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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

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18
Fev19

Oh fevereiro mais amargo

A culpa não é de fevereiro, mas, bolas, está a ser um mês complicado. Difícil de gerir tantas emoções e tantos imprevistos a acontecerem.

Tenho dedicado tempo (e dinheiro, que as idas à veterinária estão a ser por minha conta) com a Ritinha (eu chamo-lhe Bebecas, e quando pensei que fosse ficar comigo já estava rebatizada de Becas).

A gatinha foi resgatada da rua porque a minha sogra quis e se comprometeu. Só que depois de quase duas semanas lá em casa dela, acabou por vir para nós para o processo de socialização, que tem sido um sucesso. Acompanhamento veterinário. Entretanto percebemos que a constipação que tinha não passou por si, apesar de já estar num ambiente controlado e mais confortável, e levo com a sogra a dar as suas ordens: levem-na e quando estiver boa tragam-na!

Caiu-me tão mal. É que eu saí do consultório com a prescrição do tratamento a saber que ela sozinha não o ia conseguir administrar. A gata ainda não estava totalmente dócil para que lhe fossem dados comprimidos pela garganta abaixo, nem xaropes, nem limpezas de ouvidos, só uma pessoa. Mas não, Gandhe garante que a mãe sabe tratar de gatos, só que ainda mal o filho tinha começado a explicar o tratamento, sai-se com aquela pérola. Podia ser um, eu não devo conseguir fazer isso tudo sozinha, ou vocês vêm cá ajudar-me, ou ficam com ela mais estes dias. Não. À boa maneira dela, é eu quero, posso e mando, levem-na e quando estiver boa tragam-na. Confesso: não me apeteceu devolver-lhe gata nenhuma. Adiante.

Mais uma semana com ela, a dar-lhe a medicação e a continuar com o processo de socialização. Evolução extraordinária, quer na constipação que ao fim de 48h se notava melhorias extraordinárias, quer no desenvolvimento dela. Ganhou peso, começou a brincar e a interagir mais, a confiar mais. Ainda que, sempre que ela sai do seu "ambiente" e muda de divisão, fica novamente em estado de alerta, com tendência a procurar um esconderijo. Normal... é um animal que veio da rua e tem os instintos de sobrevivência apurados.

Nova consulta a um sábado, Ritinha curada e ótima, é para ir para a sua dona legítima, estava fora o fim de semana. Ok, regressou a casa na segunda ao fim do dia. E eu aproveitei mais dois dias de namoro com a Bebecas, no domingo à tarde dormiu horas ao meu colo embrulhada num casaco meu, felpudo e fofo que ela adora.

Na segunda lá vai Ritinha, com os brinquedos dela, com o meu casaco que ela adora, para a sua casa. E lá fica, calma, junto do seu amiguinho.

Dia seguinte teve um surto, escondeu-se, parece que bufou e atirou as garras à sogra, que liga para o filho a mandar vir. Recebo eu uma mensagem a anunciar-me que ia buscar a gata, ficavamos com cinco, e ponto final, não estava mais para se chatear.

À tarde mudou a 180º. "Ai que a gatinha está mais calma, é um fofa, até dormiu a sesta comigo, brinca muito e gosta muito de estar aqui no casaco..."

É que aquela alminha finalmente fez o que desde início lhe dissemos que era necessário fazer, faz parte do processo. Aquele animal precisa estar num ambiente controlado para se ir sentindo seguro e começar a confiar. Lá pôs a gata num quarto que tem desocupado, montou lá as coisas dela, comida, areia, brinquedos, o arranhador que lhe comprámos, a transportadora onde ela tanto gosta de estar, o meu casaco. Claro que o animal acalmou, num ambiente sossegado e com as coisas que lhe são familiares. 

