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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

01
Jul21

A coragem (ou loucura) de ser diferente

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Nos últimos meses vi-me num papel onde nunca me tinha imaginado. Tive de assumir o lugar do meu pai na questão das partilhas da herança indivisa após a morte do meu avô. O meu pai deixou tudo preparado e assinado. Tinha contratado uma nova advogada para tratar do assunto, já que o advogado do meu avô assobiou para o lado e fez-se de esquecido. O meu pai andava muito ansioso e inquieto para resolver as coisas com o irmão. E morreu antes de sequer conseguir que o irmão se pronunciasse sobre o assunto.

Eu consegui sentar-me com o meu tio. E conversámos muito. E partilhámos muitas histórias. E ficámos a saber de coisas que não sabíamos. E emocionámo-nos muito. E ouvi o meu tio falar de arrependimento, daquele arrependimento de quem viveu muitos anos nas suas crenças sem se aperceber que a verdade nunca é absoluta, que há diferentes perspetivas, que há nuances da história que ficam entrelinhas ou deliberadamente escondidas. Aquele arrependimento de quem percebe que houve tanta manipulação das verdades, que houve afastamentos que foram provocados e alimentados, que houve intrigas e mal entendidos que teriam sido completamente evitados se tivesse havido espaço para diálogo.

Eu disse ao meu tio que estávamos a conseguir fazer algo que nesta família nunca tinha sido feito: conversar. Encontrar um entendimento. Encontrar paz.

O meu tio emocionou-se quando percebeu e viu documentadas as vontades férreas do pai dele, de como ele jogou com a vida dos filhos como quis e lhe apeteceu. O meu tio emocionou-se quando percebeu que os últimos meses de vida do irmão, o meu pai, foram dedicados a procurar compensar o irmão pela desigualdade provocada pelo pai deles. E vi o reconhecimento no seu rosto quando lhe disse que eu pretendia manter o que era vontade do meu pai, porque concordava com ele, porque era o que podia ser feito para tentar equilibrar o fosso criado pelo próprio pai entre os irmãos. E tudo corria bem com o meu tio até ele perceber que, sendo casado, a esposa teria de ir assinar documentação, escrituras. E começaram os problemas em casa dele.

Entretanto deixou de atender o telefone à advogada. E a mim.

Eu não quero problemas, ou tão pouco arranjar problemas em casa dele, no seio da família dele. Mas vejo-me com assuntos para tratar onde ele tem de ser chamado à sua responsabilidade, como herdeiro do meu avô, atualmente "cabeça de casal" da herança, já que é o único descendente direto vivo. Esbarro no silêncio, na fuga, sempre o caminho mais fácil, o fechar a porta e fingir que não ouve a campainha.

Nesta família sempre me senti diferente. Uma espécie de ovelha negra, constantemente criticada e apontada pelas diferenças que tinha e me afastavam do clã e das suas características e dinâmicas. E agora sou eu, a ovelha negra, que, em prantos, enterra e honra os que já partiram, que se vê a braços com tomadas de decisão que não deveriam ser apenas e só minhas.

 

30
Jun21

O peso de uma herança

Tenho andado com tanta vontade de escrever. Por mim, para mim, para pôr para fora este turbilhão de emoções que por aqui anda.

E não é que a vontade passe. É o tempo que se escapa entre os ponteiros, numa correria, é o cansaço físico e, acima de tudo, emocional que me retrai e afasta deste espaço de encontro comigo.

Páro. Respiro fundo. Encontro um momento para me dar uma folga. Como que para ganhar fôlego para nova investida. Tem de ser. E é por este "tem de ser" que me movo e me deixo, em determinados momentos, levar pela ansiedade e angústia. Sinto-me a carregar um pesado mundo às costas.

Com a morte do meu pai, sendo eu filha única de pais divorciados, vejo-me neste papel de única herdeira. Com tudo o que acarreta de bom e menos. bom. Acho que de positivo é a questão de não ter de andar "à batatada" com ninguém, com stresses e discussões que nunca levam a lado nenhum, a não ser a um desgaste emocional e da própria relação familiar, que pode já não ser muito equilibrada ou harmoniosa. O resto é estar sozinha com o peso de uma herança em cima e tudo o que isso implica, desde impostos, encargos, responsabilidades e tomada de decisões que não, não são nada fáceis.

Os meses vão passando, algumas decisões foram sendo tomadas, as conversações com o meu tio (irmão do meu pai) para concluir o processo de partilhas do lado do meu avô até corriam bem, havia espaço para diálogo e entendimento, só que houve um reverso provocado por outra pessoa, próxima do meu tio. Nos entretantos, o meu pai já tinha herdado a casa dos pais (meus avós), que agora passou diretamente para mim. E eis-me na ingrata tarefa de esvaziar a casa, ter de dar novo destino a mais de 60 anos de histórias de vida desta família. E ontem, ao encaixotar fotografias, cartas e postais, diplomas e outros itens de natureza pessoal, que são marcos na história de vida destas pessoas, senti que estava a fazer um segundo funeral, a enterrar o que resta da passagem delas por este mundo que conhecemos. E doeu. Abriu aquela ferida da perda, de quem tem vivido um luto a par do trabalho terapêutico de aceitação, reconciliação e perdão com a história de vida desta família.

