regrediu, está ótima, impecável, saudável e imensuravelmente feliz e bem consigo própria.

Marquei consulta. Contei os dias até chegar o dia. Foi ontem.

O médico é excelente. Explica tudo, põe-nos à vontade, está ali para nos ajudar e para tratar uma doença. Porque obesidade é doença. Ainda mais nestes casos como o meu, em que nada justifica o aumento de peso, porque há uma vida ativa, uma alimentação regrada e saudável, e não existe qualquer problema de saúde que esteja associado ao aumento de peso.

A consulta é longa. Numa primeira parte ele explica um pouco o plano alimentar, faz questões para fazer o seu diagnóstico, vai explicando diversos fatores. Confesso, muito do que ele disse não é novidade para mim. O plano alimentar que ele apresentou como ponto de partida para uma alimentação saudável, é o que eu já faço há imenso tempo (e não, não tem cenas esquisitas, suplementos proteicos nem merdas que vêm embaladas). O esquema do prato, metade legumes, a outra metade dividida em dois, uma para proteína (peixe ou carnes brancas) e outra para hidratos de absorção lenta (2 colheres de arroz integral, duas batatas, massa, de preferência integral). Sim, é isto o meu prato. Ao almoço, ao jantar dispenso os hidratos, os lanches da manhã e da tarde, os pequenos almoços. Sim, já tenho isto interiorizado. É a minha alimentação. Não é dieta. 

O médico percebeu isso. Não me estava a dar nenhuma novidade. Não tinha que mudar os meus hábitos alimentares, porque estão lá, enraizados e bem aplicados. Mostrei as análises hormonais. Excelente, não há problemas na tiróide. Fome emocional, nível de apetite (se ando sempre com vontade de comer, se uso a comida como compensação ou conforto). Não, não e não.  Há aquele dia em que apetece mesmo um chocolate. Mas é tão esporádico. E nem sempre cedo ao "apetece", até porque nem sempre calha ter onde ir buscar o chocolate. E se calha de ceder, não como a tablete inteira. Dois quadrados e já fico com o apetite satisfeito. Portanto, não posso dizer que tenha fome emocional e que a comida seja o meu conforto ou a minha compensação. Gosto de comer, bem. Mas não estou a todo o instante a pensar em comida. 

Ia começando a esmorecer. Não havia nada de novo para mim. Mas ele continuava nas suas explicações. E eu ia percebendo o que estava a fazer bem e menos bem. Então há duas coisas que vou mudar: o tempo em que como, sim, eu como muito rápido, com aquela sensação de não ter tempo a perder, tenho de comer em 10 minutos... errado. Devemos mastigar bem os alimentos, fazer a refeição entre 20 a 30 minutos, por um lado para facilitar o trabalho do estômago para a digestão do bolo alimentar, por outro para dar tempo de o cérebro perceber que o corpo já está saciado e não precisa de mais comida. E este ponto leva ao seguinte: quantidades. E sim, posso não passar o tempo todo a comer, mas quando como, é em quantidade. Uma perna de frango chega, e eu como a segunda e por vezes mais meia. Um bife de frango, do tamanho da palma da mão, chega. E eu como dois ou três. Ok, anotações feitas. Hábitos a mudar.

Veio a segunda parte da consulta: medições. Também nada de novo, foi constatar o óbvio: estou com excesso de peso (não é obesidade, mas é excesso de peso). As percentagens que foram medidas traduzem aquilo que eu já sentia e sabia, mas quando quantificadas dão toda uma nova perspetiva. Se estou com excesso de peso, obviamente a percentagem de massa gorda é excessiva. No entanto, a percentagem de massa muscular é boa, portanto sim, o exercício físico tem os seus efeitos positivos. Já a percentagem de retenção de líquidos é assustadoramente alta... o que não me surpreende de todo. 