Mas eu passei-me. A mulher já não é nenhuma miúda de 5 anos para andar a fazer birras que agora não quero a gata, agora já quero. Passei-me com o filho, claro, que se pôs logo armado em cavaleiro andante em defesa das merdas da mãe. Discussão feia, muito feia. Grave. E ele disse-me coisas que me quebraram, que rasgaram feridas antigas que foram cicatrizando com o tempo. Estava tão magoada com ele, que mesmo ele, horas depois (nada normal, nada dele), ter-me vindo pedir desculpa pelas coisas que disse, porque também estava stressado com as pancas da mãe, eu só consegui responder-lhe: partiste-me com o que disseste. Hoje não consigo aceitar o teu pedido de desculpas. Talvez amanhã.

Mas a vida tem umas ironias do catano. Manhã seguinte, eu sem pregar olho, estupidamente magoada, com umas olheiras que mais parecia um panda, venho para trabalhar e carro não pega. Puta que pariu a minha sorte. Mais alguma coisa?

Ligo a uma colega, peço-lhe boleia. Envio ao Gandhe uma mensagem: Smart não pega.

Já estava no trabalho quando ele me liga. A saber o que se passou. Ficou de sair um pouco mais cedo, apanhar-me na hora de almoço e ir ver o que se passava com o carro.

E é assim, que os problemas reais do dia a dia funcionam como um balde de água fria numa fogueira ainda incandescente. 

Felizmente foi a bateria do carro, trocou-se e não foi nenhuma fortuna. Problema resolvido.

Vem o dia dos namorados. Eu já tinha encomendado uns cupcakes de chocolate, que uma colega de trabalho faz (deliciosos), com desenhos alusivos ao tema. Deixei a caixa dos cupacakes na bancada da cozinha. Quando ele chegou, enviou-me foto, agradeceu e disse que tratava do jantar. Quando cheguei a casa até tive direito a um cesto de rosas. 

Pronto, vale o esforço dele tentar colar o que partiu dias antes. 

Mas se as coisas pareciam estar a acalmar, estávamos iludidos. Cai a bomba. A avó dele sofreu nesse dia um AVC. Grave. Muito grave. Estava na UCI, ligada às máquinas. Prognóstico muito reservado, médica de serviço disse que dificilmente passava daquela noite.

Mas passou. E ainda está "viva", se é que aquilo é vida. Já não está ligada às máquinas, já respira por ela (uma respiração que até mete dó e aflição só de ouvir), não recuperou a consiciência e dizem os médicos que não esperemos que "acorde": Só estamos à espera que o coração efetivamente pare - citando os médicos. Ponto. Assim, direto, sem paninhos quentes. Sem ilusões de um falso milagre. Sem esperanças alimentadas por engodos.

E tem sido isto, uma angustiante espera, um constante olhar o telefone à espera da notícia que está anunciada, para breve. À espera do quando. 

Se fica por aqui? Podia ficar, dava jeito, não dava?! Mas não. Que isto quando vem maré de azar, varre tudo.

O meu mais novo está doente. Já lhe notei mudanças na quinta passada, mas ontem foi a derradeira confirmação. Hoje a primeira coisa que fiz foi marcar consulta com a veterinária. E vamos lá ver o que se passa.

Por favor, podemos ficar por aqui? Já há demasiados cacos espalhados, demasiadas feridas e angústias.

E nestes momentos em que a morte ronda os nossos, nos faz uma visita e nos lembra assim, em modo bofetada, que o nosso tempo tem um fim. Ganhamos esta dolorosa consciência da nossa finitude. A única certeza que temos na puta da vida: ninguém fica cá para semente. Todos temos o nosso fim. Só não sabemos como e quando. E que merda andamos a fazer com o tempo que temos? Que sentido estamos a dar ao privilégio, tantas vezes descurado e esquecido, de estarmos vivos e termos imensas oportunidades de poder fazer tanta coisa.

A bofetada que levamos e nos faz acordar para o enorme desperdício que fazemos do nosso tempo/vida. 