Sinto-me esgotada. Emocionalmente esgotada. E a sentir este dever de ter de me manter firme porque há decisões a tomar, há assuntos a tratar, uma série de coisas a resolver. E ninguém me disse que esvaziar uma casa era tão difícil. Que tudo o que as pessoas acumulam ao longo de anos e gerações numa casa é absolutamente assustador na hora em que é necessário dar novo destino, porque a vida segue e para a frente é o caminho.

E não é a questão do desapego que me trava. Não sou materialista, não me apego a objetos e coisas como se fossem o elo de ligação com as pessoas. Para mim guardarei as fotos, cartas e postais, diplomas e a condecoração que em tempos o meu avô recebeu do Presidente da República. Não me interessam serviços de louça que ainda têm o preço agarrado. Nunca foram usados, portanto não posso olhar para os pratos e lembrar-me de um jantar de natal qualquer passado naquela casa. Não moro numa mansão (nem tenciono sequer mudar de casa por agora) para guardar mobílias e outras coisas, não sou (mais agora que tenho esta tarefa hercúlea) de ter mais do que aquilo que preciso e uso e, ainda assim, acho que já tenho os meus armários cheios, para ainda estar a levar para minha casa louça ou o que calha só porque sim.

Em abril comecei a contactar antiquários, casas de oportunidades e 2ª mão, interessados por velharias. Fotografei o espólio e divulguei fotografias. E até para dar a instituições de solidariedade, são mais os problemas e dificuldades que levantam, que as soluções que apresentam.

O desânimo tem sido uma constante. E esta terrível sensação de estar perdida, desorientada e sem saber para que lado me virar.

Posso fugir? Posso ir para uma ilha deserta e ficar lá até que tudo isto se resolva num passe de magia? Posso simplesmente virar costas e assobiar para o lado como se não fosse nada comigo?

Por aqui vivem-se dias difíceis. Num turbilhão de emoções. Demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo e que estão a exigir muito de mim e a sugar a minha energia.Vou tendo as minhas bolhas de oxigénio para respirar fundo e ir aguentando. Por ora, terá de ser o suficiente. E a esperança que em breve possa ficar mais aliviada.

 

02
Jun21

10 meses de tanto

Há exatamente 10 meses despedia-me do meu pai. Ainda vivo. Ou melhor, em coma induzido, ligado ao ventilador, com vários órgãos em falência e uma questão de horas até dar o último e derradeiro suspiro. Vi-o num fio ténue de vida, mais ali num limbo entre os dois mundos. 

Finalmente, na presença de uma das médicas que o acompanhou nos seus últimos dias, pude fazer as várias questões dos "ses". Se ele tivesse procurado um médico mais cedo, se tivesse sido detetado mais cedo, se tivesse havido chances de tratamentos... os "ses" que a razão queria ver respondidos para acalmar o coração. Não sei, nunca saberei, se a médica em apreço foi sincera ou deu ali uns pozinhos de piedade, estou mais tentada a acreditar que foi mesmo sincera, sem pruridos ou pozinhos. Nunca teve hipótese. O tumor era agressivo, desenvolveu-se de forma intensa e galopante, numa zona demasiado crítica. Ainda que aos primeiros sinais ele tivesse ido ao médico e tivesse sido detetado, o desfecho seria o mesmo, tendo pelo meio tratamentos extremamente agressivos que trariam imenso sofrimento e significativa perda de qualidade de vida. 

Agarrei-me ao "foi como teve de ser, foi como ele escolheu e decidiu, foi como foi e nada pode mudar". 

Não é porque faleceu que agora vai ser considerado o pai do ano. Não o foi. Estávamos, sim, numa fase de reaproximação e eu toda contente pela oportunidade de deixar um passado de mágoa e afastamento para trás, e poder ter novamente o meu pai na minha vida. Durou pouco. Muito pouco. E doeu muito esta partida brusca, quase sem pré aviso, num dia deixo-o nas urgências do hospital, na semana seguinte vou busca-lo dentro de um caixão. Num dia estava a recuperar o tempo perdido de uma orfandade paterna forçada e no outro estava efetivamente órfã de pai e a ter de assumir e tomar decisões que não contava, de todo, ter entre mãos.

O processo de luto vai além da perda de um ente querido. Há todo um luto de uma vida cheia de mágoas e abandonos. Esse tem sido o mais doloroso. A morte é irreversível. A forma como se viveu a vida (e as relações) é que deixa muitas questões com as quais se tem de lidar.

Aceitar. Perdoar. Libertar. Honrar. Agradecer...

Aceitar que tudo foi como tinha de ser.

Perdoar porque, como pessoas comuns e com as suas próprias dores, deram apenas o que tinham para dar, e foi suficiente.

Libertar o que não me pertence, o que não é meu. 

Honrar os meus antepassados, pois sem eles eu não estaria aqui.

Agradecer. Sou o que sou hoje por tudo o que vivi.

A dor permanece. O vazio que ficou. E se acentuou.

Aprendo a lidar com essas emoções. A viver os dias de forma mais leve. A encontrar os meus rituais de autocuidado, que me ajudam no equilíbrio emocional. Um dia de cada vez. Aqui e agora. E a mudança tem acontecido. Dentro de mim. Para fora de mim. 

