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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

08
Jul19

Aura negra

Há cerca de duas semanas disseram-me que eu andava com uma aura negra. Apercebi-me que raro era o dia em que não havia alguém a perguntar-me se eu estava bem, embora a resposta estivesse estampada no meu rosto. Uma colega apanhou-me a chorar na casa de banho do trabalho. Deu-me a mão e disse: se quiseres falar... e deixou-me sozinha, porque percebeu que era assim que eu queria estar.

Dou por mim a lembrar-me dos versos de uma canção: porque eu só quero ir aonde eu não vou, porque eu só estou bem onde eu não estou, como se estes versos fossem o eco do meu íntimo. Quero estar em qualquer outro lugar, e sei que chegando lá, quereria outro. 

Recentemente fiz um exercício de reflexão, o balanço da primeira metade do ano.

Talvez esse pequeno exercício me tenha ajudado a desbloquear qualquer coisa aqui dentro. Talvez porque pus para fora o que me sufocava cá dentro.

Se está tudo bem comigo? Está. Vai estando. Em análise são problemas comuns, ordinários desta vida de adulto, que está longe de ser "aquela cena muita fixe" que imaginávamos que seria nos nossos inocentes e ignorantes 15 anos, quando queríamos crescer rápido e ser independentes, e donos da nossa vida, e mudar o mundo, e ser livres, e conquistar todos os sonhos com a mesma leveza com que uma criança brinca com uma bola. Só que não. 

No entanto, à minha volta, com pessoas que amo e estimo muito, tem sido um rol de desgraças: mortes, doenças graves, problemas vários. E não me importo nada de ser a sua almofada, onde elas choram as mágoas, partilham os medos e as angústias. Desde muito cedo que as pessoas se sentem à vontade para falar comigo. E na maioria das vezes é só o que querem: falar, pôr para fora. E eu devia mesmo ter seguido aquele conselho, de há muitos anos, de ir para a área da psicologia. Provavelmente estaria onde estou hoje, a trabalhar numa área "nada a ver". 

Dizia que não me importo, até porque ao ouvir os outros, esqueço-me de mim. Ouvir os verdadeiros dramas dos outros faz-me pensar que eu não tenho problemas, faz-me relativizar aquilo a que ando a dar demasiada importância e me anda a esgotar.

Contudo, também eu sou humana e tenho os meus dias. Na semana passada, num dia mau, mesmo mau, eu estava mal, doía-me a cabeça, sentia tudo a explodir cá dentro, uma vontade de chorar de raiva e frustração, e uma amiga precisava ligar-me à noite. Precisava falar. Foi um dia particularmente difícil, e cheio. Reunião de condomínio até às 21h, jantei às 22h, e, ainda assim, avisei-a que se quisesse ligar, podia. E ouvi. Mas não conseguia dizer nada mais que uns hum hum, pois, e por momentos instalava-se um silêncio que eu queria preencher, mas não sabia como, a minha cabeça explodia. Felizmente ela retomava o relato. E no fim senti, creio, na sua voz que estava mais calma, com as ideias mais claras, ou mais organizadas. Alguém a ouviu, e ela a falar arrumou os seus pensamentos, partilhou os seus medos, expôs as suas inseguranças e fragilidades, como que ao fazê-lo elas se tornassem mais leves. Noutro dia eu teria falado mais. Opinado mais. Naquele dia não tive sequer força para isso (desculpa). No entanto, e apesar do estado lastimável em que eu estava, apesar de ser tarde e más horas e estar exausta, sabia que ela precisava de mim. Precisava que a ouvisse. E eu ouvi. E quando desligou, fui tomar banho e chorei as minhas angústias. Diluíram-se na água que corria e me lavava corpo e, eventualmente, alma.

Hoje, comentei com a pessoa que me disse que eu andava como uma aura negra que aquela expressão me tinha deixado a pensar. Reforçou que tem notado que ando demasiado triste ultimamente, eu que era tão bem disposta e cheia de energia, que fazia questão de criar bom ambiente e fazer as pessoas rirem e agora vê-me isolada e quieta no meu cantinho. Eu disse apenas, sem detalhes, que os últimos meses não têm sido fáceis. Que há situações que, não sendo diretamente comigo, são com pessoas que estimo muito e as tenho ouvido, acabando por absorver as suas preocupações e angústias. Que fico revoltada com histórias de vida que estão a acontecer e não é justo. Não é justo uma rapariga mais nova que eu, com três filhos, super bem disposta e boa onda, descobrir que tem cancro maligno na tiróide. Ou que a sobrinha de 16 anos de um "velho" amigo dos tempos de escola está a lutar contra um linfoma. Foda-se, ela devia estar a divertir-se, a sair com as amigas, a beber os primeiros copos à noite, a apaixonar-se e desapaixonar-se. Angustia-me saber que uma amiga está num sofrimento atroz por ver a irmã a lutar pela vida, uma luta inglória e devastadora, que está a deixar sequelas graves. A irmã tem a minha idade, dois filhos pequenos, um futuro pela frente. Um amigo que se apressou a editar e publicar o seu livro, porque uma doença grave veio, e lá está ele numa luta pela vida, porque ainda quer viver e tem muito que fazer. Só que as notícias não têm sido animadoras. Morreu a avó do Gandhe, no mesmo dia morreu o pai de uma grande amiga, recentemente o sogro de outra grande amiga, porque não bastava ter a irmã doente, também tinha o sogro em estado terminal de cancro. E eu sinto-me tão impotente, porque quero ajudar todas estas pessoas, que têm de se fazer fortes para todos os outros, como se não lhes fosse permitido fraquejarem, chorarem ou simplesmente desabafarem o que lhes vai na alma, e não consigo. Só as posso ouvir. E soubessem elas como muitas vezes ao telefone ou nos canais de conversação online estou a ouvi-las/lê-las com as lágrimas a caírem-me pela cara. 

A minha aura negra é este acumular de nuvens sombrias que pairam sobre mim. É eu sentir-me na pele daquelas pessoas e pensar: e se fosse eu? É aqui que vem a puta da solidão, aquela que existe por causa desta orfandade de família viva, que não quer saber de mim, que nunca quis, que mais valia que eu não tivesse nascido. Quem teria eu junto ao meu leito se estivesse meses num hospital a lutar pela vida?... Ninguém. 