Fevereiro está a ser amargo. E doloroso. Mas que sirva para o relembrar de uma lição de vida que constantemente esquecemos: carpe diem! Amanhã pode ser tarde demais. Então não desperdicemos o nosso tempo, a nossa vida, em merdas que não trazem nada de bom, não acrescentam valor, não nos fazem melhor nem mais felizes.

 

07
Dez17

Era tudo o que (não) precisava!

Sentia-me já com algum animo para juntar os meus cacos, sacudir o pó e fazer-me à estrada da vida, quando a vida, que não está para meiguices, achou que era hora de eu levar uma valente bofetada.

Recebi ontem uma SMS, vinda da mãe de quem não havia qualquer relação desde há quatro anos, a informar que a minha avó faleceu.

E se eu era um monte de cacos, em poeira de caquinhos fiquei. 

 

27
Ago16

Rio, rio, rio, rio para não chorar...

Sogrinha desde o fim de semana passado não pára de ligar ao filho. E porquê? Porque tinha lá uns tomates que nos queria dar e andou a semaninha toda a chagar a paciência por causa dos ditos. Bem, a semana toda não, porque à conta da NOS ficámos sem comunicações, e durante 5 dias não tivémos contacto de telemóvel disponível. 

Mas tanto chateou, que ele lá foi finalmente a casa buscar o raio dos tomates, e eu já a benzer-me a pensar que, tamanha aflição e urgência, só podia vir dali uma tonelada (quase) de tomates e que haveria eu de fazer a tanto tomate (já me imaginava no meio de la tomatina).

Eis que ele me aparece em casa com dois tomates. DOIS! Tanta aflição por causa de DOIS tomates?!

Pronto, eu poupo-vos a piadas ordinárias que agora podia fazer com os dois tomates da sogra...

 

02
Mai16

Já ganhei um lugar no céu, não?!

Ontem tomava o pequeno almoço com vagar, pensando como queria aproveitar o domingo de sol. Estava para desafiar o Gandhe a almoçarmos numa esplanada, depois aproveitava para levantar uma encomenda no centro comercial. Mas antes que eu verbalizasse os meus pensamentos, ele pergunta-me:

- Queres ir almoçar fora?

Olho para ele como se ele tivesse adivinhado os meus pensamentos. Pobre tonta, mal sabia que o convite era encapotado e ainda não estava concluído...

- Com a minha mãe. Ela convidou-nos.

O meu olhar deve-se ter transformado em gelo, porque vio-o encolher-se todo, e a medo dizer que ela já ligara no dia anterior, mas ele não sabia como me havia de perguntar.

Respiro e solto um: tá bem, é dia da mãe, mas atenção, tenho outros planos e coisas para fazer, espero que o almoço não dure a tarde toda.

Pergunto onde é o almoço, ele não sabe. E eu já a ver o filme, vamos buscar a madame e seu namorado a casa, ser os motoristas, e levar com eles o dia todo. Sério? Cedi numa parte, esperava que ele fizesse a dele.

Meu dito meu feito, eu devia ter saído de casa de Smart. Nem sequer tinha estacionado a carrinha, já ela entrava por lá dentro, instalando-se à lorde. Só faltou dizer que lhe apetecia algo. Diz onde é para ir, e lá vamos nós, eu a ruminar o fel.

Durante o almoço ela dizia pérolas como: ai consolem-se, hoje o almoço é de borla, comer é hoje que é dado. Pó caralho, que quando lhe paguei almoços em restaurantes nunca lhe disse para encher o bandulho que era eu a pagar.

Depois vira-se para o filho: ai olha ali aquela rapariga, tão linda, cabelão comprido, loiro, aqueles olhos azuis, mesmo linda.

Obrigadinha pela parte que me toca, já que sou todo o oposto: baixa, cabelo curto, castanho caju e de olhos castanhos. 

Vale o namorado até ser uma pessoa simpática, e lá ia conversando e atenuando os efeitos nefastos da sogra. 

Depois de almoço, ai vamos tomar café a qualquer lado. Fomos. Eu só olhava para o Gandhe de lado. Já só pensava era largar-me para o centro comercial levantar a encomenda e apanhar o comboio para casa. 