Tratamento: pois, aqui começa o meu "drama queen". Medicação. A explicação é muito simples. É uma doença. E nós por tudo e por nada tomamos Benuron e Brufen. Verdade que ainda há duas semanas fui a dois médicos diferentes, mudei de medicação, gastei na farmácia em três dias o que podia ter gasto no Jamie's Italian, e ainda sobrava uns trocos para ir tomar café à Brasileira, e tudo isto para tratar de uma gripe. Estou curada. A gripe já foi. Daqui a uns meses, daqui a um ano, posso ter outra, verdade, mas esta já foi. E foi isto que o médico explicou. A medicação é para curar o corpo. Não é para ter efeitos enquanto se toma e depois voltar ao mesmo. Reticente, aceitei. Lá prescreveu a medicação, juntando diferentes componentes de acordo com aquilo que eu preciso. Estou à espera que a medicação chegue para começar o tratamento. Vou manter-me acompanhada pela nutricionista, até para poder contornar efeitos secundários que possam advir. E dentro de dois meses volto para uma reavaliação.

Como disse lá bem atrás: é a luz ao fundo do túnel. Se estou estupidamente otimista? Não. Estou bastante cética. Com um medo absurdo de ser mais um falhanço. De não ver resultados. E aí, talvez me reste apenas e só um caminho: ir ao psiquiatra. E fazer uma peregrinação às lojas para refazer o guarda roupa. 

Ontem contava a umas amigas, via messenger, a consulta. Tentava brincar com a situação e disse que era frustrante comer como um coelho e engordar como o peru de natal. Riram-se, valorizaram o meu bom humor... e mal sabiam elas como me caíam as lágrimas pela cara.

Já o Gandhe tem estado ao meu lado nesta odisseia. Faz o que pode e eu admito que não tenho facilitado em nada o processo. Ainda há pouco veio aqui ter comigo e eu pedi-lhe para me deixar sozinha. E escrevo isto enquanto choro, porque tenho tanto medo de ser mais um falhanço, porque a seguir já não tenho nada... é a minha derradeira tábua de salvação. E não, não quero ser a Sara Sampaio ou a Irina Shayk. Só quero voltar ao corpo que eu conheço e aceitei. Só quero voltar a sentir-me bem na minha pele.

Agora vou aproveitar a semana que tirei de férias para me recompor. Descansar. Recarregar baterias. Sossegar o espírito.

Perdoem-me o testamento. O testemunho também. Pode haver quem se identifique. Quem me ache uma parvalhona fútil. Quem me compreenda. A única coisa que eu peço que evitem é vir-me dar lições do que comer. É que a sério, ao conhecimento que já tenho acumulado, eu é que podia começar a dar dicas de nutrição. 

25
Set18

A solidão que dói

Estava de férias quando, abalroada pela notícia da minha amiga, decidi agir em vez de permanecer no “eu gostava, um dia eu vou…”. Procurei informações, liguei, e soube que afinal eu não precisava deslocar-me a outra cidade para me inscrever como dadora de medula. No mesmo dia tornei-me dadora de sangue e de medula. Fiz testes, preenchi questionários, tive uma consulta médica, fui logo para a doação de sangue, onde me deu um fanico (tensão baixa é assim), e saí de lá com um orgulho (e braço dorido) de dever cumprido.

Mas quase fui barrada logo na primeira fase de seleção. No questionário para dador de medula, mesmo no fim, eram solicitados dois contactos de emergência. Preenchi o primeiro com os dados do Gandhe. Deixei o segundo em branco, achando que era opcional. Só que não, e só aceitavam a minha humilde candidatura com preenchimento de um segundo contacto.

Para a grande maioria das pessoas isto é simples e corriqueiro, até devem sobrar opções de preenchimento. Há pai, mãe, irmãos, tios, primos, and so on... mas eu bloqueei, completamente congelada na minha consciente (e dolorosa) solidão. Não há mãe, não há pai, não há irmãos, os primos estão longe, distantes, em vidas tão afastadas da minha, os tios idem… quem me sobra?

Gandhe sugeriu pôr os dados da mãe dele. Que remédio, ou engolia esse orgulho e dava os dados da sogra como meu segundo contacto de emergência, ou vinha-me embora sem sequer ter tentado voluntariar-me para o banco de dadores.

Vim para casa, meia combalida do que se passou durante a doação de sangue, e totalmente aturdida com um vazio que se abriu dentro do meu peito.