E porém sei que há várias pessoas que me vêem, que vêem a minha aura negra, a tristeza nos meus olhos, que estão à espera que eu seja capaz de falar para me ouvirem... algumas talvez me visitassem, com um inútil ramo de flores, se fosse eu a estar semanas num hospital. E sou grata por essas pessoas. No entanto, há este buraco negro dentro de mim, este vazio que ninguém pode preencher. E eu quero ignorá-lo. Tem dias que consigo. Tem dias que não.

Vejo todos os sinais de alarme: depressão à vista! Há coisas dentro de mim que têm mesmo de ser resolvidas. Curadas. Fechadas. Seladas. Para me libertar. 

Já me informei de psicólogos na zona, já pedi referências, já vi preços. E também já vi que é uma especialidade não contemplada nos seguros de saúde que tenho. E sabendo que não é como ir ali ao dentista e em duas consultas ter o problema resolvido, ando aqui a pensar que há certas especialidades na saúde que não são para toda a gent€. E infelizmente a saúde mental ainda é muito relegada para um plano de "menor" importância.

Há pouco frisei, reiterei e deixei bem claro a uma amiga que eu estou aqui com e para ela. Para chorar comigo e a seguir rirmos de parvoíces. Para partilhar comigo a dor que guarda para não dar parte de fraca. E digo-o de coração e com sinceridade. Estou aqui. (quase que parecia a Maria Leal agora: Pandora aqui só para vocês - momento parvo do post). 

Quanto à minha aura negra, vai desvanecer-se. Eu sei que sim. Que eu tenha coragem para a enfrentar, sabedoria para a soprar para longe. Que fique apenas a lição que a vida me quis dar com esta fase. Ainda estou a tentar descobri-la, mas hei-de lá chegar. Já a missão de vida, creio que a estou a encontrar. Parece que sou boa a ouvir pessoas e a aliviar-lhe as dores da alma. Mesmo nos dias e que só consigo dizer hum hum, pois... pelo menos isso. A ter ter algum valor, que seja a ajudar quem precisa. 

 

01
Jul19

Pensamento do dia (e uma espécie de balanço do primeiro semestre)

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Dia 1 de julho. Metade do ano já se foi. Anseio pelo verão que poucos sinais ainda deu de si. A única coisa que já fui fazer à praia foi ir até à esplanada, um dia chovia, no outro estava um vento frio que não se podia. Quando daqui a exatamente um mês for de férias continuarei com esta cor de posta de pescada cozida, porque os fins de semana de julho já estão todos preenchidos na agenda, e pouco ou nada resta para uma fugida até à praia, só para estender a toalha e apanhar uma cor. Em boa verdade se diga, olho pela janela e mais parece que vai chover. Continuo a usar roupa meia estação e dias há que rapo frio. 

O primeiro semestre do ano resume-se a duas simples e curtas palavras: uma merda!

Têm sido golpes atrás de golpes. Doenças, mortes, acidentes, chatices, frustrações ao rubro, revoltas engolidas que agora se soltam num vómito descontrolado.

Sinto-me totalmente esgotada. Sem paciência para nada nem ninguém. Alguém, por favor, me leve para uma ilha deserta?! Se bem que no estado em que estou, nem a mim me aguento, portanto façam-me uma sono-terapia. Três meses a dormir. Mas vá, só depois do verão, se é que ele vai, finalmente, chegar. É que eu gosto do verão. Muito. E portanto acalento esta pequenina esperança de agora arrebitar um pouco o estado de espírito.

Sinto-me sozinha. Em parte mea culpa, que tenho esta mania que sou durona e aguento os golpes, que consigo suportar o mundo dos outros às costas, absorver no meu íntimo as suas dores e angústias e preocupações, ter sempre uma palavra, um ombro, uma mão estendida, a opinião que me pedem ou ideias que precisam. E depois as minhas dores, onde ficam? Entaladas na garganta, embrulhadas no estômago. E quando tenho um pouco a coragem de falar levo com respostas que, até pode ser o que preciso ouvir, mas foda-se, um abraço e um "vai correr tudo bem, vais ficar bem, estou aqui" também era bom. Não há quem me ouça, ou queira ouvir. Todos vivem os seus dias, os seus problemas. A sua vida. Eu entendo. Resigno-me.

Sinto-me perdida. Aquilo que acho que sei, que aprendi, que evolui, afinal parece que não, que estava enganada, que nada sei, nada aprendi, nada evolui. Deixo (outra vez) que me façam sentir uma porcaria sem qualquer valor. E sim, à la Gustavo Santos e os seus clichés, eu SEI que sou a primeira pessoa que tem de gostar de si, de se valorizar, de confiar em si e nas suas capacidades. Mas fica difícil com tanta coisa e tanta gente à volta a derrubar, a mandar ao chão, a virar as costas porque não tem tempo, não quer saber, tem mais em que pensar. Ou simplesmente nem se lembram que existo.

Sinto-me sem forças. Já só quero ficar quieta no meu canto, gritar ao mundo:

Não: não quero nada

Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

(...)

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

(...)

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! *

* Álvaro de Campos, LISBON REVISITED (1923)

Metade do ano foi-se e eu estou feita em cacos. 

Vamos ver como corre a outra metade. Como chegarei daqui a seis meses. Parecem uma eternidade de tempo, e no entanto passam assim, num estalar de dedos.

As coisas estão a acalmar, é certo. Só que pelo sim, pelo não, ainda não me sinto capaz de respirar fundo, serenar e olhar o horizonte com a coragem e a esperança de que vai ficar tudo bem. De que vou ficar bem.

 

18
Fev19

Oh fevereiro mais amargo

A culpa não é de fevereiro, mas, bolas, está a ser um mês complicado. Difícil de gerir tantas emoções e tantos imprevistos a acontecerem.

Tenho dedicado tempo (e dinheiro, que as idas à veterinária estão a ser por minha conta) com a Ritinha (eu chamo-lhe Bebecas, e quando pensei que fosse ficar comigo já estava rebatizada de Becas).

A gatinha foi resgatada da rua porque a minha sogra quis e se comprometeu. Só que depois de quase duas semanas lá em casa dela, acabou por vir para nós para o processo de socialização, que tem sido um sucesso. Acompanhamento veterinário. Entretanto percebemos que a constipação que tinha não passou por si, apesar de já estar num ambiente controlado e mais confortável, e levo com a sogra a dar as suas ordens: levem-na e quando estiver boa tragam-na!