Não foi preciso. Depois do dito café numa esplanada no centro histórico da cidade, ela quis ir passear com o namorado, e disse que regressavam a casa de comboio. 

Eu lá fui fazer o que tinha a fazer, regressei a casa, e sinceramente, ignorei o Gandhe. Não vale a discussão, não vale nada, estou farta, cansada, eu nem sabia se estava danada com ele, por causa de ter feito as coisas como fez, quase que me armou uma cilada para eu não poder dizer não, ao mesmo tempo nem me agradeceu eu ter feito o esforço para ele almoçar com a mãe no dia da mãe. Enfim. Estou em voto de silêncio. Ele que não me chateie, que eu estou em modo vulcão a acordar.

Para a semana faço anos, marquei férias, temos uma escapadinha de três dias marcada, mas estou aqui com uma neura que já não me apetece ir para lado nenhum.

Episódios com a sogra têm desgastado muito a relação. E a verdade é que cheguei ao ponto em que nem sequer me apetece fazer o esforço. Não quero discussões, também não quero conversas da treta, não estou para levar com fretes, estou é farta desta merda, ponto.

Dica de Pandora para solteiras: arranjem um orfão! 

 

21
Mar16

O karma, a sogra e a minha bílis!

Por altura do natal houve um episódio (mais um) da sogra que me deixou a ferver. Depois de tantas, foi como a gota de água que fez transbordar o copo. Depois daquilo, ela de mim não teria mais consideração, nem engolir sapos, nem nada. Posso ter muitos defeitos, mas não sou nem hipócrita nem cínica, portanto cansei de me esforçar para manter algum tipo de relação, com o mínimo contacto possível, de andar a engolir sapos e fazer alguns fretes, tudo pelo Gandhe, que é filho (e parvo, que continua a ser tapete debaixo dos pés da mãe).

Ora que fez ela no natal. Quis ficar sozinha, porque a mãe dela ia para casa de outro filho passar o natal, o namorado ia para casa de uma filha, e ela alegou umas dores de dentes e que não estava para se chatear. Portanto, a única pessoa que ela tinha no natal, curiosamente é a mesma e a única pessoa que ela tem nos restantes 365 dias, não estava para se chatear no natal, não se esforçou minimamente. Se a filha viesse cá, não lhe doíam os dentes, se a mãe não fosse para o irmão, não lhe doíam os dentes, se o namorado não fosse para a filha, não lhe doíam os dentes. Ironicamente, e o karma é fodido, só lhe restava o filho, que ela trata como criado, e eu, a cabra da nora, filha de Belzebu. Logo, não se esforçou minimamente pela família que lhe restava. 

Para mim foi um alívio. Mas custou levar com aquela cuspidela em cima, mais por ele, obviamente. E cheguei a dizer-lhe que é nessas alturas que agradeço não ter filhos, porque não saberia explicar à criança que não somos suficientemente especiais para a avó fazer um esforço.

Assim se passou, poucos dias depois ela a ligar para o filho fazer favores, ele a ir feito estúpido, eu a ficar com a bílis azeda durante uns dias, e a coisa acalma, até ela dar o ar de sua graça outra vez. 

Agora diz-me ele, por e-mail, pois acredito que tenha as bolinhas bem pequeninas para mo dizer na cara, que a senhora sua mãe no domingo de Páscoa tem a almoçar em casa a mãe dela, o namorado, e nos convidou também.

Ora, o karma a fazer das suas. Por um lado a minha oportunidade de lhe dizer que não estou para me chatear. Não vou, quero que ela se foda, tenho receio de morrer engasgada à mesa com um bago de arroz, não estou para engolir sapos, muito menos o meu orgulho ferido, como se nada se tivesse passado. Por outro lado quem sou eu para privar o Gandhe de almoçar com a mãe, com a avó e o pseudo padrasto?