À noite, já mais recuperada, entrei em contacto com uma das minhas amigas mais próximas, que ironicamente, vive noutra cidade, expliquei-lhe o que tinha acontecido e perguntei se podia, caso voltasse a confrontar-me com uma situação destas, dar os dados dela. Prontamente me disse que sim, que era uma honra. E agradeci tanto quanto pude, engolindo esta solidão amarga de não ter ninguém na vida.

Ontem voltei a sentir este amargo. Num momento de grande dor e angústia, quis falar e não tinha com quem. Corri mentalmente a lista dos amigos com quem me sentiria à vontade para procurar colo, e felizmente ainda são alguns. Detive-me, no entanto, por não querer incomodar. Têm a sua vida, alguns com filhos pequenos, pouco passava da hora de jantar, estariam ocupados a jantar com a família, a arrumar a cozinha, a preparar as coisas para o dia seguinte, eventualmente a descansar ou a aproveitar para ver uma série, um filme, para namorar ou ler uma história ao filho.

Fiquei sozinha, enrolada no meu casulo, quebrando o silêncio com as soluçantes lágrimas que caíam desamparadas sobre o peito vazio.

Eu sei, tenho este feitio orgulhoso de me fazer de forte e independente. Estupidamente consciente das carências afetivas e emocionais que fazem parte do meu ADN, da minha herança genética e educacional, criei esta fortaleza em meu redor. Mas caramba, é uma muralha de papel. E que não fosse, até os fortes caem e precisam de uma mão estendida, de um ombro que ampare a cabeça que tomba, de um abraço que conforte, de uma palavra que acalme a angústia.

 

21
Dez17

Abrir a Caixa de Pandora

Ando ausente, desaparecida, recolhida nas minhas angústias existenciais.

Ando reprimida, ferida, perdida nas minhas dúvidas sobre o que fazer à minha vidinha.

Começo a ver o pessoal a fazer o balanço do ano e eu só penso que o meu 2017 foi um ano filho da puta. Já tive anos piores, verdade. Assim, de repente, lembro-me que o ano de 2013 foi negro, muito mau, repleto de acontecimentos tristes, marcado por desemprego prolongado, doenças e perdas de pessoas, quer por falecimento, quer porque se cortou relações que não traziam nada de bom. Foi um ano cabrão, como me lembro de o ter rotulado.

2017 foi marcado por uma mudança de funções e de equipa de trabalho. Desencadeou ataques de pânico e ansiedade, passei a viver sob stress constante, deixei de ter hora de sair e tenho vindo a prejudicar muito da minha vida pessoal e do meu equilíbrio mental e emocional. Remuneração? Ah ah ah... a mesma, mais congelada que o Pólo Norte na era do gelo. Aliás, o salário mínimo acabou de subir e estou expectante de ver se na próxima subida apanha o valor do meu auferimento, tal é a proximidade. 

Entrei numa espiral descendente e a levar tudo de arrasto, qual avalanche. Sinto-me cansada, exausta mesmo, sem pontinha de energia para o que quer que seja. Sinto-me frustrada por tanto trabalho e luta para andar a pagar contas e contas e mais contas, e ainda me aparecem em casa as dívidas dos outros. Sim, porque também no arranque deste ano entrou-me pela caixa de correio adentro um aviso do tribunal sobre a penhora de metade da casa da sogra. Ora, por motivos que lhe foram alheios, a sogra pôs, há dois (ou três) anos, a casa em nome dos dois filhos. Agora a metade que pertence à filha querida foi penhorada por dívida à banca. E o tribunal envia cartinhas ao co-proprietário do imóvel. Cai-me assim uma bomba quando andávamos precisamente a pensar em investir num apartamento maior ou quiçá numa moradia. Até já andávamos com o olho numas moradias térreas que começaram a ser construídas perto de onde moramos. Arruma planos para o lado. Semanas a fio vivi com um peso no peito de ver quando é que recebíamos uma intimação qualquer que nos obrigasse a comprar a parte da casa penhorada. Ah e contar à sogra? Nem pensar. A senhora sofre do coração e se soubesse que tem parte da casa penhorada ainda lhe dava um treco. Eu receava mesmo era que choramingasse para o filho comprar a parte da irmã. É. Andar a comprar metades de casas por causa das dívidas dos outros e para outros morarem. Foram semanas que vivi num estado lastimável, a bater com a cabeça nas paredes. Entretanto, a ausência de mais comunicações judiciais e a parca informação da riqueza da cunhada sobre estar a tratar do assunto ajudaram a que os animos serenassem. Ainda assim, em constante sobressalto, à espera de nova bomba a qualquer momento.

