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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

07
Jul21

A hipocrisia das redes sociais

Há umas semanas atrás estive a cuscar o site da Shein, secção swimwear.

Coincidência ou não, na mesma altura apareceu-me nas sugestões do Youtube um vídeo, acabadinho de publicar, de uma (creio) youtuber nacional no qual experimentava e dava o feedback de bikinis comprados no Aliexpress. Fui ver pela curiosidade de perceber qual seria a opinião e como vestiam estes bikinis comprados por via destas plataformas de vendas online.

Se venho falar do que achei dos ditos bikinis? Nem por isso. Talvez o facto de não ter voltado a ir espreitar e tão pouco arriscar uma encomenda fale por si.

O que me fez uma espécie de reação visceral ao dito vídeo foi a youtuber em apreço pedir desculpa aos seus seguidores e pedir a sua compreensão porque não estava na sua melhor forma física, que se encontra em processo e emagrecimento e portanto, "pessoal, tenham lá calma com as críticas que eu sei que não estou no meu melhor" (parafraseando).

E só me passou assim uma coisa pela cabeça...

A sério? A sério??? Não é suposto andarmos nesta luta para derrubar estereótipos e padrões de beleza absurdos e irrealistas, louvar a beleza dos corpos, seja qual for o tamanho que vestem ou a forma que têm?

É esta puta desta hipocrisia das redes sociais que me tem afastado de lá. Cansada de ler ou ouvir discursos apologistas do bem estar emocional e mental, amor próprio, respeito por si própria, aceitação e o camandro, para depois as mesmas oradoras publicarem as suas fotos e stories dos seus corpos esculturais, em posições de yoga em que o 3º olho deixou de estar entre as sobrancelhas para estar entre as nádegas (normalmente acompanhado do peach emoji, que claramente não é uma alusão à fruta mas às nádegas firmes e hirtas). E as que não têm os corpos esculturais dignos do peach emoji, pedem desculpa e justificam que estão em processo de perda de peso. Ora fodeibos!!!!!

E lembrei-me de partilhar esta publicidade da Dove, que é tão crua e real, para lembrar que está nas nossas mãos inverter os danos que a pressão das redes sociais e os padrões ridículos de beleza causam na autoestima de todos(as) nós. Um grande basta a isto de termos de caber todos dentro do mesmo molde. Não somos "ovelhas Dolly". Não somos feitos numa linha de montagem, moldados dentro do mesmo espartilho.

E não será esta enorme diversidade de tamanhos e formas a beleza da nossa espécie?

 

 

06
Abr21

É aplicar a regra de 3 simples

Se partir um espelho dá sete anos de azar, não ter ido ontem a uma esplanada dá quanto tempo?

A julgar pela corrida sôfrega às esplanadas, ou iam levar a vacina anticovid ou estavam a  evitar estar x anos em modo azar.

Depois digam que é azar daqui a 15 dias haver conselhos que afinal permanecerão em confinamento, negócios que continuarão por abrir e famílias cuja vida  sem rendimentos se estenderá por tempo indeterminado, porque em loja fechada não entra dinheiro.

Então boa esplanada para todos, sim? Eu cá continuo em modo trabalho - casa - deslocações estritamente necessárias. Alguma coisa devo estar a fazer bem, porque em mais de um ano de pandemia ainda não levei com uma zaragatoa pelo nariz, e que assim se mantenha.

E sim, custa para caraças esta vidinha limitada e sem a liberdade de outrora. Custa não ver os amigos, não ir jantar fora, beber um copo ou ir a uma noite de danças latinas (saudades). Custa não ter as aulas de grupo que quebravam a loucura dos dias sempre cheios de tudo e nada. Custa a falta de abraços, as conversas em convívio animado. Tanta coisa que custa em prol de um bem maior: a saúde pública.

E portanto sim, revolta-me um bocadinho o umbiguismo egocêntrico de muitos, que tanto põem em risco em prol de quê? Deles próprios.

mundo.jpg

É só isto.

 

14
Jul20

"Se eu consigo, vocês também conseguem"...

Só que não!

Não nos comparemos, e digo isto a mim própria, por que é tão fácil cair neste engodo das comparações, como se vidas, corpos, pessoas, sentimentos se pudessem comparar.