10 meses. De tanto. 

29
Mar21

...

E de repente passou outro mês, daqui a nada é abril e não sei para onde o tempo se esvai.

Contraditória esta sensação, já que se vive um novo confinamento e a vida (alegadamente) abranda.

Sabem aquela palavrinha que está muito na moda, burnout? Pois... foi o que tive há algumas semanas atrás. Bati no fundo e a vida tirou-me o chão debaixo dos pés. Aquilo que eu tinha como seguro, os meus alicerces e fundações inabaláveis, abalaram e tremeram, quase ruíram. Quase. 

Aprendi tanta coisa em pouco dias. Aprendi com dor e angústia. Dores de crescimento, chamam-lhe. Crise. A crise é o motor da mudança. Da evolução. Da transformação. Aprendi que eu tenho de ser a primeira a mudar. Se eu mudo, o outro muda. A vida muda. Passei demasiado tempo a querer que o outro mudasse. A exigir aquilo que eu própria não dava nem fazia. Que rica moral?! Conseguir olhar-me com clareza e perceber o quão tóxica tenho sido. Qual a opção? Vitimizar-me no papel da coitadinha ou fazer melhor, ser melhor? Procurar dentro de mim o meu melhor? Descobri que viver em amor é o caminho para ser feliz, e esse amor começa pelo amor próprio. Que não tinha. Não sentia. Não alimentava. Como esperar ser amada por outras pessoas se eu, eu própria, não me amo? 

Esta coisa da terapia, do autoconhecimento, do amor próprio tem sido uma jornada do caraças! Tem mexido com muita coisa. Demasiadas coisas que atirei para debaixo do tapete e esperei que o tempo as levasse, a vida as esquecesse. Ingenuidade. Tenho tomado uma consciência (que não tinha) do que sou, do que faço, por quê. Descobri que sou forte, muito forte. Que houve os momentos em que a vida não me deu outra alternativa que não fosse o ser forte. E caramba, é bom! Eu sou capaz! Eu consigo! E o mais poderoso que pude sentir nos últimos tempos foi este grito do EU POSSO E MEREÇO!! Porque nunca acreditei que eu merecia. Permiti que me fizessem acreditar nisso. Eu não merecia.  

Dói mexer nestas mágoas que guardo como se fossem o meu ADN. Tenho de as enfrentar. E libertar. Porque não me servem mais. São estas emoções negativas que preciso descartar, largar, soltar, deixar ir. E encontrar forma de perdoar quem me fez sofrer tanto. Porque é esse o passaporte para a libertação: o perdão.

Não sei ainda como o conseguirei. Há mágoas muito profundas. E que tenho andado a protelar enfrentar, mexer, dissecar. Olho pelo canto do olho para os exercícios de psicoterapia que tenho para fazer. Fecho os olhos e respiro fundo. Não quero. Não agora. Não hoje. E os dias passam. E nunca é o dia. Agora mesmo escrevo no blog em vez de estar sentada com o caderno à frente. Sou só eu e um caderno, que tem isso de assustador? Sou eu a ir dentro de mim, ao mais fundo de mim resgatar as histórias do passado, soltar as emoções, chorar o que tiver de chorar, e, por fim, soltar e deixar ir. E, foda-se, que dói. 

26
Ago20

O texto que tenho adiado escrever...

Quem segue a Caixa no Instagram sabe o que aconteceu neste último mês. Sabe que há um mês comecei com obras em casa (pinturas de paredes e tetos com alguns arranjos de fissuras pelo meio). Sabe que há um mês o meu pai deu entrada no hospital e depois de uma semana excessivamente intensa a nível emocional, com as notícias dia após dia a conduzirem a um desfecho previsível, esperado mas que nada nos prepara para o derradeiro momento, aquele em que, depois de ter sido chamada ao hospital para me despedir dele, me comunicam que faleceu.

Continuo sem palavras para descrever o momento em que esta realidade se abateu sobre mim. Continuo sem perceber muito bem como me tenho mantido de pé a tratar de uma imensa burocracia que enerva, esgota a paciência, suga toda a energia que resta num momento destes.

As férias deixaram de ser férias para tratar de um funeral e desencadear uma série de processos em diversas entidades, processos que ainda decorrem, e ontem, mais um dia de férias queimado para ultimar burocracias, mas afinal ainda há mais uma declaração que é precisa para entregar nas Finanças e fazer uma adição ao imposto de selo e só depois, só depois é que pode voltar cá e prosseguir... e só para iniciar o processo desembolsa x, e desembolsa y e mais o caralhinho para tanto papel e selos timbrados e o raio que parta esta máquina burocrática que empata e entrava e chateia e nos suga vida e dinheiro. A sério que estamos no séc XXI, em plena era digital? A sério que, alegadamente, devido à pandemia, muitos serviços tiveram de agilizar procedimentos? Ah não. Isso era a expetativa. A realidade é que ainda estão mais bloqueados, difíceis de aceder e resolver de uma vez.