A relação entre mim e o Gandhe já viu melhores dias. Houve crises, sim, foram existindo as chatices comuns de uma relação entre pessoas com as suas diferenças, mas nos últimos meses, talvez fruto deste enorme cansaço de tudo que tomou conta de mim, eu ando a matutar o que fazer, se vale a pena manter esta relação ou ficar sozinha, por conta e risco. O que não quero de todo é manter uma relação porque convém, porque dá jeito para dividir despesas, porque ia ser uma dor de cabeça vender apartamento e dividir bens e mimimimi. Porque eu não tenho ninguém, não tenho família a quem recorrer, não tenho uma casa materna ou paterna onde possa pedir refúgio. E já lhe disse isto tudo e ele ficou em estado de choque. As coisas entre nós têm andado num limbo, desde o verão e as malfadadas férias. 

E quando uma pessoa tenta recolher os cacos porque é mais que hora de retomar caminho e ir à luta, recebo a notícia que a minha avó materna faleceu e há uma porta que de repente se abre e me empurra para um regresso a uma família que não via há mais de quatro anos.

O reencontro com a minha mãe foi estranho. Pouco falámos das nossas divergências, mas deixei bem claro que tenho mais de 30 anos, sou adulta, independente, dona da minha vida e que já chega de humilhações e insultos e acusações. Ela engoliu em seco. O resto de conversa foi sobre a minha avó e os dramas que já tinham começado por causa da herança. Dramas dos quais me afastei logo porque disse que os herdeiros são os três filhos e são eles que têm de se entender. Netos e genros/noras não têm de meter o nariz.

Vivi os dias seguintes ao funeral num estado de apatia. Uma sensação de vazio, de fragilidade de quem viu a sua fortaleza de cartão ruir em menos de nada. Um medo do que estaria para vir, agora que essa porta se abrira.

Voltei aos poucos à rotina, trabalho e mais trabalho, o stress dos dias compridos, cheios, na correria do costume, que me ocupa e me esgota.

Ah, e o natal que se aproxima. Começo a fazer planos para ficar em casa, a dois, sendo que os dois é o que está, e quatro gatos. Ainda assim, receio algum convite de última hora, seja da parte da minha família, seja da sogra. Não me apetece nada fazer fretes e entrar em hipocrisias. Começo a querer combinar as coisas com ele. O que faço para jantar, para o almoço do dia 25. Como não tenho muito jeito para doçarias, podíamos encomendar fora uma ou duas sobremesas, pouca coisa, somos só nós. E ele nada, provavelmente à espera da mãezinha querida. Mas mãezinha querida já o excluiu. Diz que não anda muito bem, que não quer fazer nada para o natal. Curioso. Volta a repetir a história quando não tem mais ninguém. Se tivesse outros familiares para receber no natal, então já éramos gente para também sermos incluídos. Pelo menos ele já se mentalizou que olha, afinal também só me tem a mim e já planeou comigo o natal a dois.

Começo a respirar de alívio por não haver sinais da minha mãe. E eis que recebo um telefonema da minha prima. Congelo. Medo de um convite que não quero que venha, que não sei como recusar. Respira, Pandora. Afinal só te ligaram para que resolvas uma parte da herança que ninguém quer: o cão da velhota. Enquanto andam às turras com o dinheiro e as contas, com a madeira e os pinhais, com as propriedades e a casa e o recheio, a mim atiram com o problema do cão. 

 

E de repente é assim que me sinto: como o cão que ninguém quer, mas falta coragem para abandonar.

 

 

07
Dez17

Era tudo o que (não) precisava!

Sentia-me já com algum animo para juntar os meus cacos, sacudir o pó e fazer-me à estrada da vida, quando a vida, que não está para meiguices, achou que era hora de eu levar uma valente bofetada.