Na ordem do dia está a capa da Helena Coelho e a sua transformação. Quer ser inspiradora e é, e em simultâneo levanta aqui uma série de outras questões. E é normal que assim seja, são as duas faces da mesma moeda.

Debate-se se o objetivo de emagrecer para ser capa de revista é válido. Por mim é, como qualquer objetivo individual que apenas diz respeito a quem o decide e se esforça para o atingir. Esta é uma discussão um tanto ou quanto oca, tal como foi há uns anos uma blogger ter dito que o sonho dela era ter uma mala da Chanel. Cada um sonha com o que bem entende, cada um estabelece os seus objetivos pessoais e a isso chama-se aquela coisa fantástica que é a liberdade de escolha.

O busílis da questão reside no facto de ser uma figura dita pública, influencer neste novo mundo onde o digital ganhou tanta importância e visibilidade. E por isto eu compreendo argumentos que li a alertar para o risco de uma pessoa com cerca de meio milhão de seguidoras (considerando que o público alvo é maioritariamente feminino e entre os 20/30 anos) promover ideias de magreza como sinónimo de ser saudável, de ser magra para caber numas calças da secção infantil, como se fosse o grito do Ipiranga da moda, de passar a imagem que a sensualidade (o ser sexy) e felicidade da mulher passa por dedicar a vida ao culto do corpo, no matter what. Fica ali no limbo os possíveis comportamentos obsessivos e pouco saudáveis para atingir fins que são "questionáveis" e o perpetuar de um conjunto de ideias pré concebidas, como: o ser magra é ser linda e sexy, é ter saúde, é ser o exemplo de um estilo de vida e alimentação saudáveis. O resto não cabe aqui, logo é nocivo. A postura de proximidade que procuram ter com o público, porque se ela conseguiu qualquer pessoa consegue. Qualquer pessoa? Seja qual for a vida de cada um, horários, responsabilidades, disponibilidade e condições várias?

Não comparemos. A Joana Roque faz o seu meal prep, que tanta gente ambiciona, às segundas. Ora, uma grande maioria de nós às segundas está a enfrentar trânsito, transportes públicos, picar ponto, trabalhar horas a fio fora de casa. Quando chega o fim de semana há limpezas / arrumações, tratar de roupa, supermercado, e ainda tentar encontrar tempo para lazer e descanso.

A Helena Coelho trabalha no digital onde tudo se mostra e se exibe, e onde, obviamente, se procura mostrar e exibir o melhor, a sua melhor versão. Trabalhar o corpo para ser capa de revista e fazer a campanha dos biquínis faz parte do seu trabalho. Enquanto milhares de mulheres estão sentadas atrás de um computador, ou horas em pé atrás de um balcão de atendimento, ou seja qual for o seu trabalho que as limita a um espaço diminuto e a tarefas que não incluem exercício físico, Helena Coelho pode literalmente trabalhar o corpinho.

Não se fazem omeletes sem ovos. E não se pode proclamar aos quatro ventos que se a Helena Coelho, com a vida que tem e as condições que reúne consegue, outra mulher, daquelas que acorda às 6h30 enfrenta um dia com filhos, trabalho, tarefas domésticas, transportes, trânsito, muito tempo e energia despendidos para outras pessoas e outras tarefas que não passam por tratar de si próprias, também consegue. E já nem estou a entrar naquele campo minado de que cada corpo tem o seu próprio ritmo e características e, se umas para emagrecer basta deixarem de beber refrigerantes e comer pizzas para passar a comer mais saladas e beber mais água e chás e quiçá fazer umas caminhadas, para outras não é bem assim. E deste lado fala uma mulher que está em luta consigo própria e a tentar lidar com a frustração de ter alimentação saudável, exercício físico moderado e o corpo responder de forma oposta: engordo sem perceber porquê. Já fiz despiste em várias especialidades médicas, exames vários, e esbanjo saúde (e não sou magra com o estômago encostado às costas). Muito grata por isso. Agora o que vejo ao espelho não gosto e está a custar muito encaixar, work in progress. E independentemente dos filtros que até considero ter, é fodido levar com as Helenas Coelho deste mundo, que dão aquele ar que  tudo é tão fácil e simples como somar 2 + 2, como se aquilo que exibem fosse o pináculo da existência humana, o atingir o nirvana. E quem não consegue é uma preguiçosa que não mexe o rabo do sofá e não come o que devia.