Poupo-vos detalhes, porque tudo isto ainda é uma ferida aberta e dolorosa. Recebo o embate da morte do meu pai e, com todas as vantagens e desvantagens que isso acarreta, sou única herdeira. Em cima de mim caem todas as decisões, responsabilidades, despesas. E isto de herdar propriedades é muito giro na boca do povinho ignorante que acha que agora devo ser uma espécie de condessa lá da terrinha. Eu só vejo dinheiro a sair da conta, tudo se paga, os impostos não esperam, os encargos com as propriedades também não e agora está tudo nos meus ombros.

Respiro fundo. Tudo se resolve. Não escolhi que isto acontecesse na minha vida. Aconteceu. Agora é lidar da melhor forma possível. Se haveria momento ideal para pôr em prática o que, também nesta altura, aprendi naquele desafio de auto coaching, que com tanto entusiasmo me inscrevi, foi este. Na semana do internamento e na semana em que faleceu, valeram-me as meditações diárias do desafio, cada dia com um tema a explorar num pre talking. Valeram-me esses momentos em que, durante cerca de 30 minutos por dia, eu estava comigo e a tratar de mim. Encontrei força onde não julgava haver. Mantive um equilíbrio quando achava que ia simplesmente colapsar.

Houve dias difíceis. Muito difíceis. Sei que os haverá. Ainda este fim de semana fui abaixo e andei a chorar descontroladamente com um sentimento de vazio, de estar sozinha no mundo, porque as pessoas que mais amei e de quem guardo as melhores memórias já se foram. Tal e qual como a casa que acabo de herdar, sinto-me vazia, abandonada. Morreram. Foram-se para sempre e não voltam. Ficam aquelas paredes repletas de anos de memórias e histórias de três gerações de uma família.

Houve um momento que me afastei das redes sociais no geral, de pessoas em particular. A silly season a decorrer, o Instagram repleto de fotos de férias, praias, piscinas, famílias, verão no seu esplendor e leveza que deixa as pessoas felizes. E eu a ter de lidar com a dor que a morte de alguém tão próximo deixa, aquele vazio que nada nem ninguém nunca preencherá, enredada numa teia de burocracia que estava a exigir demasiado de mim, a sugar-me a pouca energia que sentia. Houve dias que não atendi telemóvel nem respondi a mensagens. Agradeci ter pessoas preocupadas e a mostrarem todo o seu carinho e apoio. A seu tempo expliquei-lhes, desculpando-me, que precisava do meu tempo de sossego e solidão para carpir a dor, quando ao mesmo tempo a vida exigia demasiado de mim.

O tempo não cura. Acalma. Cicatriza.

Regressei ao trabalho e isso permitiu-me sentir de volta a vida como a conhecia, na sua normalidade que nos faz sentir numa zona de conforto. Voltei a sentir apetite e vontade de comer, voltei a ler, voltei a estar com as outras pessoas. Voltei à minha vida. Diferente. Eu e a vida.

Estou a voltar. Porque a vida continua e eu tenho de continuar. Por mim. Pela memória dos que partiram. Pelos que estão ao meu lado e foram excecionais neste momento tão difícil e doloroso da minha vida.

Estou a voltar. Aos poucos...

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17
Dez19

Este ano que acabe, por favor!

Eu sei. Eu sei que não é por virar o ano que a vida muda num passe de mágica, que os problemas desaparecem e os sonhos se realizam com um toque de varinha mágica de uma qualquer fada madrinha.

Eu sei que não é por avançar um dígito no ano que tudo fica trancado no ano que termina. Mas deixem-me ter essa ilusão. Assim como assim, a palavra que mais marcou este ano foi morte, logo efetivamente fica trancado neste ano do demo. Deixem-me ter a esperança que 2020 trará 366 dias em branco, 366 dias de oportunidades de ser melhor, de me sentir melhor, de curar tantas feridas e mágoas.

É a palavra que quero para 2020: CURA

É o que mais preciso, daqui para a frente. Curar-me. Ficar mais forte. Mais resistente. Cauterizar de uma vez por todas feridas que, quando julgo cicatrizadas, se abrem e rasgam-me, lançando-me numa dor atroz. E não sei se a dor que sinto é pelo que aconteceu, se por me sentir culpada por permitir, por não ter sabido proteger-me.

"és só humana. de carne e osso." - disse uma amiga.

Sou é estúpida. Burra. Por ter acreditado que agora não haveria impedimentos para recuperar algo que, queria eu tanto acreditar que existia, podia existir daqui para a frente. Disse baixinho a mim mesma para não criar expetativas. E julgava que não as tinha, ou eram baixinhas. Não me surpreendeu o não que ouvi. Era o mais provável. Era o expectável. E entendo. Aceito que assim seja. Compreendo que do outro lado a escolha foi pelo que lhe é mais confortável. No entanto não deixa de ser, para mim, uma rejeição. Não consigo não sentir que simplesmente eu não valho qualquer tipo de esforço. 