Recebi ontem uma SMS, vinda da mãe de quem não havia qualquer relação desde há quatro anos, a informar que a minha avó faleceu.

E se eu era um monte de cacos, em poeira de caquinhos fiquei. 

 

28
Nov17

Registo para a posteridade

- Se eu fosse rica, fazia como a outra. Ia a Itália enfardar, ia à Índia meditar e encontrar o meu lado zen, ia às ilhas gregas, enfim, viajava. Assim como não sou rica, tenho contas para pagar, resta-me enfiar a cabeça na areia e fingir uma normalidade que não sinto. (Pandora dixit)

- Isso seria fugir da realidade, não significa que fosses mais feliz. (Amiga de Pandora dixit)

- Ora foda-se, mas é todo um outro nível chorar num cruzeiro pelas ilhas gregas. (Pandora remata)

 Vale o teu sentido de humor. (Amiga de Pandora conclui)

 

 

Até os heróis caem. E somos humanas, a nossa força também falha, também quebra. Mas somos feitas desse material que quebra e cola-se. Fomos forjadas numa vida de dificuldades. Somos sobreviventes. E podemos cair, quebrar, chorar, sangrar. Só que há-de chegar aquele momento em que cuspimos nas feridas, sacudimos o pó, juntamos os cacos e seguimos caminho. (Pandora)

 

Trechos de uma conversa muito terapêutica. Uma conversa que destrancou a porta do quarto escuro onde me refugiei nas últimas semanas. Uma conversa que me pôs a expulsar os demónios e soltar angústias. Uma conversa onde falei e ouvi, compreendi e aceitei. E o compromisso mútuo: no meio disto tudo, temos de ser nós, por nós.  

 
23
Nov17

Escondida, mas não esquecida?!

E afinal há quem note a falta de sorriso.

E o ar abatido.

Há quem me alerte para os indícios de depressão à vista.

Há quem, na distância de kms, me resgate do isolamento dormente em que me tenho mantido.

Sabes lá tu o que o teu "está tudo bem contigo?" me fez estremecer?

Afinal sou vista. Afinal há quem se lembre que eu existo. E que posso estar a precisar de um "olá, está tudo bem contigo?".

 

15
Mar17

Pandora, a sebastianista!

Longe de associar o epíteto do título ao messianismo. É mais esta a alegoria: Pandora, a desaparecida em combate que regressa num fim de dia nublado, a adivinhar chuva. Tempestade da grossa. 

Sim, estou viva. Ninguém diria. Eu bem que podia ser contratada para o elenco de Walking Dead, o que eles poupavam em caraterização. As olheiras assustam, a pele anda pálida, nem o BB Cream com umas pinceladas de pó bronzeador disfarçam a palidez da minha figura. Mas pronto, como fui pintar o cabelo no sábado e mantenho o vermelhão, a pele deve achar que ruiva à séria é cara pálida. Num todo, sou uma figura esquálida. O que significa que estou magra. Acabadinho de confirmar na consulta com a nutricionista. Nem tudo pode ser mau.

Ontem bati recorde. Saí do trabalho passava das 20h. Hoje cheguei primeiro que a chefe e ela perguntou se eu lá tinha dormido. As coisas feias que me passaram pela mente enquanto esboçava um sorrisinho amarelo. Pálido, claro está.

Tento inspirar e respirar. Acima de tudo luto para não pirar de vez. Já faltou mais.

Muito trabalho. Stress. Ansiedade. Muito trabalho. Stress. Ca nervos. Muito trabalho.

Sem energia para nada. Nada mesmo. Sinto-me tão derreada que não tenho vontade do que quer que seja. Sinto-me a falhar com tudo e todos. Sem cabeça para as banalidades do dia a dia de uma adulta, como preparar refeições, sem disposição para pequenos prazeres como ler ou escrever no blog. Tão mas tão esgotada que uma amiga enviou-me um email há duas semanas e como não é nada normal eu não responder "rápido", ela mandou-me sms a perguntar se eu estava bem, se tinha recebido o email, se estava chateada com ela. Céus, senti um soco no estômago por falhar com quem tanto gosto. 