Por analogia, nem todas temos as segundas feiras livres para nos dedicarmos ao meal prep da semana toda. E nem todos os corpos reagem da mesma maneira à alimentação ou ao exercício (sim gente, não é uma equação matemática com um resultado certo). É que esta aqui que vos escreve, durante a quarentena fez sessões diárias de 30 minutos de indoor cycling, e também fazia aulas de fitness pelo Youtube, e caminhadas e comia legumes e carnes brancas ou peixe, fruta como snacks em vez de bolachas e pão. And guess what? Engordei e ostento uns pneus que fazem uns rolinhos quando me sento. O drama que foi escolher entre fato de banho e biquíni quando, há dois fins de semana atrás, decidi começar a ir à praia. E por falar nisso, expliquem-me como raio é que o fato de banho (alegadamente) disfarça mais a barriga? Eu só me sinto uma grávida de 6 meses (sem o estar). Escolhi o biquíni e assumo os rolinhos. Eu disse, work in progress.

Parte do meu processo de aceitação está a passar pelo Yoga. Trabalhar de dentro para fora. E tem sido diário. às 6h30 acordo e os primeiros 30 minutos do meu dia são dedicados ao Yoga. Os rolinhos estão cá, bem como a celulite. Eu estou é a aprender a aceitar o que vejo ao espelho, agradecendo a bênção de ser saudável e tendo como objetivo, não o six pack, mas ultrapassar a ansiedade e stress que fazem estragos no meu organismo (e não só). Estou a aprender a viver com mais calma, aprender a respirar e a parar, olhar para dentro de mim e procurar equilíbrio e serenidade. E isso faz-me mais feliz que as costelas à mostra.

Só gostava era de sentir menos pressão por não caber nos estereótipos, gostava de não ter vergonha por vestir um biquíni e ficar de rolinhos à mostra, ou gostava de não ter de responder vezes sem conta que não, não estou grávida.

 

15
Abr20

Com pronúncia do norte... e humanidade!

Há muito tempo, long time ago, que este canal não conta com a minha audiência. Mesmo quando faço distraidamente zapping para ver o que está a dar, continuo suficientemente atenta para passar à frente do botão 4. 

Não fiquei muito surpreendida com o sururu que se levantou nas redes sociais a propósito deste "erro grosseiro". Exemplos destes são os que validam a minha opção de nem sequer ver tal canal que prima pelo mau jornalismo, pouco profissionalismo, ética duvidosa e nada nada nada imparcial. Mas já diz o ditado, falem bem ou mal, o importante é que falem. E é assim que este canal anda sempre nas bocas do povo. Lamentável.

Não queria comentar. Queria manter a indiferença que mantenho para com esta estação de televisão, num sentido ato de desprezo. Prefiro ver o trash tv da TLC, a ver o que seria suposto ser um serviço informativo de qualidade. Alguma, pelo menos.

Não queria comentar para não ser mais uma a alimentar este erro de semântica que vem levantar as hostes da secular rivalidade Norte/Sul. 

Portugal é um país geograficamente pequeno, no entanto é rico e denso em diversidade cultural, regional, gastronómica, sem falar dos séculos de história que carregamos no nosso ADN nacional por sermos um dos países mais antigos. (Recorrendo à educação que tive, seria agora o momento de recordar que o berço de Portugal é no norte... deve ser por isso que é só velhos.) Devemos orgulhar-nos desta nossa identidade nacional e cultural, dos séculos de história, das conquistas e descobertas. Que seria o mundo se não tivéssemos partido à descoberta? Seria como o conhecemos hoje? 

Não deixa de ser verdadeiramente triste e lamentável ver num canal de televisão, mais, num serviço de notícias que se quer rigoroso, imparcial e ético, uma frase destas. Não é só um erro grosseiro ou semântico. Não é justificável e tão pouco desculpável. 

A par das vozes do norte que vêm defender a sua honra (e estão no seu direito), vêm outros defender o canal e achar que os do norte são umas virgens ofendidas e, burros, não percebem o lapso jornalístico de uma (única) pessoa, que sozinha não faz a equipa nem o canal (isto é que é trabalho de equipa, exemplar!). Cá está, a eterna rivalidade que divide e reduz o país a Norte e Sul, a Porto e Lisboa (espremidos os argumentos). 