Caiu-me tão mal. É que eu saí do consultório com a prescrição do tratamento a saber que ela sozinha não o ia conseguir administrar. A gata ainda não estava totalmente dócil para que lhe fossem dados comprimidos pela garganta abaixo, nem xaropes, nem limpezas de ouvidos, só uma pessoa. Mas não, Gandhe garante que a mãe sabe tratar de gatos, só que ainda mal o filho tinha começado a explicar o tratamento, sai-se com aquela pérola. Podia ser um, eu não devo conseguir fazer isso tudo sozinha, ou vocês vêm cá ajudar-me, ou ficam com ela mais estes dias. Não. À boa maneira dela, é eu quero, posso e mando, levem-na e quando estiver boa tragam-na. Confesso: não me apeteceu devolver-lhe gata nenhuma. Adiante.

Mais uma semana com ela, a dar-lhe a medicação e a continuar com o processo de socialização. Evolução extraordinária, quer na constipação que ao fim de 48h se notava melhorias extraordinárias, quer no desenvolvimento dela. Ganhou peso, começou a brincar e a interagir mais, a confiar mais. Ainda que, sempre que ela sai do seu "ambiente" e muda de divisão, fica novamente em estado de alerta, com tendência a procurar um esconderijo. Normal... é um animal que veio da rua e tem os instintos de sobrevivência apurados.

Nova consulta a um sábado, Ritinha curada e ótima, é para ir para a sua dona legítima, estava fora o fim de semana. Ok, regressou a casa na segunda ao fim do dia. E eu aproveitei mais dois dias de namoro com a Bebecas, no domingo à tarde dormiu horas ao meu colo embrulhada num casaco meu, felpudo e fofo que ela adora.

Na segunda lá vai Ritinha, com os brinquedos dela, com o meu casaco que ela adora, para a sua casa. E lá fica, calma, junto do seu amiguinho.

Dia seguinte teve um surto, escondeu-se, parece que bufou e atirou as garras à sogra, que liga para o filho a mandar vir. Recebo eu uma mensagem a anunciar-me que ia buscar a gata, ficavamos com cinco, e ponto final, não estava mais para se chatear.

À tarde mudou a 180º. "Ai que a gatinha está mais calma, é um fofa, até dormiu a sesta comigo, brinca muito e gosta muito de estar aqui no casaco..."

É que aquela alminha finalmente fez o que desde início lhe dissemos que era necessário fazer, faz parte do processo. Aquele animal precisa estar num ambiente controlado para se ir sentindo seguro e começar a confiar. Lá pôs a gata num quarto que tem desocupado, montou lá as coisas dela, comida, areia, brinquedos, o arranhador que lhe comprámos, a transportadora onde ela tanto gosta de estar, o meu casaco. Claro que o animal acalmou, num ambiente sossegado e com as coisas que lhe são familiares. 

Mas eu passei-me. A mulher já não é nenhuma miúda de 5 anos para andar a fazer birras que agora não quero a gata, agora já quero. Passei-me com o filho, claro, que se pôs logo armado em cavaleiro andante em defesa das merdas da mãe. Discussão feia, muito feia. Grave. E ele disse-me coisas que me quebraram, que rasgaram feridas antigas que foram cicatrizando com o tempo. Estava tão magoada com ele, que mesmo ele, horas depois (nada normal, nada dele), ter-me vindo pedir desculpa pelas coisas que disse, porque também estava stressado com as pancas da mãe, eu só consegui responder-lhe: partiste-me com o que disseste. Hoje não consigo aceitar o teu pedido de desculpas. Talvez amanhã.

Mas a vida tem umas ironias do catano. Manhã seguinte, eu sem pregar olho, estupidamente magoada, com umas olheiras que mais parecia um panda, venho para trabalhar e carro não pega. Puta que pariu a minha sorte. Mais alguma coisa?

Ligo a uma colega, peço-lhe boleia. Envio ao Gandhe uma mensagem: Smart não pega.

Já estava no trabalho quando ele me liga. A saber o que se passou. Ficou de sair um pouco mais cedo, apanhar-me na hora de almoço e ir ver o que se passava com o carro.

E é assim, que os problemas reais do dia a dia funcionam como um balde de água fria numa fogueira ainda incandescente. 

Felizmente foi a bateria do carro, trocou-se e não foi nenhuma fortuna. Problema resolvido.

Vem o dia dos namorados. Eu já tinha encomendado uns cupcakes de chocolate, que uma colega de trabalho faz (deliciosos), com desenhos alusivos ao tema. Deixei a caixa dos cupacakes na bancada da cozinha. Quando ele chegou, enviou-me foto, agradeceu e disse que tratava do jantar. Quando cheguei a casa até tive direito a um cesto de rosas. 

Pronto, vale o esforço dele tentar colar o que partiu dias antes. 

Mas se as coisas pareciam estar a acalmar, estávamos iludidos. Cai a bomba. A avó dele sofreu nesse dia um AVC. Grave. Muito grave. Estava na UCI, ligada às máquinas. Prognóstico muito reservado, médica de serviço disse que dificilmente passava daquela noite.

Mas passou. E ainda está "viva", se é que aquilo é vida. Já não está ligada às máquinas, já respira por ela (uma respiração que até mete dó e aflição só de ouvir), não recuperou a consiciência e dizem os médicos que não esperemos que "acorde": Só estamos à espera que o coração efetivamente pare - citando os médicos. Ponto. Assim, direto, sem paninhos quentes. Sem ilusões de um falso milagre. Sem esperanças alimentadas por engodos.

E tem sido isto, uma angustiante espera, um constante olhar o telefone à espera da notícia que está anunciada, para breve. À espera do quando. 

Se fica por aqui? Podia ficar, dava jeito, não dava?! Mas não. Que isto quando vem maré de azar, varre tudo.

O meu mais novo está doente. Já lhe notei mudanças na quinta passada, mas ontem foi a derradeira confirmação. Hoje a primeira coisa que fiz foi marcar consulta com a veterinária. E vamos lá ver o que se passa.

Por favor, podemos ficar por aqui? Já há demasiados cacos espalhados, demasiadas feridas e angústias.

E nestes momentos em que a morte ronda os nossos, nos faz uma visita e nos lembra assim, em modo bofetada, que o nosso tempo tem um fim. Ganhamos esta dolorosa consciência da nossa finitude. A única certeza que temos na puta da vida: ninguém fica cá para semente. Todos temos o nosso fim. Só não sabemos como e quando. E que merda andamos a fazer com o tempo que temos? Que sentido estamos a dar ao privilégio, tantas vezes descurado e esquecido, de estarmos vivos e termos imensas oportunidades de poder fazer tanta coisa.