Hoje saí da consulta da nutricionista e olhei para o relógio. Uma hora para o início da aula de dança. Queria ir, mas não sentia forças. Os olhos ardem, a cabeça mói, o corpo quebra. Conduzi até casa. Quero um banho quente e dormir. Mas dormir à séria. Não o dormir inquieto que tenho tido nas últimas semanas.

Frustrada. Ando completamente frustrada. E revoltada também. Tanta luta, trabalho, sacrifício, e cai-me à porta de casa uma bomba relógio que estamos a segurar, com todo o cuidado, até ser o "momento" de a fazer explodir. E vai ser uma grande merda. E vai sobrar para nós, que não temos nada a ver com o assunto. E não consigo prever a dimensão dos estragos. E é fodido ser uma espécie de papel higiénico que serve para limpar a grande cagada que os outros fazem. Já dizia uma antiga colega minha: família, só a sagrada e mesmo essa é presa à parede com um prego. 

O meu desejo mais profundo neste momento era naufragar numa ilha deserta. Longe de tudo e de todos. Cansada, farta de gente egoísta, irresponsável, sem noção da porcaria que faz e completamente nas tintas para os estragos que provoca na vida de quem está no seu canto, a lutar dia a dia pela sua vida e futuro. Uma merda. 

Portanto, de messias que carrega a esperança nada tenho. E vou desaparecer novamente em combate, que isto anda tão negro, mas tão negro, que mais vale remeter-me ao silêncio e solidão. Não há força nem sarcasmo que ajude a suportar tanta coisa... que ainda mal começou. É caso para dizer que a procissão ainda nem chegou ao adro. Imagino quando chegar... Ou não quero imaginar, porque só me passam cenários dantescos pela cabeça.

Era ter um botão OFF, fazer um reset. Sem direito a backup. 

 

03
Nov16

Era uma vez (começam assim as estórias)

Numa pequena aldeia vivia um casal com dois filhos. O pai trabalhava numa boa fábrica, a mãe era dona de casa, explorava terras e criava vacas e porcos. Um filho varão, que era o orgulho dos pais, uma filha mais nova que foi criada para rainha. Um dia veio uma terceira filha. Sem contarem. Sem quererem. Vinha estragar o casal. Mas já que veio, que fosse para cuidar das terras, das vacas e dos porcos e para olhar pela velhice dos pais. Não precisava de ir à escola. Enquanto reuniram esforços para que o filho varão estudasse e, quem sabe, se fizesse doutor, a filha do meio aprendeu costura e foi à escola, a mais nova desde cedo era para tratar da casa, das terras e dos animais. Não era filha, era criada de servir. Comum naquele tempo. Só que o filho varão não queria estudar, queria boa vida, e o pai, para não perder o filho na gandaia, meteu-o a trabalhar nos barcos de pesca de bacalhau. 

Nessa mesma pequena aldeia havia outra família. Um pai, vindo da cidade, uma mãe, filha de família rica da terra, dois filhos pequenos. Rumaram à capital porque o pai arranjou lá bom trabalho. A aldeia era para passar férias. O filho mais velho queria ser arquiteto, o pai tirano não deixou. Teria a mesma profissão que ele, e para isso bastava um curso técnico. O mais novo era o menino lindo dos papás, fazia o que queria. Ambos os filhos tiveram de pertencer, contrariados, à Mocidade Portuguesa, quando jovens tornaram-se comunistas, como protesto contra o regime e contra o pai tirano, salazarista convicto. Um dia dá-se o 25 de abril e o pai tirano, defensor acérrimo do regime salazarista, elemento integrante da PIDE, vê-se expulso da capital sob ameaças várias. Exilou-se na aldeia de origem. Filho mais velho, rapaz educado e criado na capital, vê-se na plenitude dos seus 19/20 anos isolado na aldeia do norte. 