Solução: ele vai, eu não. 

Seria simples, mas imagino que ele entre numa birra, só vai se eu também for, depois eu decido não ir, ele fica de trombas porque queria ir almoçar a casa da mãe, se engulo eu o orgulho e decido ir, vou estar eu fodida da vida, com a bílis a arder...

A sério, que faço eu?!

Não há nenhum ovni que passe e me leve antes de domingo? Por uns dias. Alguns. Dois. 

 

23
Fev16

Nas palavras dos outros vejo-me ao espelho

Hoje bati com os olhos numa crónica. Na hora de almoço, enquanto aguardava pelo plim do microondas, passeava os olhos pelo mural do facebook e algo me chamou a atenção. Abro o link. Leio de um trago o texto e sinto aquele arrepio de quem recorda um pesadelo.

Vais ser sempre uma infeliz.

Ouvi tanto isto. Ouvi tantas das coisas descritas neste texto. Vivi outras tantas. É duro. Foda-se, é mesmo duro. E não tem cura. É um vazio e uma mágoa que nos acompanha até ao fim dos dias. Conforta-me a coragem de ter virado costas, de largar, de procurar viver em vez de sobreviver. Conforta-me saber que há outras pessoas com histórias de vida familiar semelhantes. Que ouviram as mesmas coisas, que sentiram as mesmas coisas, que sofreram de igual forma. Conforta-me saber que a culpa não é minha, que o monstro não sou eu, que contra quem mais me devia apoiar e gostar de mim, eu procuro ser feliz como sou. 

 

12
Out15

Tenho de rever a minha forma de vestir

Ontem tivemos um lanche ajantarado em casa da avó do Gandhe, já que era a festa da santa terrinha e a senhora, no alto dos seus 80's e, gosta de reunir filhos e netos e quem mais apareça. Sogrinha mais querida não costuma ir, já que está de relações cortadas com irmãos. Nós vamos. É uma ótima oportunidade de conviver com tios e primos do Gandhe, que ele não costuma ver assim muito. 

Ora, como o evento era informal e familiar, eu levei os meus jeggings, os botins, uma camisola de linho soltinha e larguinha, como assim dita o código de coordenados das calças justas. Pergunta-me uma tia do Gandhe, com os olhinhos a brilhar e um sorriso no rosto:

- Estás grávida?!

Oh foda-se! 

Terei de vestir-me com um fato justo, digno de uma catwoman, para verem, sem sombras de dúvidas, que não há gravidez?! É que mesmo o pneuzinho que andava aqui a chatear, está a diminuir. 

Amanhã regresso à ginástica, just in case.

 

 