A bofetada que levamos e nos faz acordar para o enorme desperdício que fazemos do nosso tempo/vida. 

Fevereiro está a ser amargo. E doloroso. Mas que sirva para o relembrar de uma lição de vida que constantemente esquecemos: carpe diem! Amanhã pode ser tarde demais. Então não desperdicemos o nosso tempo, a nossa vida, em merdas que não trazem nada de bom, não acrescentam valor, não nos fazem melhor nem mais felizes.

 

08
Jan19

O privilégio de conhecer pessoas verdadeiramente inspiradoras

Agradeço, muitas vezes, o privilégio de me ter cruzado na vida com pessoas verdadeiramente inspiradoras. Deve ser uma forma de a vida ou o universo me compensar pela "família" em que calhei nascer e crescer. 

Nos sítios mais improváveis conheci pessoas verdadeiramente inspiradoras. Pela sua sensibilidade, pela sua alma gentil, pela bondade do seu coração, por qualquer dom que transmitiram e despertaram em mim uma empatia especial. Pelos valores que me passaram. Pela coragem que demonstraram. Pela sua vivência e luta. Pelo exemplo bom que deram e me inspiraram a ser melhor. Pelo carinho que partilharam. 

No curso (online) de escrita criativa que fiz entre abril e outubro de 2013, altura em que estava desempregada e dediquei o muito tempo livre que tinha a investir em mim e nas minhas paixões, conheci (uma forma de dizer, porque acabei por não poder ir ao almoço convívio que organizaram em Lisboa e, portanto, fisicamente não os conheci, não os abracei) pessoas diferentes, com diferentes estilos, de diferentes áreas, com diferentes objetivos, mas que partilhavam um objetivo: explorar a capacidade de escrever. 

Como é natural, criei mais afinidade com uns do que com outros. Tal como uma turma de 18 ou 20 alunos. Entre tantas personalidades diferentes, as afinidades surgem mais com uns do que com outros. Entre os 18 elementos da "turma", senti-me mais próxima de três pessoas, em especial.

Uma delas é uma verdadeira fonte de coragem e inspiração de vida, de luta, de resiliência. Criou um blog, e para quem quiser visitar, aqui fica o link: Viver a Flutuar. Deixo aqui um grande beijinho para ela, sei que me lê, assim como a leio. Ainda que nem sempre a troca de palavras seja assídua, sabemos que estamos uma de cada lado, unidas por uma qualquer força que nos atrai. Quando quiseres, sabes onde me encontrar!

A outra, era uma mulher tão doce e delicada, com um sentido maternal enorme que me emocionou particularmente. De uma extrema simpatia e gentileza, aquilo a que comummente se chama "coração de ouro". Fomos mantendo contacto pelas redes sociais, mas entretanto perdi-lhe o rasto. Ana Diniz, se me lês, dá notícias, porque ainda me lembro bem de ti e tenho saudades das nossas conversas.

E por fim, um verdadeiro senhor. Das pessoas do grupo foi, para mim, o que mais evolui na escrita. Foi arrebatador ver como evoluía e crescia no seu talento até então adormecido. Como se foi tornando maior a cada desafio semanal de escrita que tínhamos. O último e derradeiro desafio de escrita do curso venceu-o com maioria absoluta de votos, e foi bem merecido! Foi magnífico. 

Depois deste curso, foi este senhor que vi continuar a investir na escrita. Mais formações. Participações em desafios de escrita. Microcontos, e sei lá que mais. Era com orgulho que ia lendo o que ele ia escrevendo e partilhando, que rejubilava quando ele vencia um qualquer desafio de escrita. Pensava com os meus botões que se alguém devia mesmo escrever um livro e merecia publicá-lo era ele. E caramba, que privilégio tê-lo visto "nascer" como escritor.

É com um imensurável orgulho que anuncio que acabei de comprar o livro dele. Não sei quantos exemplares editou. Sei que divulgou no nosso grupo de escrita, já pouco ativo, um tanto ou quanto abandonado. Sei que está a reunir esforços para os distribuir a quem esteja interessado. E, infelizmente, sei que está numa luta cruel com uma doença grave, e passo a citar as palavras do próprio: "daquelas doenças em que agradeço todos os dias acordar bem".

E é fodido! Sim, é fodido. Porque estas merdas acontecem a boas pessoas, a pessoas especiais, a pessoas que têm tanto de bom para dar aos outros e ao mundo. E se fiquei imensamente orgulhosa por ver que ele publicou o seu livro, foi um murro no estômago saber a situação delicada e frágil em que se encontra.

Por isso agradeço. Agradeço muito ter-te conhecido, ter visto nascer esse escritor adormecido dentro de ti. Ter-te visto evoluir e ser maior. Agradeço que os nossos caminhos se tenham cruzado. E é com ansiedade que espero que me chegue às mãos o teu livro. Que guardarei como tesouro. Porque és tu em palavras, as tuas palavras. E nunca serás esquecido, porque as palavras que deixas escritas e partilhadas são eternas.

De coração, espero que continues esta luta contra a doença com toda a coragem e resiliência. Espero que tenhas muitos dias em que agradeças acordar bem. E nos quais possas escrever. Porque a tua escrita é extraordinária! 

 

30
Out18

Pandora abre a caixa... e tenta segurar a esperança!

Há dias li o post Blogar e o Estado de Espírito, do Triptofano, e pensei cá com os meus botões que eu partilho da mesma incapacidade de separar o estado emocional da escrita no blog. 

Primeiro: sou pessoa demasiado expressiva e, por muito que tente disfarçar o que estou a sentir, há sempre algo na minha voz, no meu olhar, no sorriso, na expressão facial que me denuncia. 

Segundo: o blog para mim é a mesma coisa que eram os diários perfumados com uma pseudo fechadura que usei na minha adolescência (hello 90's). É o meu espaço de terapia pela via da escrita. Um espaço que agora, ao contrário de outrora, é partilhado e aberto a comentários e outras partilhas. Mas é um espaço meu, logo das minhas vivências, emoções, estados de espírito, opiniões, dos meus dias. Sou eu que decido o que partilhar, até onde me expor, e acreditem (para quem aqui anda há mais tempo não é desconhecido) já houve textos que foram um verdadeiro, e creio corajoso, strip tease da minha alma e experiência de vida.