Num qualquer dia o destino destes dois jovens cruza-se. A jovem que era criada de servir dos próprios pais e irmãos, que foi à escola só até à 4ª classe, e porque a isso obrigaram os pais, e o jovem que vinha da cidade grande, revoltado e contrariado. Podia ser uma grande história de amor. Não foi. Ele provavelmente viu na campónia uma forma de se divertir, ela viu o bilhete de saída da vida miserável que lhe estava predestinada à nascença. E para que o seu objetivo fosse conseguido, simula uma gravidez e obriga o jovem a casar com ela. E ele, feita a desonra e com um suposto filho a caminho, contrariado, não tem outro remédio senão casar. Entretanto há um suposto aborto. E o casamento manteve-se. Reza a história que ele quis um fato preto para o casamento, porque casar, casava, mas a seguir enviuvava e usaria o mesmo fato no funeral da mulher. As fotos atestam: ele casou de fato preto. E a ela valeu-lhe o sogro, que mesmo não gostando dela, não queria as mãos do filho manchadas, e a salvou de um estrangulamento, dias depois do casamento.

E, entretanto, este casamento que era suposto pouco durar, acabou por durar quase 25 anos. E porquê? Porque uma criança nasceu. 13 meses depois do fatídico casamento. Uma menina. A filha que a avó paterna sempre quis ter e não teve, a neta dos avós maternos que não era neta, porque era filha da sua filha desnaturada que tinha fugido ao seu destino: cuidar da velhice dos pais, cuidar das terras, das vacas e dos porcos.

A menina era a salvação da sua mãe, a condenação do seu pai. Pai que não ia trabalhar porque não tinha obrigação de sustentar mulher e filha. Valeram-lhe os avós paternos, apesar de tudo. A menina não tem culpa. Dizia a avó paterna, com voz autoritária e olhos gélidos, como quem ralha ao filho, mesmo adulto, porque não sabe o que faz. A menina não soube o que era colo ou mimo. Soube o que era pancada. Isso sim. Porque depressa se tornou o saco de pancada, onde pai e mãe descarregavam os seus ódios e raivas. Das memórias de infância não há recordação de um abraço do pai, mas de pontapés e empurrões. Há cicatrizes que atestam, como aquela no canto do seu olho esquerdo. Acreditava a menina, de memórias fugazes, que essa cicatriz tinha sido quando o Farrusco, cão da avó, a tinha mordido. Não filha, dissera-lhe um dia a avó, de voz embargada e olhos baços, o Farrusco mordeu-te na orelha. Isso foi o desgraçado do teu pai que te fez, quando te deu um pontapé só porque estavas a espreitar para os sacos do Pão de Açúcar que estávamos a pôr na mala do carro. Bateste na fechadura da mala do carro e por um triz não furaste o olho. Outras cicatrizes há. A memória apagou-se na menina, ou pela tenra idade ou porque é demasiado mau para recordar, e a avó calava-se muitas vezes, escondendo histórias e engolindo lágrimas, embora soasse a ladainha aquele: cuidado com a menina, isso não se faz!

A menina foi crescendo. A mãe numa posse louca por essa filha, já que ela tinha de ser tudo o que ela não fora. Estuda para mostrares aos outros, estuda para fazeres ver que hás-de ser doutora. O pai, numa raiva cega que crescia abafada. Um dia aquele casal, que de casal nada tinha, deixou de se falar. Na verdade, deixou de gritar e discutir. Numa casa de três era insuportável o silêncio. Porque aquele pai, que de pai pouco tinha, achou que também devia deixar de falar para a filha. Tinha 14 anos. As prendinhas que ela lhe dava, numa busca de afeto, acabavam estilhaçadas no chão, atiradas contra a parede. Os postais que lhe escrevia eram rasgados em pedaços. Mas era a filha adolescente que lhe cozinhava ou lhe tratava da roupa, porque ele se recusava a comer o que a mulher cozinhava, e a mulher recusava-se a tratar-lhe da roupa. E a filha foi crescendo. No meio de uma guerra entre os pais, num completo desespero pela falta de afeto do pai e possessividade da mãe. Do pai recebia apenas dinheiro para estudar. Porque era a promessa dele, a sua única obrigação: quando ela acabar de estudar, desapareço  - profetizava. E quando, pressionada pela mãe para ser doutora, foi para a universidade, o pai ficou ainda mais revoltado, numa fúria cega, porque eram mais uns anos a que se via numa obrigação para com aquela filha que não quis. Foste a desgraça do teu pai - dissera-lhe o avô paterno, já ela era uma jovem adulta, quase formada, quase (ilusoriamente) livre. Não devias ter nascido. Palavras marcadas a ferro e fogo, mas que fazem sentido. Se essa menina não tivesse nascido, aquele casamento, que nunca deveria ter acontecido, acabaria mais cedo. Ainda que condenado socialmente, não havia filhos, seria mais fácil. Mas não. A menina, que nunca pediu para nascer, havia chegado ao mundo para complicar toda esta história. Do lado da família da mãe nunca houve família, porque nunca lhe foi reconhecido esse estatuto. Do lado da família do pai carregava esse fardo de ter sido a desgraça e a infelicidade.

