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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

26
Jul21

Notas soltas

Ontem fez um ano que recebi um telefonema do meu pai. Pedia que o levasse ao hospital que não aguentava mais. Há um ano que o vi sair de casa pelo seu pé, ainda que muito enfraquecido, e não voltou a entrar. Sinto que esta semana vou estar em loop a reviver pelas memórias tão frescas todo o processo desde que ele entrou nas urgências, foi ao bloco operatório, houve um vislumbre de esperança que ia ficar bem, para haver uma recaída sem retorno. Segunda ida ao bloco operatório, de onde saiu em coma induzido, para não mais acordar. Foram dias numa contagem decrescente angustiante, em que ouvia o que a equipa médica ia dizendo de todo o quadro clínico, até vir a sentença final. As memórias são tão frescas como se tivesse sido há um mês e foi há exatamente um ano. E um ano parece tão pouco tempo e, simultaneamente, uma enormidade de tempo. Misturam-se cá dentro estas diferentes perceções do tempo, que é ele igual e si próprio, impávido e sereno, implacável na sua passagem. É só tão parvo este reviver de algo tão doloroso, que já passou, já foi, nada pode mudar, é aceitar e seguir em frente, honrando a memória e a vida, que foi como foi, como tinha de ser. E ao mesmo tempo parece inevitável este reviver, lembrando o dia do mês, o dia da semana, e até as horas em que falei com ele, ou com a equipa médica, dias após dia, o que me iam dizendo e como tudo se foi desenrolando num fatalismo inelutável. 

 

Estou em contagem decrescente para as férias. Daqui a uma semana espero estar no meu pequeno paraíso, refúgio junto ao mar, a respirar e curar a alma, a parar o tempo e ficar suspensa nessa paz e tranquilidade que aquele sítio me traz. Só quero atirar os biquínis (e fatos de banho) para dentro da mala, juntar uns vestidos soltos e as havaianas e seguir, leve e solta.

 

Por falar em biquínis... finalmente ganhei coragem (não, foi mesmo aproveitar a pelintrice de um desconto de 40%) e comprei um biquíni Ros Lisbon. Foi devolvido esta manhã. É muito bonito na modelo magra, com 1,70 de altura. Num metro e meio de gaja roliça, com curvas generosas e anca boa para kizomba, o dito cujo fica só estranho. Paciência. Tirei as teimas. 

 

Tenho andado às voltas a pensar na minha vida profissional. Cada vez mais insatisfeita com o trabalho, ando com umas ganas de bater com a porta e virar as costas. Só que não é tão simples assim, e sem ter plano B ou C, fica só muito irracional e irresponsável simplesmente virar costas e depois?  Depois "mais nada, nem sol nem madrugada" (lembrei-me da música, deixai lá estes pobres e queimados neurónios). A pandemia veio revelar o pior das pessoas e ando, acima de tudo, farta de muitos dos exemplares da espécie humana com quem me cruzo no dia a dia. Era pegar nelas e mandá-las para a ilha do Santo Caralhinho. Só com bilhete de ida. Nada a agradecer.

 

Vi a série Sex Life. Curiosamente, não foi por ter lido sobre ela nas internetes, foi mesmo a minha terapeuta que me falou da série e me recomendou ver, sob o ponto de vista da abordagem sistémica. Gostei muito da série. É uma série em camadas. Pode-se ficar na superfície e desfrutar de boas cenas de sexo, bem mais escaldantes e inspiradoras que as 50 sombras de Grey (é que nem tem comparação), devidamente contextualizadas numa história de quase triângulo amoroso, pode-se encarar como a crise de identidade de uma mulher na casa dos 40 (ou lá perto), que acabou de ser mãe pela segunda vez, que vive num casamento absolutamente perfeito e seguro, aquele que todas desejam e sonham, só que há algo que falta... e aqui, comum à grande maioria dos mortais, vemos a rotina e a relação a ser vivida como um dado adquirido a levantar dúvidas e questões (levante o dedo quem, a dado momento, também não as teve... poderá a vida ser só isto? Sendo que o "só isto" não é necessariamente mau, contudo, quer-se mais). Ou pode-se ir descascando as camadas e ir mais profundo na interpretação da história das personagens. O peso do passado, os traumas que vêm das relações familiares, condicionam comportamentos e levam a repetição de padrões, o respeito pela privacidade do outro, a aceitação da vida, que foi como tinha de ser e só assim se chegou onde chegou (em vez de ter ciúmes dos ex's, aprender a aceitá-los, pois foi por eles terem existido na vida que foi possível vir o seguinte e formar-se aquela família), e outras questões que, agora, tenho ferramentas que me fazem estar mais atenta e ir mais fundo na visão de certos temas e assuntos. Portanto, não é uma série apenas sobre os dramas de uma dona de casa entediada e com saudades do sexo intenso e escaldante que teve na juventude, é muito mais que isso. 