O meu estado de espírito reflete-se, invariavelmente, no que aqui exponho. E se, por ventura, ando mais desaparecida, não é só falta de tempo, porque esse arranja-se quando se quer, é porque estou a passar uma daquelas fases bem merdosas na vida, e só me apetece estar muito quieta no meu canto a lamber as feridas e a recuperar forças. Depois regresso. E até posso partilhar as dores pelas quais passei. Mas só quando já consegui reunir as minhas forças e ter um plano de ação para lidar com os problemas e dificuldades.

Hoje venho abrir, uma vez mais, a caixa de Pandora. Há algo que me tem derrubado nos últimos meses (ano) e me tem atirado para um pântano de lamas traiçoeiras. Tenho-me debatido, lutado, faltaram-me as forças muitas vezes, tive momentos de desespero que se traduziram em ataques de pânico e ansiedade, a minha autoestima anda em parte incerta e sinto-me um verdadeiro caco. Desabafei com poucas amigas sobre o assunto, porque falar disto em voz alta, verbalizar, soa a tamanha futilidade que até por isso me condeno. Não me tenho sentido incompreendida. Felizmente. E foi de uma dessas poucas amigas, com quem me abri, que me trouxe assim uma espécie de luz ao fundo do túnel, aquela luz que surge quando já se tentou tudo, quando já se procurou ajuda em vários sítios, sem resultado. 

Vamos começar pelo princípio.

Nunca fui, nem o procurei, a "gaja boa". Sou baixinha, tenho curvas, o típico biótipo de corpo da mulher latina: anca larga, cintura fina, coxa grossa. Na adolescência sofria a tentar disfarçar a anca larga, que uns elogiavam e outras invejavam. Mas fui amadurecendo e atingi a fase do aceitar-me como sou.

A par disto, nunca fui adepta de exercício físico. Tinha as aulas de educação física na escola, participei em alguns torneios de futebol feminino, gostava de voleibol (e joguei muito na praia nos verões com amigos). Entrei na faculdade e exercício zero. Depois comecei a trabalhar e fui sentido necessidade de me mexer, mais por uma questão de bem estar, de flexibilidade e de não subir um lance de escadas e ficar de bofes de fora. Tentei ginásios, aulas de grupo, tentei hidroginástica, nada me segurava. Até começar as danças. Que duram até hoje. Para completar as danças, experimentei umas aulas de cardiofitness que uma professora dá perto de minha casa e, uma vez mais, consegui fidelizar. Muito pelo teor das aulas, que envolve uma parte de dança, muito pelo carisma da professora e, indiscutivelmente, pelo grupo que conheci e hoje somos todas amigas e companheiras muito para além das aulas. Portanto, passei do zero para o exercício físico com intensidade moderada, três vezes por semana, cerca de 5h30 no total. 

A completar a tríade, desde criança que tive problemas de saúde relacionados com o aparelho digestivo. Refluxo gastroesofágico diagnosticado em criança, um problema para a vida, mas contornável com cuidados alimentares. Durante anos, em criança, tomei medicação, passei por vários internamentos, até estabilizar. Em adulta tive dois episódios que me levaram a medicação, mas está tudo controlado desde que mantenha uma alimentação saudável. Portanto, desde jovem que alimentação cuidada e saudável é o meu prato do dia. Ao longo do tempo, e nos últimos anos com ajuda e acompanhamento regular de uma nutricionista, fui conhecendo cada vez mais e melhor o meu organismo e estou perfeitamente disciplinada num plano alimentar, com diversos recursos e ajuste quando a situação assim o exige (por exemplo, quando estou no limiar da anemia por causa do défice de ferro, já sei como adequar a alimentação para normalizar).

O que me aconteceu nos últimos meses (ano)? Tenho engordado e aumentado de volume de forma absurda e sem aparente explicação. A nutricionista já desenhou vários planos, com recursos e medidas, alguns radicais, para ver se travava isto. Sem sucesso. E é desesperante ouvi-la dizer para manter o plano alimentar como estou a fazer, porque está tudo bem... 

Recorri a outras especialidades, em busca de algo que pudesse não estar bem em termos de saúde, tentando perceber os sinais que o corpo me dava (engordar, o inchaço extremo de pernas e pés). Endocrinologia foi o primeiro despiste. Uma bateria de análises hormonais, incluindo tiróide. Tudo impecável. Saudável que nem um pêro. O médico até brincou comigo e disse "deixe a sua tiróide em paz, vá-se embora que eu nunca mais a quero ver na vida, e olhe que é bom sinal se isso acontecer.". Confesso, fartei.me de chorar depois de sair da consulta. Eu sei, era muito mais grave ter um problema de saúde, ter detetado um daqueles problemas graves e complicados de tiróide. E foi a pensar assim que dei a volta e encarei o resultado dos testes com outros olhos. 

Novo despiste: cirurgia vascular. Tudo impecável. Não tenho problemas de circulação sanguínea, não tenho varizes, não tenho nada no sistema linfático que seja alarmante. É só retenção de líquidos. Devo continuar com a rotina de exercício físico que tenho, com a quantidade de água que ingiro, com a alimentação que tenho, devo tentar corrigir postura das pernas, já que passo muito tempo sentada no emprego (retificar cadeira, ou ter um apoio de pés que me permita ter as pernas num ângulo de 90º) e em situações de "crise" umas sessões de pressoterapia para ajudar a aliviar. Uma vez mais, a frustração bateu. Uma vez mais o "continue que está a fazer tudo bem" e no entanto não, não está tudo bem comigo. Mas ok, apoio de pés debaixo da secretária, umas sessões de pressoterapia, e as pernas e pés já desincharam e o alívio tem-se feito sentir.

Nova consulta na nutricionista: novo aumento de peso e volume. E está tudo bem em termos de saúde, e estou a fazer tudo bem... sinto-me a bater com a cabeça na parede. Independentemente dos esforços, o corpo não reage, não responde favoravelmente, estou em queda livre.

A roupa deixa de servir. Calças de ganga que comprei há um par de meses, não me servem. Se por um acaso, até consigo apertar o botão, sinto-me dentro de um espartilho que mais parece que me vai cortar ao meio.