19
Ago15

O que é ter uma mãe tóxica: testemunho

Os pais também precisam de limites
Há várias formas de se ser ‘difícil’, mas as filhas de mães tóxicas em geral queixam-se de narcisismo (a mãe põe a sua vida e as suas necessidades antes das necessidades da filha e age como se a filha fosse uma extensão sua), preocupação com o exterior (a mãe preocupa-se com ‘o que as pessoas vão dizer’ se a filha faz qualquer coisa que não aprova), desinteresse ou incapacidade de perceber a vida da filha (não pergunta nada sobre a vida dela), anulamento de fronteiras e desrespeito pelo espaço ou autoridade da filha (telefona à hora que quer, interfere com a casa dela e os filhos dela, faz aos netos aquilo que a filha lhe disse especificamente para não fazer), crítica constante (falta-lhe empatia para perceber as escolhas ou comportamentos da filha), vitimização (acha que nunca teve aquilo que merecia) e incapacidade de dar o braço a torcer (não se mostra disposta a mudar para melhorar a relação com a filha).
Como é que se convive com isto? Por um lado, temos vontade de cortar com aquela pessoa. Por outro, mãe é mãe…
“Temos tantos problemas com a mãe porque não conseguimos colocar limites”, explica a mediadora familiar Margarida Vieitez, autora do livro ‘SOS Manipuladores’ (Esfera dos Livros). “E não conseguimos porque temos muito medo e muitos medos: a mãe é a relação mais básica, o nosso modelo, precisamos que ela esteja presente na nossa vida. Temos medo da rejeição, do abandono, do conflito, da culpa.”
Enquanto somos crianças e adolescentes, não há muito a fazer em relação a isto. “Perante uma mãe culpabilizante, castradora, crítica ou pouco afetuosa, a criança tende a pensar que não é merecedora da admiração e amor, a sentir-se culpada, rejeitada e abandonada”, explica Margarida Vieitez. “É muito difícil uma criança ou adolescente reagir, uma vez que o que está em causa é a aprovação maternal. Muitas vezes, apenas no final da adolescência a filha se apercebe dessa ‘toxicidade’, e mesmo assim tende a negá-la! Ou então, pode começar a perceber que esses padrões ‘tóxicos’ nada têm a ver com ela e a diferenciar-se, o que pode ocasionar conflitos de vária ordem.”
Depois, há a tristeza pela filha ideal que sentem que não são: “A maioria das mães sabe que o importante não é ter a filha ideal mas uma filha feliz, mas ainda existem as que cobram e exigem o que elas próprias não conseguiram dar, criando sentimentos de culpa muito fortes nas filhas. Um dia, teremos adultas insatisfeitas e com baixa autoestima, que podem tornar-se tão ou mais tóxicas que as mães.”
Na idade adulta, ao medo junta-se o dever e a culpa. “Culpamo-nos e deixamos que nos culpem com imensa facilidade”, nota Margarida Vieitez. “Sentimo-nos culpadas quando dizemos ‘não quero’, quando dizemos ‘não é isso que eu penso’, ‘não concordo’. Dizer ‘não’ é sempre difícil, e a culpa em relação à mãe é enorme. Começamos a odiá-la, e sentimos culpa por esse sentimento. Depois há o dever: todos nós somos educados na noção do ‘dever’ para com os pais, e quando queremos colocar limites e dizer ‘isto não é bom para mim’, encostam-nos à parede e calam-nos, mesmo em relação a situações absurdamente injustas e inimagináveis.”

 

Nunca é tarde para mudar

Portanto, devemos dizer ‘não’ e ir contra culpas e deveres quando o nosso bem-estar está em risco. Mas será que vale a pena, perguntam muitas filhas com mães já idosas, cristalizadas numa vida de manipulações. “Nunca é tarde para ter uma nova atitude, para pôr os pontos nos ‘is’ e para nos fazermos respeitar”, explica Margarida. “E elas aprendem a respeitar-nos.” O que se deve fazer: potenciar a comunicação assertiva. “Ou seja: não a culpabilizar de volta, porque isso já ela faz há muitos anos contra nós, mas dizer-lhe exatamente como nos faz sentir. Se não tiver esta conversa, as atitudes dela vão continuar como sempre foram.”
Estabeleça regras e limites: não vou permitir mais aquilo que fazes comigo. “Aconselho a que se vá tentando estabelecer mudanças. Muitas vezes, estas mães são pessoas muito manipuladoras e narcisistas, que sempre se habituaram a controlar os outros, e é difícil fazê-las mudar. Mas elas mudam.”
E quando não mudam? “Muitas filhas tentam conversar, colocar limites, mudar o ‘registo’, mas às vezes os comportamentos já estão tão cristalizados que é difícil mudar, com a agravante que a própria mãe nem se apercebe.” Pedir ajuda especializada pode ser a solução e deve ser feito. Pode-se tentar uma mediação com um psicólogo. “Geralmente, começa por vir uma das pessoas sozinha à consulta, e nós através dessa pessoa muitas vezes conseguimos chegar à outra.” E assim tentar quebrar o círculo da manipulação materna…

 

3 MEDIDAS DE EMERGÊNCIA
Sugeridas pela terapeuta familiar Karyl McBride, no livro ‘Will I ever be good enough’.

1 Relação ‘light’
Muitas filhas tentam a terapia, mas muitas mães difíceis são narcisistas: não são capazes de comunicar intimamente com os outros e também não conseguem conectar-se com a sua vida interior, e portanto muitas vezes não colaboram com a terapia. Remédio: admitir que nunca serão próximas e ter uma relação mais leve, mais distante, sem tentar uma intimidade que ela nunca dará.