 

Na quinta levei a 2ª dose da vacina Covid. Se na 1ª fui toda cagunfas e fiquei apenas com dores no braço onde fui picada, na 2ª fui toda confiançuda e levei com uma pedreira inteira de sono, ainda gostaria de perceber como não fiquei com QWERTY marcado na testa (sim, porque aqui a pessoa é responsável e tal e veio trabalhar mesmo estando toda fodida... é que reconhecem muito esses sacrifícios, uiiiiii), seguido de umas dores de cabeça e dores de corpo que imagino serem semelhantes às de alguém que foi atropelado por uma manada de javalis em fúria. Depois de dois benurons no bucho e algum repouso, no sábado acordei bem, sem sinais de sintomas. 

 

Calha que na sexta foi o aniversário do namoro. 17 anos depois, 10 kgs a mais e eis-nos a jantar numa agradável esplanada com vista para a Ria de Aveiro, noite que terminou cedo, cortesia da pandemia, na farmácia de serviço mais próxima a comprar Benuron, para mim que ainda tinha um resquício de sintomas da vacina, para ele que anda com uma contratura no pescoço e uma inflamação no tendão que lhe provoca dores e mal estar. A ternura dos 40. Ou como estamos a envelhecer juntos. Com muitos trancos e barrancos pelo meio, e ainda, por ora, juntos. Os 17 já somaram. A ver se chegamos à maioridade para ir beber um copo 

 

 

20
Jul21

O Yoga e eu

Cronica_Yoga.JPG

Artigo completo aqui, revista Saber Viver

 

Houve um tempo em que eu olhava para o yoga e achava que não era para mim. E não era. Naquele tempo. Demasiado parado e eu precisava de gastar energia em coisas mais mexidas, não tinha paciência, não tinha flexibilidade, e outras inúmeras coisas que me passavam pela cabeça. Havia aulas de yoga na escola de dança que frequento, e não me faltaram oportunidades e convites para experimentar. Adiei sempre.

No confinamento dei uma oportunidade ao yoga. E havia algo diferente. Em mim. Comecei a apreciar muito mais os movimentos fluídos que respeitam o corpo em vez de o estar a esforçar para além dos limites em aulas de cardiofitness, nos moldes de 40 segundos em modo intensivo a fazer um exercício e 10 segundos de repouso. Repetia. Várias Séries. Múltiplas dores musculares. Um andar novo. Ou não andava de todo. 

No yoga aprendi a respirar. A centrar-me. A estar presente e focada. A parar. A aceitar os limites. A perceber que os limites são diferentes todos os dias e está tudo bem. A viver o momento, o aqui e agora, ir até onde eu posso naquele momento e está tudo bem. Respeitar os limites. Ir conquistando aos poucos, estendendo esses limites, com todo o respeito pelo corpo. Sem forçar. Sem rasgar músculos e ficar com dores durante dias.