O stress aumenta. A frustração idem. A autoestima já se foi há muito. E vou-me escondendo para crises de choro. Não reconheço o meu corpo. Não gosto do que vejo. E é absolutamente frustrante este "continue que está a fazer tudo bem". E continuo. A lanchar a meio da manhã uma gelatina e uma peça de fruta, a minha colega todos os dias enfarda iogurtes gregos, ora de caramelo, ora de morango, ora de outro sabor qualquer. Ela é magra, eu engordo (por osmose, só pode). 

Uma amiga falou-me de um médico (especialista em nutrição e obesidade) que a irmã mais velha procurou, porque andava exatamente como eu. Pior, ia ao ginásio todos os dias, esfolava-se toda na musculação, era um desatino para sair com ela para lanchar ou jantar porque ela tinha um monte de privações alimentares e em vez de emagrecer, engordava.

Lá me contou o caso da irmã, as consultas, o que mudou, o tratamento, etc. Pôs-me a falar com a irmã, que me contou na primeira pessoa as suas dúvidas e medos, mas que decidiu arriscar, já que nada fazia efeito. E vi, com os meus olhos, os resultados obtidos em seis meses. E agora, já meses depois de ter terminado o tratamento e ter tido alta, não regrediu, está ótima, impecável, saudável e imensuravelmente feliz e bem consigo própria.

Marquei consulta. Contei os dias até chegar o dia. Foi ontem.

O médico é excelente. Explica tudo, põe-nos à vontade, está ali para nos ajudar e para tratar uma doença. Porque obesidade é doença. Ainda mais nestes casos como o meu, em que nada justifica o aumento de peso, porque há uma vida ativa, uma alimentação regrada e saudável, e não existe qualquer problema de saúde que esteja associado ao aumento de peso.

A consulta é longa. Numa primeira parte ele explica um pouco o plano alimentar, faz questões para fazer o seu diagnóstico, vai explicando diversos fatores. Confesso, muito do que ele disse não é novidade para mim. O plano alimentar que ele apresentou como ponto de partida para uma alimentação saudável, é o que eu já faço há imenso tempo (e não, não tem cenas esquisitas, suplementos proteicos nem merdas que vêm embaladas). O esquema do prato, metade legumes, a outra metade dividida em dois, uma para proteína (peixe ou carnes brancas) e outra para hidratos de absorção lenta (2 colheres de arroz integral, duas batatas, massa, de preferência integral). Sim, é isto o meu prato. Ao almoço, ao jantar dispenso os hidratos, os lanches da manhã e da tarde, os pequenos almoços. Sim, já tenho isto interiorizado. É a minha alimentação. Não é dieta. 

O médico percebeu isso. Não me estava a dar nenhuma novidade. Não tinha que mudar os meus hábitos alimentares, porque estão lá, enraizados e bem aplicados. Mostrei as análises hormonais. Excelente, não há problemas na tiróide. Fome emocional, nível de apetite (se ando sempre com vontade de comer, se uso a comida como compensação ou conforto). Não, não e não.  Há aquele dia em que apetece mesmo um chocolate. Mas é tão esporádico. E nem sempre cedo ao "apetece", até porque nem sempre calha ter onde ir buscar o chocolate. E se calha de ceder, não como a tablete inteira. Dois quadrados e já fico com o apetite satisfeito. Portanto, não posso dizer que tenha fome emocional e que a comida seja o meu conforto ou a minha compensação. Gosto de comer, bem. Mas não estou a todo o instante a pensar em comida. 

Ia começando a esmorecer. Não havia nada de novo para mim. Mas ele continuava nas suas explicações. E eu ia percebendo o que estava a fazer bem e menos bem. Então há duas coisas que vou mudar: o tempo em que como, sim, eu como muito rápido, com aquela sensação de não ter tempo a perder, tenho de comer em 10 minutos... errado. Devemos mastigar bem os alimentos, fazer a refeição entre 20 a 30 minutos, por um lado para facilitar o trabalho do estômago para a digestão do bolo alimentar, por outro para dar tempo de o cérebro perceber que o corpo já está saciado e não precisa de mais comida. E este ponto leva ao seguinte: quantidades. E sim, posso não passar o tempo todo a comer, mas quando como, é em quantidade. Uma perna de frango chega, e eu como a segunda e por vezes mais meia. Um bife de frango, do tamanho da palma da mão, chega. E eu como dois ou três. Ok, anotações feitas. Hábitos a mudar.

Veio a segunda parte da consulta: medições. Também nada de novo, foi constatar o óbvio: estou com excesso de peso (não é obesidade, mas é excesso de peso). As percentagens que foram medidas traduzem aquilo que eu já sentia e sabia, mas quando quantificadas dão toda uma nova perspetiva. Se estou com excesso de peso, obviamente a percentagem de massa gorda é excessiva. No entanto, a percentagem de massa muscular é boa, portanto sim, o exercício físico tem os seus efeitos positivos. Já a percentagem de retenção de líquidos é assustadoramente alta... o que não me surpreende de todo. 

Tratamento: pois, aqui começa o meu "drama queen". Medicação. A explicação é muito simples. É uma doença. E nós por tudo e por nada tomamos Benuron e Brufen. Verdade que ainda há duas semanas fui a dois médicos diferentes, mudei de medicação, gastei na farmácia em três dias o que podia ter gasto no Jamie's Italian, e ainda sobrava uns trocos para ir tomar café à Brasileira, e tudo isto para tratar de uma gripe. Estou curada. A gripe já foi. Daqui a uns meses, daqui a um ano, posso ter outra, verdade, mas esta já foi. E foi isto que o médico explicou. A medicação é para curar o corpo. Não é para ter efeitos enquanto se toma e depois voltar ao mesmo. Reticente, aceitei. Lá prescreveu a medicação, juntando diferentes componentes de acordo com aquilo que eu preciso. Estou à espera que a medicação chegue para começar o tratamento. Vou manter-me acompanhada pela nutricionista, até para poder contornar efeitos secundários que possam advir. E dentro de dois meses volto para uma reavaliação.

Como disse lá bem atrás: é a luz ao fundo do túnel. Se estou estupidamente otimista? Não. Estou bastante cética. Com um medo absurdo de ser mais um falhanço. De não ver resultados. E aí, talvez me reste apenas e só um caminho: ir ao psiquiatra. E fazer uma peregrinação às lojas para refazer o guarda roupa. 

Ontem contava a umas amigas, via messenger, a consulta. Tentava brincar com a situação e disse que era frustrante comer como um coelho e engordar como o peru de natal. Riram-se, valorizaram o meu bom humor... e mal sabiam elas como me caíam as lágrimas pela cara.