Eu sou Aveiro. Faço parte do Norte. Sou portuguesa. Com muito orgulho. 

Adoro o sul, tenho uma paixão pelo Alentejo e isso não faz de mim menos aveirense, menos nortenha nem menos portuguesa. 

No entanto não gostei de ver aquela infeliz frase que reduz uma boa parte do país a gente sem educação e velhos. Puxando os galardões, a Universidade de Aveiro é uma das melhores do país e está bem posicionada no ranking de universidades mundiais, assim como a Universidade do Porto e a do Minho.  Se isso é sinónimo de educação e cultura, então o Norte não tem de se sentir ofendido com vozes que vêm "de baixo".

A guerra que estamos a viver é mundial. O vírus não distingue nações, línguas, estratos sociais, contas bancárias, graus académicos... pronúncias . Tanto quanto sei e foi notícia no mundo, desde atores de Hollywood, a príncipes europeus e dirigentes políticos, o vírus apanhou de tudo um pouco. Se calhar acaba por ser mais inteligente que nós, porque só "reconhece" seres humanos, enquanto nós andamos aqui a discutir teses verdadeiramente científicas de que o vírus contamina essecialmente pobres e sem educação e velhos isolados no norte... 

O corona vírus veio mostrar-nos a vulnerabilidade do ser humano. Somos todos iguais, apesar do tanto que nos distingue ou que usamos para nos distinguirmos.

Agora, mais do que nunca, é momento para estarmos unidos e solidários com os nossos pares e semelhantes. Em todo o mundo. E por isso alimentar esta rivalidade bairrista é só idiota e completamente ridículo. Numa altura em que enfrentamos o mesmo inimigo, faz-me pensar que afinal a humanidade não está a aprender a lição de vida implícita nesta pandemia.

 

13
Mar20

Escrevi... feito!

Não entrei em histerismo. Não ando de máscara. Não fui ao supermercado comprar este mundo e o outro como se fosse ficar um ano fechada num bunker. Estou mais alerta, sigo as medidas preventivas divulgadas pelas entidades e órgãos competentes, até porque começam a ser implementados em todo o lado, inclusivamente nos locais de trabalho, planos de contingência de forma a prevenir e minimizar os riscos de contágio. Ontem e hoje recebi mensagens das atividades que frequento a avisar da suspensão das mesmas até ao fim do mês de março, reavaliando a situação no início de abril. Não só concordo como já tinha decidido por mim, para meu bem estar e dos outros, cumprir o meu papel social no combate a esta pandemia Covid-19, e que passa por evitar ao máximo ir a locais públicos e estar em contacto com aglomerados de pessoas.
As recomendações da OMS e da DGS passam por um isolamento voluntário de todos nós, saindo apenas e só para o essencial e imprescindível. E assim nasce o movimento #euficoemcasa.
Eu também ficaria de bom grado, a trabalhar a partir de casa, contribuindo ativamente para o controlo da propagação do vírus, protegendo-me a mim, aos meus e a todos os outros. Mas eu vou aderir ao movimento #eunaoficoemcasaporquenaopari. É que a empresa onde trabalho só deu à escolha ir trabalhar ou ficar em casa sob teletrabalho quem tem filhos. Os outros, como eu, que não procriaram, podem continuar a andar na boa, expostos, se formos infetados e morrermos, não deixamos órfãos. Deve ser isto!
O que me fode é esta distinção, esta diferenciação. Num problema que atinge TODOS, só a uns é dado o privilégio de escolher ficar em casa resguardados, como recomendam as autoridades de saúde, ou ir trabalhar como é habitual. O critério de seleção? Filhos.
Tema sensível, porque obviamente as escolas fecham, as crianças devem estar protegidas e sob vigilância, e para isso ser possível, os pais têm de ir para casa. A ser coerente, devem ir os dois, porque ser só um a ficar em casa e o outro continuar a sair na sua rotina "quase" habitual, vai dar merda na mesma.
Então mas os que não têm filhos são o quê? Carne para canhão? Não têm sequer o direito de dizer: também quero trabalhar a partir de casa (o que der, como é evidente) ou dizer que não, que se continua a fazer o trajeto para o trabalho e a levar a vida como até aqui se levava antes do Covid? Sinto-me revoltada. Porque não sou das que olha de lado ou aponta o dedo quando colegas mães têm de sair porque os filhos ficaram doentes, têm de faltar porque os filhos têm febre e viroses, não sou das que atira para o ar que a licença de maternidade é férias e bem bom em casa. Sem ser mãe sou das que defende que a licença de maternidade devia ser, no mínimo, um ano. Mas por não ser mãe vejo-me privada de direitos que pelos vistos só cabem aos que gozam do estatuto de parentalidade.