E tenho sentido isto nos últimos tempos. Que não valho o esforço dos outros. Não valho o esforço do companheiro numa série de merdinhas que têm desgastado e esgotado a relação, não valho o esforço de amigos que têm sempre outras pessoas com quem preferem estar, outros sítios para ir, que estão sempre sem tempo, demasiado ocupados nas suas vidas e não há tempo para mim, mas há para outros. Não valho o esforço de uma família que me deixou órfã. E nada vale eu abrir a porta da minha vida, convidar a entrar e dar evidentes sinais que desejo a sua presença no meu futuro quando ouço um: não, tenho mais perto. Sim, porque eu estou em Plutão e é demasiado grande o esforço para entrar nesta porta que abri, enterrando mágoas antigas, olhando para um futuro que podia ser diferente. Só que não, não valho o esforço.

Hoje, hoje... se eu morresse, quem ia sentir a minha falta? 

Hoje sangro de feridas antigas, cujas cicatrizes se rasgaram num duro golpe. Estou frágil. Debilitada. Só quero desaparecer num buraco qualquer e lá ficar até não haver mais lágrimas de sangue. Ficar ali até virar pedra, dura, fria, impertubável. 

 

08
Jul19

Aura negra

Há cerca de duas semanas disseram-me que eu andava com uma aura negra. Apercebi-me que raro era o dia em que não havia alguém a perguntar-me se eu estava bem, embora a resposta estivesse estampada no meu rosto. Uma colega apanhou-me a chorar na casa de banho do trabalho. Deu-me a mão e disse: se quiseres falar... e deixou-me sozinha, porque percebeu que era assim que eu queria estar.

Dou por mim a lembrar-me dos versos de uma canção: porque eu só quero ir aonde eu não vou, porque eu só estou bem onde eu não estou, como se estes versos fossem o eco do meu íntimo. Quero estar em qualquer outro lugar, e sei que chegando lá, quereria outro. 

Recentemente fiz um exercício de reflexão, o balanço da primeira metade do ano.

Talvez esse pequeno exercício me tenha ajudado a desbloquear qualquer coisa aqui dentro. Talvez porque pus para fora o que me sufocava cá dentro.

Se está tudo bem comigo? Está. Vai estando. Em análise são problemas comuns, ordinários desta vida de adulto, que está longe de ser "aquela cena muita fixe" que imaginávamos que seria nos nossos inocentes e ignorantes 15 anos, quando queríamos crescer rápido e ser independentes, e donos da nossa vida, e mudar o mundo, e ser livres, e conquistar todos os sonhos com a mesma leveza com que uma criança brinca com uma bola. Só que não. 

No entanto, à minha volta, com pessoas que amo e estimo muito, tem sido um rol de desgraças: mortes, doenças graves, problemas vários. E não me importo nada de ser a sua almofada, onde elas choram as mágoas, partilham os medos e as angústias. Desde muito cedo que as pessoas se sentem à vontade para falar comigo. E na maioria das vezes é só o que querem: falar, pôr para fora. E eu devia mesmo ter seguido aquele conselho, de há muitos anos, de ir para a área da psicologia. Provavelmente estaria onde estou hoje, a trabalhar numa área "nada a ver". 

Dizia que não me importo, até porque ao ouvir os outros, esqueço-me de mim. Ouvir os verdadeiros dramas dos outros faz-me pensar que eu não tenho problemas, faz-me relativizar aquilo a que ando a dar demasiada importância e me anda a esgotar.

Contudo, também eu sou humana e tenho os meus dias. Na semana passada, num dia mau, mesmo mau, eu estava mal, doía-me a cabeça, sentia tudo a explodir cá dentro, uma vontade de chorar de raiva e frustração, e uma amiga precisava ligar-me à noite. Precisava falar. Foi um dia particularmente difícil, e cheio. Reunião de condomínio até às 21h, jantei às 22h, e, ainda assim, avisei-a que se quisesse ligar, podia. E ouvi. Mas não conseguia dizer nada mais que uns hum hum, pois, e por momentos instalava-se um silêncio que eu queria preencher, mas não sabia como, a minha cabeça explodia. Felizmente ela retomava o relato. E no fim senti, creio, na sua voz que estava mais calma, com as ideias mais claras, ou mais organizadas. Alguém a ouviu, e ela a falar arrumou os seus pensamentos, partilhou os seus medos, expôs as suas inseguranças e fragilidades, como que ao fazê-lo elas se tornassem mais leves. Noutro dia eu teria falado mais. Opinado mais. Naquele dia não tive sequer força para isso (desculpa). No entanto, e apesar do estado lastimável em que eu estava, apesar de ser tarde e más horas e estar exausta, sabia que ela precisava de mim. Precisava que a ouvisse. E eu ouvi. E quando desligou, fui tomar banho e chorei as minhas angústias. Diluíram-se na água que corria e me lavava corpo e, eventualmente, alma.