Já o Gandhe tem estado ao meu lado nesta odisseia. Faz o que pode e eu admito que não tenho facilitado em nada o processo. Ainda há pouco veio aqui ter comigo e eu pedi-lhe para me deixar sozinha. E escrevo isto enquanto choro, porque tenho tanto medo de ser mais um falhanço, porque a seguir já não tenho nada... é a minha derradeira tábua de salvação. E não, não quero ser a Sara Sampaio ou a Irina Shayk. Só quero voltar ao corpo que eu conheço e aceitei. Só quero voltar a sentir-me bem na minha pele.

Agora vou aproveitar a semana que tirei de férias para me recompor. Descansar. Recarregar baterias. Sossegar o espírito.

Perdoem-me o testamento. O testemunho também. Pode haver quem se identifique. Quem me ache uma parvalhona fútil. Quem me compreenda. A única coisa que eu peço que evitem é vir-me dar lições do que comer. É que a sério, ao conhecimento que já tenho acumulado, eu é que podia começar a dar dicas de nutrição. 

25
Set18

A solidão que dói

Estava de férias quando, abalroada pela notícia da minha amiga, decidi agir em vez de permanecer no “eu gostava, um dia eu vou…”. Procurei informações, liguei, e soube que afinal eu não precisava deslocar-me a outra cidade para me inscrever como dadora de medula. No mesmo dia tornei-me dadora de sangue e de medula. Fiz testes, preenchi questionários, tive uma consulta médica, fui logo para a doação de sangue, onde me deu um fanico (tensão baixa é assim), e saí de lá com um orgulho (e braço dorido) de dever cumprido.

Mas quase fui barrada logo na primeira fase de seleção. No questionário para dador de medula, mesmo no fim, eram solicitados dois contactos de emergência. Preenchi o primeiro com os dados do Gandhe. Deixei o segundo em branco, achando que era opcional. Só que não, e só aceitavam a minha humilde candidatura com preenchimento de um segundo contacto.

Para a grande maioria das pessoas isto é simples e corriqueiro, até devem sobrar opções de preenchimento. Há pai, mãe, irmãos, tios, primos, and so on... mas eu bloqueei, completamente congelada na minha consciente (e dolorosa) solidão. Não há mãe, não há pai, não há irmãos, os primos estão longe, distantes, em vidas tão afastadas da minha, os tios idem… quem me sobra?

Gandhe sugeriu pôr os dados da mãe dele. Que remédio, ou engolia esse orgulho e dava os dados da sogra como meu segundo contacto de emergência, ou vinha-me embora sem sequer ter tentado voluntariar-me para o banco de dadores.

Vim para casa, meia combalida do que se passou durante a doação de sangue, e totalmente aturdida com um vazio que se abriu dentro do meu peito.

À noite, já mais recuperada, entrei em contacto com uma das minhas amigas mais próximas, que ironicamente, vive noutra cidade, expliquei-lhe o que tinha acontecido e perguntei se podia, caso voltasse a confrontar-me com uma situação destas, dar os dados dela. Prontamente me disse que sim, que era uma honra. E agradeci tanto quanto pude, engolindo esta solidão amarga de não ter ninguém na vida.

Ontem voltei a sentir este amargo. Num momento de grande dor e angústia, quis falar e não tinha com quem. Corri mentalmente a lista dos amigos com quem me sentiria à vontade para procurar colo, e felizmente ainda são alguns. Detive-me, no entanto, por não querer incomodar. Têm a sua vida, alguns com filhos pequenos, pouco passava da hora de jantar, estariam ocupados a jantar com a família, a arrumar a cozinha, a preparar as coisas para o dia seguinte, eventualmente a descansar ou a aproveitar para ver uma série, um filme, para namorar ou ler uma história ao filho.

Fiquei sozinha, enrolada no meu casulo, quebrando o silêncio com as soluçantes lágrimas que caíam desamparadas sobre o peito vazio.

Eu sei, tenho este feitio orgulhoso de me fazer de forte e independente. Estupidamente consciente das carências afetivas e emocionais que fazem parte do meu ADN, da minha herança genética e educacional, criei esta fortaleza em meu redor. Mas caramba, é uma muralha de papel. E que não fosse, até os fortes caem e precisam de uma mão estendida, de um ombro que ampare a cabeça que tomba, de um abraço que conforte, de uma palavra que acalme a angústia.

 

21
Dez17

Abrir a Caixa de Pandora

Ando ausente, desaparecida, recolhida nas minhas angústias existenciais.

Ando reprimida, ferida, perdida nas minhas dúvidas sobre o que fazer à minha vidinha.

Começo a ver o pessoal a fazer o balanço do ano e eu só penso que o meu 2017 foi um ano filho da puta. Já tive anos piores, verdade. Assim, de repente, lembro-me que o ano de 2013 foi negro, muito mau, repleto de acontecimentos tristes, marcado por desemprego prolongado, doenças e perdas de pessoas, quer por falecimento, quer porque se cortou relações que não traziam nada de bom. Foi um ano cabrão, como me lembro de o ter rotulado.

2017 foi marcado por uma mudança de funções e de equipa de trabalho. Desencadeou ataques de pânico e ansiedade, passei a viver sob stress constante, deixei de ter hora de sair e tenho vindo a prejudicar muito da minha vida pessoal e do meu equilíbrio mental e emocional. Remuneração? Ah ah ah... a mesma, mais congelada que o Pólo Norte na era do gelo. Aliás, o salário mínimo acabou de subir e estou expectante de ver se na próxima subida apanha o valor do meu auferimento, tal é a proximidade. 