24
Fev20

Pergunto-me se efetivamente estamos no séc. XXI...

21695981_HEF4A.jpegLi, há pouco, uma publicação de uma conhecida no Facebook. Toda indignada por a lei da eutanásia ter sido aprovada (aliás, ainda nem é a aprovação da lei, mas a aprovação para se criar essa dita lei). Escrevia ela que "matar gente é muitooooo mais fácil e menos dispendioso que tratar gente como merece ser tratada!"... e ainda protelava que esta aprovação é um "fabrico da morte".

E eu estive vai não vai para comentar e decidi não o fazer. Não vou alimentar a indignação desta gente que é do contra porque sim. Têm cursos superiores só para serem tratadas por doutoras, pois usarem a massa cinzenta tá quieto. 

Olhem para os EUA. Eu sei que não são lá muito exemplares numa série de coisas, mas na saúde o paciente é dono e senhor do seu corpo e saúde. É o paciente que decide e autoriza exames, tratamentos, intervenções cirúrgicas. É o paciente que decide se quer ser reanimado ou não. Quando o paciente é menor ou comprovadamente não está nas suas plenas capacidades cognitivas e de discernimento, então os familiares diretos decidem. Nunca é o médico que decide sozinho. 

A realidade em Portugal é diferente. O médico tudo decide. Poucas vezes dá as opções ao paciente e fá-lo escolher. Normalmente fazem os exames que querem ou acham necessários, enveredam por um diagnóstico como se fosse uma verdade absoluta e inquestionável e cujo tratamento fosse apenas um e só um. Se não resultar, logo se vê. 

A eutanásia não é uma aspirina ou um Ben-u-ron que vai ser prescrito para qualquer febre ou azia. A eutanásia É UMA ESCOLHA DA PESSOA EM ESTADO TERMINAL, NUM SOFRIMENTO ATROZ, EM QUE VIVER É PIOR QUE A MORTE. A pessoa tem o magnânimo poder de decidir sobre a sua própria vida. Será que custa entenderem esta merda? 

Ah e tal fábrica de morte... matar gente é muitoooooo mais fácil... a sério? O médico só aplica a eutanásia se o paciente assim o quiser. E não é obrigado a aceitar a decisão do paciente e pô-la em prática. Assim como acontece muitas vezes com certas cirurgias (a título de exemplo), que não se sentindo seguros de a realizar, passam o caso para outro colega que esteja apto ou seja mais indicado.

Já quando foi a despenalização do aborto havia os indignados que defendiam o "Não", como se o aborto passasse a ser um método contracetivo. Algo do género: não me apetece tomar a pílula ou usar látex, se engravidar marco um aborto, a seguir à manicure. Cruzes canhoto ir abortar sem ter as unhas arranjadas.

Que pariu...

Batem no peito pela liberdade e igualdade e vai-se a ver são todos uns retrógados acéfalos, que acham que a pessoa ter a liberdade de poder decidir sobre a sua própria vida, condenada a um sofrimento atroz e sem esperança de recuperação, é uma fábrica de morte e é andar a matar a torto e a direito (que é mais fácil). 

Votou-se num direito, pessoas indignadas! Um direito individual, cuja decisão apenas pertence ao próprio indivíduo. Votou-se numa lei que contextualiza e legitima as circunstâncias em que esse direito é para se fazer valer por quem TEM ESSE DIREITO. Não está a ser desenvolvido um projeto de fábricas de morte, porque é muitooooooo mais fácil matar que tratar. Não se vai parar com a vacinação porque é mais fácil e barato avançar logo com a eutanásia e cortar o mal pela raíz. Ou então é começar desde logo a prescrever o aborto, que assim garantidamente não há riscos no futuro.

 

30
Jan20

Até fiquei parva!