O yoga tornou-se muito mais que uma forma de exercitar o corpo. Tornou-se muito mais do que exercitar o corpo. E por isso não me faziam sentido as publicações que via no Instagram de posições dignas de contorcionistas chinesas nos Jogos Olímpicos. E ontem encontrei o artigo acima mencionado e identifiquei-me com cada vírgula. O yoga é uma prática de autocuidado, é um hábito de amor-próprio. É isto. É tão isto. E sorri para mim ao ler o artigo, por saber que estou no meu caminho, não há certos ou errados, há o caminho que cada um escolhe para si. E o meu é este, o yoga como um dos meus momentos de autocuidado, pessoal e privado, uma das ferramentas usadas no meu desenvolvimento pessoal, na procura do meu equilíbrio interior. O bem estar que sinto por dentro é visível por fora. 

 

30
Jun21

O peso de uma herança

Tenho andado com tanta vontade de escrever. Por mim, para mim, para pôr para fora este turbilhão de emoções que por aqui anda.

E não é que a vontade passe. É o tempo que se escapa entre os ponteiros, numa correria, é o cansaço físico e, acima de tudo, emocional que me retrai e afasta deste espaço de encontro comigo.

Páro. Respiro fundo. Encontro um momento para me dar uma folga. Como que para ganhar fôlego para nova investida. Tem de ser. E é por este "tem de ser" que me movo e me deixo, em determinados momentos, levar pela ansiedade e angústia. Sinto-me a carregar um pesado mundo às costas.

Com a morte do meu pai, sendo eu filha única de pais divorciados, vejo-me neste papel de única herdeira. Com tudo o que acarreta de bom e menos. bom. Acho que de positivo é a questão de não ter de andar "à batatada" com ninguém, com stresses e discussões que nunca levam a lado nenhum, a não ser a um desgaste emocional e da própria relação familiar, que pode já não ser muito equilibrada ou harmoniosa. O resto é estar sozinha com o peso de uma herança em cima e tudo o que isso implica, desde impostos, encargos, responsabilidades e tomada de decisões que não, não são nada fáceis.

Os meses vão passando, algumas decisões foram sendo tomadas, as conversações com o meu tio (irmão do meu pai) para concluir o processo de partilhas do lado do meu avô até corriam bem, havia espaço para diálogo e entendimento, só que houve um reverso provocado por outra pessoa, próxima do meu tio. Nos entretantos, o meu pai já tinha herdado a casa dos pais (meus avós), que agora passou diretamente para mim. E eis-me na ingrata tarefa de esvaziar a casa, ter de dar novo destino a mais de 60 anos de histórias de vida desta família. E ontem, ao encaixotar fotografias, cartas e postais, diplomas e outros itens de natureza pessoal, que são marcos na história de vida destas pessoas, senti que estava a fazer um segundo funeral, a enterrar o que resta da passagem delas por este mundo que conhecemos. E doeu. Abriu aquela ferida da perda, de quem tem vivido um luto a par do trabalho terapêutico de aceitação, reconciliação e perdão com a história de vida desta família.

Sinto-me esgotada. Emocionalmente esgotada. E a sentir este dever de ter de me manter firme porque há decisões a tomar, há assuntos a tratar, uma série de coisas a resolver. E ninguém me disse que esvaziar uma casa era tão difícil. Que tudo o que as pessoas acumulam ao longo de anos e gerações numa casa é absolutamente assustador na hora em que é necessário dar novo destino, porque a vida segue e para a frente é o caminho.

E não é a questão do desapego que me trava. Não sou materialista, não me apego a objetos e coisas como se fossem o elo de ligação com as pessoas. Para mim guardarei as fotos, cartas e postais, diplomas e a condecoração que em tempos o meu avô recebeu do Presidente da República. Não me interessam serviços de louça que ainda têm o preço agarrado. Nunca foram usados, portanto não posso olhar para os pratos e lembrar-me de um jantar de natal qualquer passado naquela casa. Não moro numa mansão (nem tenciono sequer mudar de casa por agora) para guardar mobílias e outras coisas, não sou (mais agora que tenho esta tarefa hercúlea) de ter mais do que aquilo que preciso e uso e, ainda assim, acho que já tenho os meus armários cheios, para ainda estar a levar para minha casa louça ou o que calha só porque sim.