2 Separação temporária
Tire uma ‘folga’ da sua mãe para se recompor. Diga-lhe que está a tratar de assuntos urgentes e que lhe telefona se houver uma emergência.

3 Separação total
Se tentou tudo e mesmo assim aquela relação compromete inequivocamente o seu bem-estar, esta pode ser a única opção. Mas é raro haver quem a tome, até porque é uma opção socialmente muito malvista e condenada.

 

Artigo completo aqui

 

Li este artigo quando estive de férias. A primeira leitura foi de me gelar o sangue nas veias.

Depois abri o Google e pesquisei: mães tóxicas. E li sobre o tema. E o sangue foi aquecendo. Não estou sozinha. Nunca estive. Afinal há mais como eu, há mais mães como a minha. Infelizmente. Mas serve o consolo de não ser a única ou uma das aves raras que teve esta sorte na vida.

O primeiro embate é ver toda a nossa vida, ou aquela parte da relação mãe/filha, descrita ipsis verbis. Depois analisar causas e soluções. Fiquei gelada, e isto foi quando eu estava no calor alentejano, a gozar um merecido descanso, e a sentir-me em harmonia e equilíbrio comigo e com a vida. Deixou-me a pensar. Fez-me viajar no tempo e recordar, com verdadeiros arrepios de medo, episódios, tantos, da minha infância/adolescência/juventude/e já vida adulta. 

Vejo o meu próprio percurso face a este trajeto de vida, que não escolhi. A criança assustada que fui, sempre com medo, sempre a tremer, saco de pancada constante, mesmo que nada fizesse; a adolescente sem auto-estima, totalmente fechada e isolada; a jovem tímida, acanhada, rejeitada, triste; por fim a adulta insegura, amedrontada, com uma visão muito distorcida de si mesma, num misto de culpa e monstruosidade, porque eu era o diabo em forma de gente... neste percurso de crescimento foi presença assídua e constante a manipulação e vitimização, nas quais a minha mãe é mestre. 

Das tentativas de suicídio às abordagens, ainda que breves (felizmente), pelo mundo das drogas, tentei vários escapes, até isolar-me completamente: do mundo e de todos. Achei que não ia sobreviver, fui emergindo e submergindo no mar revolto que eram os meus dias. E à medida que crescia, ganhava opinião e voz própria, as coisas iam piorando. Chegada a adulta, com licenciatura concluída, primeiros empregos e namorado, foi o caos: aos sinais evidentes da minha independência, a minha mãe transformou-se em algo ainda pior, e eu julgava que já conhecia o pior dela. Comi o pão que o diabo amassou, passei o inferno. Quanto mais ela me queria dominar, prender, segurar, ter só para ela, mais eu lhe escapava por entre os dedos. Estragou a fechadura do meu quarto e da casa de banho que eu usava para que eu não tivesse onde me fechar. E, vezes sem conta, invadiu a casa de banho enquanto eu estava na banheira, para os seus discursos inflamados de acusações e cobranças. Acusava-me de tudo. Chamou-me puta, várias vezes, assim, na minha cara. E outros nomes e insultos. Vaticinou a minha eterna infelicidade e fracasso, que eu não valia nada, que sempre me iam tratar como lixo no chão, que era o que eu merecia. Acusava-me de lhe fazer bruxarias, de destruir a vida dela, de ter sido a culpada do divórcio. E aos 25 anos reagi a uma agressão física: dei-lhe um estalo. Que ainda hoje me queima na mão, na alma. A situação começou a ficar descontrolada. As acusações, as ameaças, mal eu punha o pé em casa, depois de um dia de trabalho, muitos ainda com explicações depois de sair, levava com a avalanche de insultos e acusações em cima. Houve dias que quis voltar ao carro e sair de casa, só para não a ouvir, para não ter as unhas dela cravadas nos meus braços, a impedir-me de lhe virar costas. E ela plantava-se atrás do carro. E eu tive vontade de lhe passar por cima. Percebi que eu própria estava a ultrapassar os meus limites, a ficar descontrolada. Houve noites que saí com o carro e vagueei pela noite, num choro compulsivo, numa agonia, completamente perdida, sem saber o que fazer, que assim não podia continuar. Se o Ghande não estivesse na minha vida, eu não teria tido dúvidas: ia até ao fim. Já não era uma tentativa como aos 16 e aos 18 anos. Era para ser o fim, mesmo. Só isso me libertaria daquelas garras, daquela loucura. E sim, até o Ghande foi alvo de ataques: todos os esforços reunidos por parte dela para nos separar. Em criança e adolescente, eu não podia ter amigas, porque a minha única amiga era ela. Em jovem/adulta, nada de namorados, porque não a podia deixar sozinha, tinha de olhar por ela, cuidar dela, viver para ela. Só ela podia existir na minha vida. E aqui podia partilhar episódios em que deliberadamente me afastou da restante família, pai incluído, ou o que ela contava nas ruas da aldeia, sempre ela a vítima, a desgraçada, a mártir, eu o monstro infame. 