Entrei numa espiral descendente e a levar tudo de arrasto, qual avalanche. Sinto-me cansada, exausta mesmo, sem pontinha de energia para o que quer que seja. Sinto-me frustrada por tanto trabalho e luta para andar a pagar contas e contas e mais contas, e ainda me aparecem em casa as dívidas dos outros. Sim, porque também no arranque deste ano entrou-me pela caixa de correio adentro um aviso do tribunal sobre a penhora de metade da casa da sogra. Ora, por motivos que lhe foram alheios, a sogra pôs, há dois (ou três) anos, a casa em nome dos dois filhos. Agora a metade que pertence à filha querida foi penhorada por dívida à banca. E o tribunal envia cartinhas ao co-proprietário do imóvel. Cai-me assim uma bomba quando andávamos precisamente a pensar em investir num apartamento maior ou quiçá numa moradia. Até já andávamos com o olho numas moradias térreas que começaram a ser construídas perto de onde moramos. Arruma planos para o lado. Semanas a fio vivi com um peso no peito de ver quando é que recebíamos uma intimação qualquer que nos obrigasse a comprar a parte da casa penhorada. Ah e contar à sogra? Nem pensar. A senhora sofre do coração e se soubesse que tem parte da casa penhorada ainda lhe dava um treco. Eu receava mesmo era que choramingasse para o filho comprar a parte da irmã. É. Andar a comprar metades de casas por causa das dívidas dos outros e para outros morarem. Foram semanas que vivi num estado lastimável, a bater com a cabeça nas paredes. Entretanto, a ausência de mais comunicações judiciais e a parca informação da riqueza da cunhada sobre estar a tratar do assunto ajudaram a que os animos serenassem. Ainda assim, em constante sobressalto, à espera de nova bomba a qualquer momento.

A relação entre mim e o Gandhe já viu melhores dias. Houve crises, sim, foram existindo as chatices comuns de uma relação entre pessoas com as suas diferenças, mas nos últimos meses, talvez fruto deste enorme cansaço de tudo que tomou conta de mim, eu ando a matutar o que fazer, se vale a pena manter esta relação ou ficar sozinha, por conta e risco. O que não quero de todo é manter uma relação porque convém, porque dá jeito para dividir despesas, porque ia ser uma dor de cabeça vender apartamento e dividir bens e mimimimi. Porque eu não tenho ninguém, não tenho família a quem recorrer, não tenho uma casa materna ou paterna onde possa pedir refúgio. E já lhe disse isto tudo e ele ficou em estado de choque. As coisas entre nós têm andado num limbo, desde o verão e as malfadadas férias. 

E quando uma pessoa tenta recolher os cacos porque é mais que hora de retomar caminho e ir à luta, recebo a notícia que a minha avó materna faleceu e há uma porta que de repente se abre e me empurra para um regresso a uma família que não via há mais de quatro anos.

O reencontro com a minha mãe foi estranho. Pouco falámos das nossas divergências, mas deixei bem claro que tenho mais de 30 anos, sou adulta, independente, dona da minha vida e que já chega de humilhações e insultos e acusações. Ela engoliu em seco. O resto de conversa foi sobre a minha avó e os dramas que já tinham começado por causa da herança. Dramas dos quais me afastei logo porque disse que os herdeiros são os três filhos e são eles que têm de se entender. Netos e genros/noras não têm de meter o nariz.

Vivi os dias seguintes ao funeral num estado de apatia. Uma sensação de vazio, de fragilidade de quem viu a sua fortaleza de cartão ruir em menos de nada. Um medo do que estaria para vir, agora que essa porta se abrira.

Voltei aos poucos à rotina, trabalho e mais trabalho, o stress dos dias compridos, cheios, na correria do costume, que me ocupa e me esgota.

Ah, e o natal que se aproxima. Começo a fazer planos para ficar em casa, a dois, sendo que os dois é o que está, e quatro gatos. Ainda assim, receio algum convite de última hora, seja da parte da minha família, seja da sogra. Não me apetece nada fazer fretes e entrar em hipocrisias. Começo a querer combinar as coisas com ele. O que faço para jantar, para o almoço do dia 25. Como não tenho muito jeito para doçarias, podíamos encomendar fora uma ou duas sobremesas, pouca coisa, somos só nós. E ele nada, provavelmente à espera da mãezinha querida. Mas mãezinha querida já o excluiu. Diz que não anda muito bem, que não quer fazer nada para o natal. Curioso. Volta a repetir a história quando não tem mais ninguém. Se tivesse outros familiares para receber no natal, então já éramos gente para também sermos incluídos. Pelo menos ele já se mentalizou que olha, afinal também só me tem a mim e já planeou comigo o natal a dois.

Começo a respirar de alívio por não haver sinais da minha mãe. E eis que recebo um telefonema da minha prima. Congelo. Medo de um convite que não quero que venha, que não sei como recusar. Respira, Pandora. Afinal só te ligaram para que resolvas uma parte da herança que ninguém quer: o cão da velhota. Enquanto andam às turras com o dinheiro e as contas, com a madeira e os pinhais, com as propriedades e a casa e o recheio, a mim atiram com o problema do cão. 

 

E de repente é assim que me sinto: como o cão que ninguém quer, mas falta coragem para abandonar.

 

 

07
Dez17

Era tudo o que (não) precisava!

Sentia-me já com algum animo para juntar os meus cacos, sacudir o pó e fazer-me à estrada da vida, quando a vida, que não está para meiguices, achou que era hora de eu levar uma valente bofetada.

Recebi ontem uma SMS, vinda da mãe de quem não havia qualquer relação desde há quatro anos, a informar que a minha avó faleceu.

E se eu era um monte de cacos, em poeira de caquinhos fiquei. 

 

28
Nov17

Registo para a posteridade

- Se eu fosse rica, fazia como a outra. Ia a Itália enfardar, ia à Índia meditar e encontrar o meu lado zen, ia às ilhas gregas, enfim, viajava. Assim como não sou rica, tenho contas para pagar, resta-me enfiar a cabeça na areia e fingir uma normalidade que não sinto. (Pandora dixit)

- Isso seria fugir da realidade, não significa que fosses mais feliz. (Amiga de Pandora dixit)

- Ora foda-se, mas é todo um outro nível chorar num cruzeiro pelas ilhas gregas. (Pandora remata)

 Vale o teu sentido de humor. (Amiga de Pandora conclui)

 

 

Até os heróis caem. E somos humanas, a nossa força também falha, também quebra. Mas somos feitas desse material que quebra e cola-se. Fomos forjadas numa vida de dificuldades. Somos sobreviventes. E podemos cair, quebrar, chorar, sangrar. Só que há-de chegar aquele momento em que cuspimos nas feridas, sacudimos o pó, juntamos os cacos e seguimos caminho. (Pandora)

 

Trechos de uma conversa muito terapêutica. Uma conversa que destrancou a porta do quarto escuro onde me refugiei nas últimas semanas. Uma conversa que me pôs a expulsar os demónios e soltar angústias. Uma conversa onde falei e ouvi, compreendi e aceitei. E o compromisso mútuo: no meio disto tudo, temos de ser nós, por nós.  

 

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