Em abril comecei a contactar antiquários, casas de oportunidades e 2ª mão, interessados por velharias. Fotografei o espólio e divulguei fotografias. E até para dar a instituições de solidariedade, são mais os problemas e dificuldades que levantam, que as soluções que apresentam.

O desânimo tem sido uma constante. E esta terrível sensação de estar perdida, desorientada e sem saber para que lado me virar.

Posso fugir? Posso ir para uma ilha deserta e ficar lá até que tudo isto se resolva num passe de magia? Posso simplesmente virar costas e assobiar para o lado como se não fosse nada comigo?

Por aqui vivem-se dias difíceis. Num turbilhão de emoções. Demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo e que estão a exigir muito de mim e a sugar a minha energia.Vou tendo as minhas bolhas de oxigénio para respirar fundo e ir aguentando. Por ora, terá de ser o suficiente. E a esperança que em breve possa ficar mais aliviada.

 

02
Jun21

10 meses de tanto

Há exatamente 10 meses despedia-me do meu pai. Ainda vivo. Ou melhor, em coma induzido, ligado ao ventilador, com vários órgãos em falência e uma questão de horas até dar o último e derradeiro suspiro. Vi-o num fio ténue de vida, mais ali num limbo entre os dois mundos. 

Finalmente, na presença de uma das médicas que o acompanhou nos seus últimos dias, pude fazer as várias questões dos "ses". Se ele tivesse procurado um médico mais cedo, se tivesse sido detetado mais cedo, se tivesse havido chances de tratamentos... os "ses" que a razão queria ver respondidos para acalmar o coração. Não sei, nunca saberei, se a médica em apreço foi sincera ou deu ali uns pozinhos de piedade, estou mais tentada a acreditar que foi mesmo sincera, sem pruridos ou pozinhos. Nunca teve hipótese. O tumor era agressivo, desenvolveu-se de forma intensa e galopante, numa zona demasiado crítica. Ainda que aos primeiros sinais ele tivesse ido ao médico e tivesse sido detetado, o desfecho seria o mesmo, tendo pelo meio tratamentos extremamente agressivos que trariam imenso sofrimento e significativa perda de qualidade de vida. 

Agarrei-me ao "foi como teve de ser, foi como ele escolheu e decidiu, foi como foi e nada pode mudar". 

Não é porque faleceu que agora vai ser considerado o pai do ano. Não o foi. Estávamos, sim, numa fase de reaproximação e eu toda contente pela oportunidade de deixar um passado de mágoa e afastamento para trás, e poder ter novamente o meu pai na minha vida. Durou pouco. Muito pouco. E doeu muito esta partida brusca, quase sem pré aviso, num dia deixo-o nas urgências do hospital, na semana seguinte vou busca-lo dentro de um caixão. Num dia estava a recuperar o tempo perdido de uma orfandade paterna forçada e no outro estava efetivamente órfã de pai e a ter de assumir e tomar decisões que não contava, de todo, ter entre mãos.

O processo de luto vai além da perda de um ente querido. Há todo um luto de uma vida cheia de mágoas e abandonos. Esse tem sido o mais doloroso. A morte é irreversível. A forma como se viveu a vida (e as relações) é que deixa muitas questões com as quais se tem de lidar.

Aceitar. Perdoar. Libertar. Honrar. Agradecer...

Aceitar que tudo foi como tinha de ser.

Perdoar porque, como pessoas comuns e com as suas próprias dores, deram apenas o que tinham para dar, e foi suficiente.

Libertar o que não me pertence, o que não é meu. 

Honrar os meus antepassados, pois sem eles eu não estaria aqui.

Agradecer. Sou o que sou hoje por tudo o que vivi.

A dor permanece. O vazio que ficou. E se acentuou.

Aprendo a lidar com essas emoções. A viver os dias de forma mais leve. A encontrar os meus rituais de autocuidado, que me ajudam no equilíbrio emocional. Um dia de cada vez. Aqui e agora. E a mudança tem acontecido. Dentro de mim. Para fora de mim. 