Hoje, comentei com a pessoa que me disse que eu andava como uma aura negra que aquela expressão me tinha deixado a pensar. Reforçou que tem notado que ando demasiado triste ultimamente, eu que era tão bem disposta e cheia de energia, que fazia questão de criar bom ambiente e fazer as pessoas rirem e agora vê-me isolada e quieta no meu cantinho. Eu disse apenas, sem detalhes, que os últimos meses não têm sido fáceis. Que há situações que, não sendo diretamente comigo, são com pessoas que estimo muito e as tenho ouvido, acabando por absorver as suas preocupações e angústias. Que fico revoltada com histórias de vida que estão a acontecer e não é justo. Não é justo uma rapariga mais nova que eu, com três filhos, super bem disposta e boa onda, descobrir que tem cancro maligno na tiróide. Ou que a sobrinha de 16 anos de um "velho" amigo dos tempos de escola está a lutar contra um linfoma. Foda-se, ela devia estar a divertir-se, a sair com as amigas, a beber os primeiros copos à noite, a apaixonar-se e desapaixonar-se. Angustia-me saber que uma amiga está num sofrimento atroz por ver a irmã a lutar pela vida, uma luta inglória e devastadora, que está a deixar sequelas graves. A irmã tem a minha idade, dois filhos pequenos, um futuro pela frente. Um amigo que se apressou a editar e publicar o seu livro, porque uma doença grave veio, e lá está ele numa luta pela vida, porque ainda quer viver e tem muito que fazer. Só que as notícias não têm sido animadoras. Morreu a avó do Gandhe, no mesmo dia morreu o pai de uma grande amiga, recentemente o sogro de outra grande amiga, porque não bastava ter a irmã doente, também tinha o sogro em estado terminal de cancro. E eu sinto-me tão impotente, porque quero ajudar todas estas pessoas, que têm de se fazer fortes para todos os outros, como se não lhes fosse permitido fraquejarem, chorarem ou simplesmente desabafarem o que lhes vai na alma, e não consigo. Só as posso ouvir. E soubessem elas como muitas vezes ao telefone ou nos canais de conversação online estou a ouvi-las/lê-las com as lágrimas a caírem-me pela cara. 

A minha aura negra é este acumular de nuvens sombrias que pairam sobre mim. É eu sentir-me na pele daquelas pessoas e pensar: e se fosse eu? É aqui que vem a puta da solidão, aquela que existe por causa desta orfandade de família viva, que não quer saber de mim, que nunca quis, que mais valia que eu não tivesse nascido. Quem teria eu junto ao meu leito se estivesse meses num hospital a lutar pela vida?... Ninguém. 

E porém sei que há várias pessoas que me vêem, que vêem a minha aura negra, a tristeza nos meus olhos, que estão à espera que eu seja capaz de falar para me ouvirem... algumas talvez me visitassem, com um inútil ramo de flores, se fosse eu a estar semanas num hospital. E sou grata por essas pessoas. No entanto, há este buraco negro dentro de mim, este vazio que ninguém pode preencher. E eu quero ignorá-lo. Tem dias que consigo. Tem dias que não.

Vejo todos os sinais de alarme: depressão à vista! Há coisas dentro de mim que têm mesmo de ser resolvidas. Curadas. Fechadas. Seladas. Para me libertar. 

Já me informei de psicólogos na zona, já pedi referências, já vi preços. E também já vi que é uma especialidade não contemplada nos seguros de saúde que tenho. E sabendo que não é como ir ali ao dentista e em duas consultas ter o problema resolvido, ando aqui a pensar que há certas especialidades na saúde que não são para toda a gent€. E infelizmente a saúde mental ainda é muito relegada para um plano de "menor" importância.

Há pouco frisei, reiterei e deixei bem claro a uma amiga que eu estou aqui com e para ela. Para chorar comigo e a seguir rirmos de parvoíces. Para partilhar comigo a dor que guarda para não dar parte de fraca. E digo-o de coração e com sinceridade. Estou aqui. (quase que parecia a Maria Leal agora: Pandora aqui só para vocês - momento parvo do post). 

Quanto à minha aura negra, vai desvanecer-se. Eu sei que sim. Que eu tenha coragem para a enfrentar, sabedoria para a soprar para longe. Que fique apenas a lição que a vida me quis dar com esta fase. Ainda estou a tentar descobri-la, mas hei-de lá chegar. Já a missão de vida, creio que a estou a encontrar. Parece que sou boa a ouvir pessoas e a aliviar-lhe as dores da alma. Mesmo nos dias e que só consigo dizer hum hum, pois... pelo menos isso. A ter ter algum valor, que seja a ajudar quem precisa. 

 

01
Jul19

Pensamento do dia (e uma espécie de balanço do primeiro semestre)

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Dia 1 de julho. Metade do ano já se foi. Anseio pelo verão que poucos sinais ainda deu de si. A única coisa que já fui fazer à praia foi ir até à esplanada, um dia chovia, no outro estava um vento frio que não se podia. Quando daqui a exatamente um mês for de férias continuarei com esta cor de posta de pescada cozida, porque os fins de semana de julho já estão todos preenchidos na agenda, e pouco ou nada resta para uma fugida até à praia, só para estender a toalha e apanhar uma cor. Em boa verdade se diga, olho pela janela e mais parece que vai chover. Continuo a usar roupa meia estação e dias há que rapo frio. 

O primeiro semestre do ano resume-se a duas simples e curtas palavras: uma merda!

Têm sido golpes atrás de golpes. Doenças, mortes, acidentes, chatices, frustrações ao rubro, revoltas engolidas que agora se soltam num vómito descontrolado.

Sinto-me totalmente esgotada. Sem paciência para nada nem ninguém. Alguém, por favor, me leve para uma ilha deserta?! Se bem que no estado em que estou, nem a mim me aguento, portanto façam-me uma sono-terapia. Três meses a dormir. Mas vá, só depois do verão, se é que ele vai, finalmente, chegar. É que eu gosto do verão. Muito. E portanto acalento esta pequenina esperança de agora arrebitar um pouco o estado de espírito.