Eu sei, eu sei. Nesta coisa das redes sociais cada um mostra o que quer, expõe-se como quer, e quem está do lado de cá tem igual liberdade para ver o que interessa e excluir o que não interessa, não havendo necessidade nenhuma de alimentar esta cadeia de indignação inflamada que tantas vezes surge por merda nenhuma, só porque sim.

Mas permitam-me a breve partilha da minha opinião, que é apenas e só isso: uma opinião.

Ontem uma parceira e amiga de blogs e redes sociais partilhou comigo, assim meia impressionada, uma publicação que, para não identificar quem quer que seja, vou descrever o menos possível. Digamos que a dita publicação extrapolava, a nosso ver, o que deve ser da esfera privada, resolvido entre quatro paredes, entre as pessoas interessadas. Mas eis que é publicado em praça pública, à laia de sondagem, estão abertas as votações meu povo...

Quando olhei a publicação tive pena. Confesso. Tenho pena destas pessoas que prostituem a vida nas redes sociais, vale tudo para umas centenas de visualizações, outros tantos likes, reações e comentários. Rastejam e mendigam por almoços (ou brunchs que é mais fashion) grátis, por trapos e ofertas várias em troca sei lá do quê. E quando vejo os peditórios lamechas nas redes sociais e nem uma única reação obtêm, eu questiono-me se esta gente não se toca, se não há assim um rasgo de bom senso e param com aquele mendigar que chega a ser humilhante. Pergunto-me se uma qualquer marca de papel higiénico oferecer uns quantos rolos, esta gente vai publicar foto do dito usado para que todo o mundo veja a qualidade do produto? E a malta com crias? Dias há que é só fotos das crianças com o raio do pacote da papa ou de outra merda qualquer ao lado. Só um cego não topa que uma qualquer marca de puericultura enviou um press release a um grupo de bloggers, influencers, whatever. 

Ah e tal isso é dor de cotovelo? Eh pá, não é. Estou a borrifar-me para as borlas em troco de publicidade manhosa e muitas publicações nas redes sociais. Se falo de um produto, de uma merda qualquer que comprei, é porque me apetece, porque quero partilhar, e não há cá patrocínios, o que uso e compro é pago por mim. Mais, também já recebi press releases e apago, não quero, não vou vender a alma ao diabo nem prostituir a minha vida nas redes sociais em troca de coisas que na maioria das vezes não me interessam, não estão ao alcance da minha vidinha e carteira de gente que trabalha e paga contas. Não vou vender uma vida que não é a minha a troco de quê mesmo? Visualizações? Público? Likes e reações? Comentários múltiplos de gente que nunca vi (e provavelmente nunca hei-de ver) na vida? 

Cada um faz o que quer. A mim dá-me pena este circo de vaidades em que perdem total noção e bom senso. 

FB_IMG_1580383504352.jpg

 

 

 

23
Nov19

Nem de propósito...

Escrevia eu este texto e foi publicado um artigo de opinião na NiT que vale a pena ler (para quem segue o programa, claro). 

Ora cá estão elencados bons argumentos que justificam o porquê do programa australiano ser muito melhor que o nosso, a começar logo pela própria postura de quem se candidata e vive efetivamente isto como uma experiência social.

Por cá, resta continuar a seguir a saga dos casais, sobre os quais partilho aqui uma fantástica resenha: 

“Casados à Primeira Vista”: alguém percebeu aquela história do Zé Pedreiro e do Anjo?

 

18
Nov19

Casados à primeira vista (ou como as versões portuguesas estragam sempre o fundamento original de determinados programas de sucesso mundial)

Tenho por começar a dizer que já conheço o programa versão australiana bem antes de ter havido a primeira edição em Portugal.

Um dia, a fazer zapping na hora de almoço, parei na SIC Mulher e fiquei meia abismada a olhar para aquilo que me parecia, e se confirmou, ser um programa onde estranhos se conheciam no altar. Lembro-me de ter ficado tão aparvalhada, a pensar "que raio haviam de inventar para programa" que fiquei a ver, como quem esfrega os olhos para ter a certeza que está a ver bem. Resultado? Primeiro estranhei e depois entranhou. Fiquei viciada no programa e segui umas três temporadas seguidas, a última não consegui ver com regularidade, mas fui acompanhando. 

Depois veio o português. E pensei: lá vêm estes estragar tudo. 