10 meses. De tanto. 

29
Mar21

...

E de repente passou outro mês, daqui a nada é abril e não sei para onde o tempo se esvai.

Contraditória esta sensação, já que se vive um novo confinamento e a vida (alegadamente) abranda.

Sabem aquela palavrinha que está muito na moda, burnout? Pois... foi o que tive há algumas semanas atrás. Bati no fundo e a vida tirou-me o chão debaixo dos pés. Aquilo que eu tinha como seguro, os meus alicerces e fundações inabaláveis, abalaram e tremeram, quase ruíram. Quase. 

Aprendi tanta coisa em pouco dias. Aprendi com dor e angústia. Dores de crescimento, chamam-lhe. Crise. A crise é o motor da mudança. Da evolução. Da transformação. Aprendi que eu tenho de ser a primeira a mudar. Se eu mudo, o outro muda. A vida muda. Passei demasiado tempo a querer que o outro mudasse. A exigir aquilo que eu própria não dava nem fazia. Que rica moral?! Conseguir olhar-me com clareza e perceber o quão tóxica tenho sido. Qual a opção? Vitimizar-me no papel da coitadinha ou fazer melhor, ser melhor? Procurar dentro de mim o meu melhor? Descobri que viver em amor é o caminho para ser feliz, e esse amor começa pelo amor próprio. Que não tinha. Não sentia. Não alimentava. Como esperar ser amada por outras pessoas se eu, eu própria, não me amo? 

Esta coisa da terapia, do autoconhecimento, do amor próprio tem sido uma jornada do caraças! Tem mexido com muita coisa. Demasiadas coisas que atirei para debaixo do tapete e esperei que o tempo as levasse, a vida as esquecesse. Ingenuidade. Tenho tomado uma consciência (que não tinha) do que sou, do que faço, por quê. Descobri que sou forte, muito forte. Que houve os momentos em que a vida não me deu outra alternativa que não fosse o ser forte. E caramba, é bom! Eu sou capaz! Eu consigo! E o mais poderoso que pude sentir nos últimos tempos foi este grito do EU POSSO E MEREÇO!! Porque nunca acreditei que eu merecia. Permiti que me fizessem acreditar nisso. Eu não merecia.  

Dói mexer nestas mágoas que guardo como se fossem o meu ADN. Tenho de as enfrentar. E libertar. Porque não me servem mais. São estas emoções negativas que preciso descartar, largar, soltar, deixar ir. E encontrar forma de perdoar quem me fez sofrer tanto. Porque é esse o passaporte para a libertação: o perdão.

Não sei ainda como o conseguirei. Há mágoas muito profundas. E que tenho andado a protelar enfrentar, mexer, dissecar. Olho pelo canto do olho para os exercícios de psicoterapia que tenho para fazer. Fecho os olhos e respiro fundo. Não quero. Não agora. Não hoje. E os dias passam. E nunca é o dia. Agora mesmo escrevo no blog em vez de estar sentada com o caderno à frente. Sou só eu e um caderno, que tem isso de assustador? Sou eu a ir dentro de mim, ao mais fundo de mim resgatar as histórias do passado, soltar as emoções, chorar o que tiver de chorar, e, por fim, soltar e deixar ir. E, foda-se, que dói. 

02
Fev21

Seis meses... tanto e tão pouco.

Há seis meses atrás vi pela última vez o meu pai com vida. 

Dizer que estava vivo é quase um eufemismo. Estava ligado ao ventilador, com falência de vários órgãos e em coma induzido para estar "confortável". 

Recebi um telefonema para ir à UCI despedir-me dele. Em tempos de covid em que o acesso ao hospital esta(va) vedado, foi um gesto de cortesia e humanidade permitir que a família próxima pudesse ver o paciente.

Nem 24 horas depois informam-me do último suspiro. E caí por terra numa nova e assustadora realidade.