Reuni condições e saí de casa aos 27 anos. Esteve sem me falar meses. Eu era a filha ingrata que a abandonava. 

Ao fim de uns meses uma espécie de reconciliação. Tentei a relação light descrita no artigo. Sem sucesso. Recorri à separação temporária. Menos sucesso que a anterior. A 13 de Outubro deste ano faz 2 anos que a vi pela última vez. A 1 de Novembro a última vez que falei por telefone, telefonema meu, no qual fui maltratada, insultada, e com o telefone desligado na cara.

Eu continuo à espera, ad aeternum, de um pedido de desculpa. Desta vez não sou eu que dou o braço a torcer, que ponho para trás das costas porque "ah, é mãe". Para mim chega. E só assim estou bem, em paz, com algum equilíbrio e num constante trabalho de conquistar autoconfiança, auto-estima, amor próprio, de me valorizar, de acreditar em mim, de me sentir capaz, de me sentir bem comigo própria e com os outros, porque, afinal, o monstro não era/sou eu.

Tenho ainda muito trabalho pela frente. Muito caminho a percorrer. Muitos medos e inseguranças a dominar. Há dias mais complicados. Há alturas em que esta situação com a minha mãe dói. É um vazio que nada nem ninguém preenche. Mas depois eu penso: caramba, passei pelo inferno e sobrevivi. É isso. Eu sobrevivi a uma mãe tóxica. E agora, sem medos ou culpas de falar nisto, vejo que há mais pessoas como eu, histórias como a minha, piores até. Eu consegui. Estou viva, estou bem, estou feliz. E o monstro não era/sou eu.

 

14
Jan15

É só mais um murro no estômago, ou não. Decido eu!

Apesar de tudo dei-me ao trabalho de arranjar um mini cabaz para oferecer ao meu pai pelo Natal: uma garrafa de licor de café que ainda lá tinha em casa, uma garrafa de vinho tinto, um queijo amanteigado, e fiz arroz doce que ele adora. 

Enviei sms no dia 24 a dizer para passar em minha casa que tinha umas coisas para ele. Até hoje nem apareceu, tão pouco deu sinais de vida.

O arroz doce o Gandhe comeu-o, antes que fosse parar ao caixote do lixo. O queijo terá menos sorte, que não apreciamos queijos. O vinho e o licor guardam-se. A atitude, tento relevar, não dar importância, nem isso merece.

E depois é a mim que cobram e condenam?! Para o raio que os parta. 

 

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