Sinto-me sozinha. Em parte mea culpa, que tenho esta mania que sou durona e aguento os golpes, que consigo suportar o mundo dos outros às costas, absorver no meu íntimo as suas dores e angústias e preocupações, ter sempre uma palavra, um ombro, uma mão estendida, a opinião que me pedem ou ideias que precisam. E depois as minhas dores, onde ficam? Entaladas na garganta, embrulhadas no estômago. E quando tenho um pouco a coragem de falar levo com respostas que, até pode ser o que preciso ouvir, mas foda-se, um abraço e um "vai correr tudo bem, vais ficar bem, estou aqui" também era bom. Não há quem me ouça, ou queira ouvir. Todos vivem os seus dias, os seus problemas. A sua vida. Eu entendo. Resigno-me.

Sinto-me perdida. Aquilo que acho que sei, que aprendi, que evolui, afinal parece que não, que estava enganada, que nada sei, nada aprendi, nada evolui. Deixo (outra vez) que me façam sentir uma porcaria sem qualquer valor. E sim, à la Gustavo Santos e os seus clichés, eu SEI que sou a primeira pessoa que tem de gostar de si, de se valorizar, de confiar em si e nas suas capacidades. Mas fica difícil com tanta coisa e tanta gente à volta a derrubar, a mandar ao chão, a virar as costas porque não tem tempo, não quer saber, tem mais em que pensar. Ou simplesmente nem se lembram que existo.

Sinto-me sem forças. Já só quero ficar quieta no meu canto, gritar ao mundo:

Não: não quero nada

Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

(...)

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

(...)

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! *

* Álvaro de Campos, LISBON REVISITED (1923)

Metade do ano foi-se e eu estou feita em cacos. 

Vamos ver como corre a outra metade. Como chegarei daqui a seis meses. Parecem uma eternidade de tempo, e no entanto passam assim, num estalar de dedos.

As coisas estão a acalmar, é certo. Só que pelo sim, pelo não, ainda não me sinto capaz de respirar fundo, serenar e olhar o horizonte com a coragem e a esperança de que vai ficar tudo bem. De que vou ficar bem.

 

18
Fev19

Oh fevereiro mais amargo

A culpa não é de fevereiro, mas, bolas, está a ser um mês complicado. Difícil de gerir tantas emoções e tantos imprevistos a acontecerem.

Tenho dedicado tempo (e dinheiro, que as idas à veterinária estão a ser por minha conta) com a Ritinha (eu chamo-lhe Bebecas, e quando pensei que fosse ficar comigo já estava rebatizada de Becas).

A gatinha foi resgatada da rua porque a minha sogra quis e se comprometeu. Só que depois de quase duas semanas lá em casa dela, acabou por vir para nós para o processo de socialização, que tem sido um sucesso. Acompanhamento veterinário. Entretanto percebemos que a constipação que tinha não passou por si, apesar de já estar num ambiente controlado e mais confortável, e levo com a sogra a dar as suas ordens: levem-na e quando estiver boa tragam-na!

Caiu-me tão mal. É que eu saí do consultório com a prescrição do tratamento a saber que ela sozinha não o ia conseguir administrar. A gata ainda não estava totalmente dócil para que lhe fossem dados comprimidos pela garganta abaixo, nem xaropes, nem limpezas de ouvidos, só uma pessoa. Mas não, Gandhe garante que a mãe sabe tratar de gatos, só que ainda mal o filho tinha começado a explicar o tratamento, sai-se com aquela pérola. Podia ser um, eu não devo conseguir fazer isso tudo sozinha, ou vocês vêm cá ajudar-me, ou ficam com ela mais estes dias. Não. À boa maneira dela, é eu quero, posso e mando, levem-na e quando estiver boa tragam-na. Confesso: não me apeteceu devolver-lhe gata nenhuma. Adiante.

Mais uma semana com ela, a dar-lhe a medicação e a continuar com o processo de socialização. Evolução extraordinária, quer na constipação que ao fim de 48h se notava melhorias extraordinárias, quer no desenvolvimento dela. Ganhou peso, começou a brincar e a interagir mais, a confiar mais. Ainda que, sempre que ela sai do seu "ambiente" e muda de divisão, fica novamente em estado de alerta, com tendência a procurar um esconderijo. Normal... é um animal que veio da rua e tem os instintos de sobrevivência apurados.

Nova consulta a um sábado, Ritinha curada e ótima, é para ir para a sua dona legítima, estava fora o fim de semana. Ok, regressou a casa na segunda ao fim do dia. E eu aproveitei mais dois dias de namoro com a Bebecas, no domingo à tarde dormiu horas ao meu colo embrulhada num casaco meu, felpudo e fofo que ela adora.

Na segunda lá vai Ritinha, com os brinquedos dela, com o meu casaco que ela adora, para a sua casa. E lá fica, calma, junto do seu amiguinho.