Estes seis meses pareceram uma eternidade e simultaneamente passaram a voar. Tanta coisa que me caiu nas mãos e exigiu muito de mim. Tanto que procurei ajuda. E cá estou eu, passito a passito, num percurso de autodesenvolvimento, de amor próprio, de aprender a gerir emoções e a fazer um luto extremamente difícil, a aprender a perdoar e a deixar ir todas as culpas que carreguei a vida toda. 

Nas últimas semanas tive uma espécie de retrocesso. Deixei-me dominar por sentimentos como raiva, revolta e frustração. Uma maior consicência das emoções e algum knowhow de como as trabalhar permitiram-me gerir esta situação de crise de forma mais equilibrada, sem cair no abismo.

Ontem tive sessão de terapia e com muito orgulho da minha evolução e crescimento, da minha maior consciência e maturidade, permiti-me uma palmadinha nas costas pelo bom trabalho. Estou no caminho certo. Mesmo que por vezes tenha de dar alguns passos atrás. 

 

15
Jan21

Ao 15º dia do ano 2021

Dada a situação pandémica que se vive há quase um ano, a passagem de ano, à semelhança do Natal, foi a dois, em casa, com os gatos todos refastelados na manta quentinha do sofá. Nesta passagem de ano pude testar uma das melhores teorias relativas à cor da cueca a usar na passagem de ano. A teoria do SEM CUECA.

Ao dia 15 de janeiro posso dizer: não tentem. Nem em casa, nem fora de casa. 

Então ao dia 15 de janeiro já somei uns quantos episódios insólitos, e dois destacam-se pela gravidade da coisa.

Um carro parado, assim, do nada, congelou ou o raio que o parta. Está há uma semana no mecânico e os prognósticos não abonam a favor da minha conta bancária.

Ontem, numa situação absurda, que por mais que tente perceber como aconteceu, não consigo atingir, deixei o dedo para trás quando fechei a porta do carro (estacionamento de um supermercado, estava a sair do carro de lado, mala numa mão, atenta para não esmurrar o carro encostado, fecho a porta de costas e deixei lá o dedo indicador... como não tinha ângulo para abrir a porta... puxei o dedo ). Foi unha fora, tenho uma micro fratura na ponta do dedo, vai ser tala durante 10 dias, curativos dia sim, dia não e agora toda uma logística que me faz sentir uma inválida para tomar banho ou fazer um xixi. 

De maneiras que no 15º dia do novo ano eu só me lembro desta imagem partilhada pela Desarrumada e não sei se ria ou chore. Dasssssss 

 

11
Jan21

Só mudou mesmo o ano...

Tudo aponta para que estejamos na iminência de novo confinamento geral. Tudo fechado. Tudo em casa.

Agora apontam-se dedos por causa das reuniões natalícias. Curioso. Nos dias que antecederam o natal, sentia o olhar de piedade quando respondia que o natal seria a dois, em casa, com os gatos. Enquanto via a azáfama dos planos para conseguirem ir à família de um lado e depois à do outro, ou outras pessoas a sacrificarem não estarem com familiares de um lado mas a não saberem dizer "não" a outros que insistiam, eu tranquila da minha vida a saber que o natal seria em paz e sem fretes, com a família que tenho todos os dias. Levei com olhares de pena. E tive de lidar com a piedade alheia quando por dentro rejubilava por ter um natal tranquilo, em paz, na minha casa, com a minha família de todos os dias. 

Agora trocam-se acusações como se uns fossem santos e outros pecadores. 

O que me aborrece no dia de hoje é ter-me visto obrigada a deslocar-me à extensão de saúde da minha área de residência, porque na semana passada, todos os dias, todos, liguei 5 a 6 vezes por dia e nunca, NUNCA me atenderam o telefone. Manifestei hoje a minha indignação. Não se admite, em tempos de pandemia, em que nos pedem (exigem) para não fazermos deslocações desnecessárias, as tenhamos que fazer porque não há uma alminha que atenda o raio do telefone para dar informações. 