Bastou ver o primeiro programa para achar que, efetivamente, o português comparado com o australiano era uma "palhaçada". Pouco vi da 1ª temporada, sendo que o que vi era inevitavelmente o que ia sendo partilhado e comentado nas redes sociais e deu para perceber o fiasco que aquilo foi. Nunca achei que fossem repetir.

Mas eis a segunda temporada e eu estou a acompanhar. Porquê? Ora, porque decidi ver o primeiro episódio só naquela curiosidade de ver os casais e vejo as manas de Aveiro. Atenção, não as conheço, nem me lembro de me ter cruzado com elas. Já falei com quem as conhece e confirmam que são o que mostram na TV, portanto, antipática ou mal educada, brincalhona e boa onda, cada irmã é o que é na TV e na vida do dia a dia.

Continuo a preferir o programa australiano. Parece-me bem mais genuíno. Até os especialistas, o que dizem, como explicam as coisas, o trabalho que desenvolvem com os casais, vê-se ali uma experiência social, mais que um programa de entretenimento ao estilo reality show. Já o português acho que é o oposto: está mais para reality show do que para experiência social. Aliás, só isso pode explicar como é que certas e determinadas pessoas decidem ir para um programa destes com a atitude com que vão. 

Algumas pessoas acham que é noivos/noivas por encomenda: tem de ser assim, e assado, pesar x kgs, ter y idade... foda-se! 

Depois se vão para uma experiência social que dura umas quantas semanas, mas têm filhos para tomar conta, então para que vão se não podem "estar" no programa quando as câmaras se desligam? Isso não acontece no australiano: os casais estão juntos durante 8 semanas. Não há cá fins de semana separados, ou ir dormir a casa porque os filhos já não estão com o pai, ou porque não é suportável partilhar o mesmo teto com o marido (o que tem solução, é sair e acabou, não é sair com entrelinhas de ficar, então e a parte do insuportável? Ah espera, é só na parte das filmagens que o suporta?! Lá está a subversão total do que é suposto ser a essência do programa enquanto experiência social). 

Já para não falar que, se o objetivo primordial da experiência é encontrar o amor, e passar por todo um processo de auto-conhecimento (fundamental) que implicará sair da sua zona de conforto e dos seus padrões, que pelos vistos têm falhado (já que ao candidatarem-se a um programa destes assumem que sozinhos não conseguem encontrar um amor compatível), confiando nos ditos especialistas, então vão para o programa com relações mal resolvidas e ainda a pensar no ex, ou na morte da bezerra? Ou nos traumas da infância, vidas sofridas (cada um terá a sua, mas hello, supera! Também é para isso que estão lá quatro profissionais especialistas em relações, comportamento e comunicação. Boa pergunta a do outro, "o que tem a história do pai com o eu não fazer a cama ou não saber dobrar a roupa?").

Não quero comentar detalhes, episódios ou participantes em particular, ainda que já tenha deixado aqui umas pinceladas que para quem vê facilmente identifica. Deixo apenas uma visão geral do programa: aquilo que poderia ser uma interessante experiência social transmitida pela TV, e onde todos teríamos muito a aprender, é na verdade um circo de vaidades, um desfile de egos, uma tragicomédia à boa moda tuga. Querem chorar os dramas, é na Fátima Lopes. Querem aparecer na TV? Há uma vasta panóplia de reality shows que servem apenas e só para isso. Aliás, quanto mais polémicas causarem, mais famosos ficam.

E pronto, continuo a preferir a versão australiana, ao menos lá dá para aprender alguma coisa disto das relações, das emoções, da partilha, cedência, compreensão, respeito e, o que parece ser o problema fulcral e universal, comunicação (ou falta dela).

No português continuam a insistir na subversão dos objetivos que fundamentam este programa. Se é um erro de casting? Se são os participantes que, depois de conseguirem passar nos testes e entrarem, mostram outra cara? Por muito mal educada e arrogante e prepotente e teimosa que nem uma mula, pelo menos ninguém pode dizer que a mana bruxa de Aveiro foi falsa ou incoerente... desde o primeiro minuto que foi igual a si própria e, não me admira nada que tenha ficado duas semanas porque a isso foi obrigada. Não há possibilidade de no altar dizer que não aceita? Olhem que isso também deve dar audiências... e não deixa de ser vida real. Se calhar mais real que estas produções fictícias que nos vendem como uma experiência social. Bah

 

 

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