A menina sou eu. E o meu pai só me dirigiu a palavra na altura do divórcio porque precisava de um intermediário para resolver questões práticas, como separação de bens. 

O meu pai faz anos hoje. E eu vasculho nas minhas memórias o aniversário em que ele me tenha dado um beijo de parabéns. Já não falo em prendas. Falo num beijo, num abraço de pai. Não encontro. Encontro as surras que apanhei porque sim. Encontro as vezes que fiz xixi pelas pernas abaixo com medo dele, porque eu tinha tido o desplante de me servir da comida primeiro, e ele simplesmente puxava da toalha, ia tudo para o chão e ninguém comia. Lembro-me de ter trabalhado num part-time nas férias de verão antes do 12º ano e nesse ano nem um centavo ele deu para os livros, porque eu tinha trabalhado, tinha dinheiro, que comprasse eu os livros. E comprei. E paguei metade da carta de condução que comecei a tirar nesse ano. E a merda do carro que supostamente ele me ofereceu na altura que completei 19 anos, foi apenas a sua oportunidade de deixar de ser o motorista da minha mãe (que não tem carta de condução), porque logo a seguir comprou um comercial para ele e deixou de me levar a mim ou a ela onde fosse preciso, e acreditem que "onde fosse preciso" era mesmo o estritamente necessário e indispensável. Na memória tenho um dia em que, adolescente, precisei de ir ao dentista com urgência, e fui de bicicleta, à chuva, à vila mais próxima, que ficava a cerca de 8 km. Porque ele não tinha obrigação de levar a filha ao médico. Na memória tenho muitos episódios destes. Marcados a ferro e fogo na alma. E amaldiçoo este sangue que me corre nas veias. 

O meu pai faz anos hoje. E eu vasculho nas minhas memórias de 35 anos de vida por um motivo que me faça pegar no telefone e dar-lhe os parabéns. Não encontro. A sociedade, que tanto condena os filhos porque pais são pais e tudo se lhes perdoa, que me desculpe, mas eu não encontro motivo algum para pegar no telefone e dar os parabéns ao meu pai. 

Quando arranco de dentro deste meu armário de esqueletos estas memórias dão dolorosas, eu só me pergunto como sobrevivi. Ainda que saiba que, algumas vezes, estive à beira do abismo. Uma mãe tóxica, um pai ausente, frio, distante, que via em mim a sua desgraça e infelicidade. Que cocktail explosivo poderia ter resultado?

Este podia ser o argumento rebuscado de uma qualquer novela mexicana. Não é. É a pura realidade. Aquela em que nasci, cresci, e sabe-se lá como, sobrevivi. Uma história que começou muito antes de eu existir, e por causa da qual eu levei com todas as suas nefastas consequências. A minha única culpa foi a de ter nascido. 

Respiro fundo e fecho o armário, qual Pandora que fecha a sua caixa guardando a esperança. Talvez tenha sido a esperança a mostrar-me o fundo do túnel. O que não nos mata, torna-nos mais fortes. E quando faço estas incursões ao meu passado sinto-me forte. E hei-de continuar a ser forte. Esgotada, mas forte. Mesmo sozinha, orfã de pais vivos, mas forte. Afinal, com pais destes, quem precisa de inimigos? Aprendi desde cedo, muito cedo, a contar comigo e só comigo. Foi assim que me moldaram a ferro e fogo.

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O meu pai faz anos hoje. E eu lembro-me dele. E não encontro uma única boa memória. Dar-lhe os parabéns porquê? Para quê? 

 

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