Não é só a mentalidade das pessoas no geral, e das que quiseram um natal igual aos anos anteriores, que se enfiaram nos centros comerciais (eu também lá passei, apedrejem-me) ou que se juntaram com familiares que possivelmente não viram durante praticamente todo o ano. Há muita coisa a funcionar muito mal neste país, que 10 meses depois do início da pandemia ainda não aprendeu nem reajustou serviços à nova realidade. Andamos feitos tontos, ao sabor das marés, que pelo estado caótico da coisa, só podem ser marés vivas.

Estamos a um passo de novo confinamento geral. Lá terá de ser. Aguentemos. O lado bom? Já sabemos o que nos espera. E alguma coisa aprendemos com o confinamento anterior, como por exemplo, o papel higiénico não vai esgotar. 

 

26
Ago20

O texto que tenho adiado escrever...

Quem segue a Caixa no Instagram sabe o que aconteceu neste último mês. Sabe que há um mês comecei com obras em casa (pinturas de paredes e tetos com alguns arranjos de fissuras pelo meio). Sabe que há um mês o meu pai deu entrada no hospital e depois de uma semana excessivamente intensa a nível emocional, com as notícias dia após dia a conduzirem a um desfecho previsível, esperado mas que nada nos prepara para o derradeiro momento, aquele em que, depois de ter sido chamada ao hospital para me despedir dele, me comunicam que faleceu.

Continuo sem palavras para descrever o momento em que esta realidade se abateu sobre mim. Continuo sem perceber muito bem como me tenho mantido de pé a tratar de uma imensa burocracia que enerva, esgota a paciência, suga toda a energia que resta num momento destes.

As férias deixaram de ser férias para tratar de um funeral e desencadear uma série de processos em diversas entidades, processos que ainda decorrem, e ontem, mais um dia de férias queimado para ultimar burocracias, mas afinal ainda há mais uma declaração que é precisa para entregar nas Finanças e fazer uma adição ao imposto de selo e só depois, só depois é que pode voltar cá e prosseguir... e só para iniciar o processo desembolsa x, e desembolsa y e mais o caralhinho para tanto papel e selos timbrados e o raio que parta esta máquina burocrática que empata e entrava e chateia e nos suga vida e dinheiro. A sério que estamos no séc XXI, em plena era digital? A sério que, alegadamente, devido à pandemia, muitos serviços tiveram de agilizar procedimentos? Ah não. Isso era a expetativa. A realidade é que ainda estão mais bloqueados, difíceis de aceder e resolver de uma vez.

Poupo-vos detalhes, porque tudo isto ainda é uma ferida aberta e dolorosa. Recebo o embate da morte do meu pai e, com todas as vantagens e desvantagens que isso acarreta, sou única herdeira. Em cima de mim caem todas as decisões, responsabilidades, despesas. E isto de herdar propriedades é muito giro na boca do povinho ignorante que acha que agora devo ser uma espécie de condessa lá da terrinha. Eu só vejo dinheiro a sair da conta, tudo se paga, os impostos não esperam, os encargos com as propriedades também não e agora está tudo nos meus ombros.

Respiro fundo. Tudo se resolve. Não escolhi que isto acontecesse na minha vida. Aconteceu. Agora é lidar da melhor forma possível. Se haveria momento ideal para pôr em prática o que, também nesta altura, aprendi naquele desafio de auto coaching, que com tanto entusiasmo me inscrevi, foi este. Na semana do internamento e na semana em que faleceu, valeram-me as meditações diárias do desafio, cada dia com um tema a explorar num pre talking. Valeram-me esses momentos em que, durante cerca de 30 minutos por dia, eu estava comigo e a tratar de mim. Encontrei força onde não julgava haver. Mantive um equilíbrio quando achava que ia simplesmente colapsar.