Dia seguinte teve um surto, escondeu-se, parece que bufou e atirou as garras à sogra, que liga para o filho a mandar vir. Recebo eu uma mensagem a anunciar-me que ia buscar a gata, ficavamos com cinco, e ponto final, não estava mais para se chatear.

À tarde mudou a 180º. "Ai que a gatinha está mais calma, é um fofa, até dormiu a sesta comigo, brinca muito e gosta muito de estar aqui no casaco..."

É que aquela alminha finalmente fez o que desde início lhe dissemos que era necessário fazer, faz parte do processo. Aquele animal precisa estar num ambiente controlado para se ir sentindo seguro e começar a confiar. Lá pôs a gata num quarto que tem desocupado, montou lá as coisas dela, comida, areia, brinquedos, o arranhador que lhe comprámos, a transportadora onde ela tanto gosta de estar, o meu casaco. Claro que o animal acalmou, num ambiente sossegado e com as coisas que lhe são familiares. 

Mas eu passei-me. A mulher já não é nenhuma miúda de 5 anos para andar a fazer birras que agora não quero a gata, agora já quero. Passei-me com o filho, claro, que se pôs logo armado em cavaleiro andante em defesa das merdas da mãe. Discussão feia, muito feia. Grave. E ele disse-me coisas que me quebraram, que rasgaram feridas antigas que foram cicatrizando com o tempo. Estava tão magoada com ele, que mesmo ele, horas depois (nada normal, nada dele), ter-me vindo pedir desculpa pelas coisas que disse, porque também estava stressado com as pancas da mãe, eu só consegui responder-lhe: partiste-me com o que disseste. Hoje não consigo aceitar o teu pedido de desculpas. Talvez amanhã.

Mas a vida tem umas ironias do catano. Manhã seguinte, eu sem pregar olho, estupidamente magoada, com umas olheiras que mais parecia um panda, venho para trabalhar e carro não pega. Puta que pariu a minha sorte. Mais alguma coisa?

Ligo a uma colega, peço-lhe boleia. Envio ao Gandhe uma mensagem: Smart não pega.

Já estava no trabalho quando ele me liga. A saber o que se passou. Ficou de sair um pouco mais cedo, apanhar-me na hora de almoço e ir ver o que se passava com o carro.

E é assim, que os problemas reais do dia a dia funcionam como um balde de água fria numa fogueira ainda incandescente. 

Felizmente foi a bateria do carro, trocou-se e não foi nenhuma fortuna. Problema resolvido.

Vem o dia dos namorados. Eu já tinha encomendado uns cupcakes de chocolate, que uma colega de trabalho faz (deliciosos), com desenhos alusivos ao tema. Deixei a caixa dos cupacakes na bancada da cozinha. Quando ele chegou, enviou-me foto, agradeceu e disse que tratava do jantar. Quando cheguei a casa até tive direito a um cesto de rosas. 

Pronto, vale o esforço dele tentar colar o que partiu dias antes. 

Mas se as coisas pareciam estar a acalmar, estávamos iludidos. Cai a bomba. A avó dele sofreu nesse dia um AVC. Grave. Muito grave. Estava na UCI, ligada às máquinas. Prognóstico muito reservado, médica de serviço disse que dificilmente passava daquela noite.

Mas passou. E ainda está "viva", se é que aquilo é vida. Já não está ligada às máquinas, já respira por ela (uma respiração que até mete dó e aflição só de ouvir), não recuperou a consiciência e dizem os médicos que não esperemos que "acorde": Só estamos à espera que o coração efetivamente pare - citando os médicos. Ponto. Assim, direto, sem paninhos quentes. Sem ilusões de um falso milagre. Sem esperanças alimentadas por engodos.

E tem sido isto, uma angustiante espera, um constante olhar o telefone à espera da notícia que está anunciada, para breve. À espera do quando. 

Se fica por aqui? Podia ficar, dava jeito, não dava?! Mas não. Que isto quando vem maré de azar, varre tudo.

O meu mais novo está doente. Já lhe notei mudanças na quinta passada, mas ontem foi a derradeira confirmação. Hoje a primeira coisa que fiz foi marcar consulta com a veterinária. E vamos lá ver o que se passa.

Por favor, podemos ficar por aqui? Já há demasiados cacos espalhados, demasiadas feridas e angústias.

E nestes momentos em que a morte ronda os nossos, nos faz uma visita e nos lembra assim, em modo bofetada, que o nosso tempo tem um fim. Ganhamos esta dolorosa consciência da nossa finitude. A única certeza que temos na puta da vida: ninguém fica cá para semente. Todos temos o nosso fim. Só não sabemos como e quando. E que merda andamos a fazer com o tempo que temos? Que sentido estamos a dar ao privilégio, tantas vezes descurado e esquecido, de estarmos vivos e termos imensas oportunidades de poder fazer tanta coisa.

A bofetada que levamos e nos faz acordar para o enorme desperdício que fazemos do nosso tempo/vida. 

Fevereiro está a ser amargo. E doloroso. Mas que sirva para o relembrar de uma lição de vida que constantemente esquecemos: carpe diem! Amanhã pode ser tarde demais. Então não desperdicemos o nosso tempo, a nossa vida, em merdas que não trazem nada de bom, não acrescentam valor, não nos fazem melhor nem mais felizes.

 

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