Houve dias difíceis. Muito difíceis. Sei que os haverá. Ainda este fim de semana fui abaixo e andei a chorar descontroladamente com um sentimento de vazio, de estar sozinha no mundo, porque as pessoas que mais amei e de quem guardo as melhores memórias já se foram. Tal e qual como a casa que acabo de herdar, sinto-me vazia, abandonada. Morreram. Foram-se para sempre e não voltam. Ficam aquelas paredes repletas de anos de memórias e histórias de três gerações de uma família.

Houve um momento que me afastei das redes sociais no geral, de pessoas em particular. A silly season a decorrer, o Instagram repleto de fotos de férias, praias, piscinas, famílias, verão no seu esplendor e leveza que deixa as pessoas felizes. E eu a ter de lidar com a dor que a morte de alguém tão próximo deixa, aquele vazio que nada nem ninguém nunca preencherá, enredada numa teia de burocracia que estava a exigir demasiado de mim, a sugar-me a pouca energia que sentia. Houve dias que não atendi telemóvel nem respondi a mensagens. Agradeci ter pessoas preocupadas e a mostrarem todo o seu carinho e apoio. A seu tempo expliquei-lhes, desculpando-me, que precisava do meu tempo de sossego e solidão para carpir a dor, quando ao mesmo tempo a vida exigia demasiado de mim.

O tempo não cura. Acalma. Cicatriza.

Regressei ao trabalho e isso permitiu-me sentir de volta a vida como a conhecia, na sua normalidade que nos faz sentir numa zona de conforto. Voltei a sentir apetite e vontade de comer, voltei a ler, voltei a estar com as outras pessoas. Voltei à minha vida. Diferente. Eu e a vida.

Estou a voltar. Porque a vida continua e eu tenho de continuar. Por mim. Pela memória dos que partiram. Pelos que estão ao meu lado e foram excecionais neste momento tão difícil e doloroso da minha vida.

Estou a voltar. Aos poucos...

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14
Jul20

"Se eu consigo, vocês também conseguem"...

Só que não!

Não nos comparemos, e digo isto a mim própria, por que é tão fácil cair neste engodo das comparações, como se vidas, corpos, pessoas, sentimentos se pudessem comparar.

Na ordem do dia está a capa da Helena Coelho e a sua transformação. Quer ser inspiradora e é, e em simultâneo levanta aqui uma série de outras questões. E é normal que assim seja, são as duas faces da mesma moeda.

Debate-se se o objetivo de emagrecer para ser capa de revista é válido. Por mim é, como qualquer objetivo individual que apenas diz respeito a quem o decide e se esforça para o atingir. Esta é uma discussão um tanto ou quanto oca, tal como foi há uns anos uma blogger ter dito que o sonho dela era ter uma mala da Chanel. Cada um sonha com o que bem entende, cada um estabelece os seus objetivos pessoais e a isso chama-se aquela coisa fantástica que é a liberdade de escolha.

O busílis da questão reside no facto de ser uma figura dita pública, influencer neste novo mundo onde o digital ganhou tanta importância e visibilidade. E por isto eu compreendo argumentos que li a alertar para o risco de uma pessoa com cerca de meio milhão de seguidoras (considerando que o público alvo é maioritariamente feminino e entre os 20/30 anos) promover ideias de magreza como sinónimo de ser saudável, de ser magra para caber numas calças da secção infantil, como se fosse o grito do Ipiranga da moda, de passar a imagem que a sensualidade (o ser sexy) e felicidade da mulher passa por dedicar a vida ao culto do corpo, no matter what. Fica ali no limbo os possíveis comportamentos obsessivos e pouco saudáveis para atingir fins que são "questionáveis" e o perpetuar de um conjunto de ideias pré concebidas, como: o ser magra é ser linda e sexy, é ter saúde, é ser o exemplo de um estilo de vida e alimentação saudáveis. O resto não cabe aqui, logo é nocivo. A postura de proximidade que procuram ter com o público, porque se ela conseguiu qualquer pessoa consegue. Qualquer pessoa? Seja qual for a vida de cada um, horários, responsabilidades, disponibilidade e condições várias?

Não comparemos. A Joana Roque faz o seu meal prep, que tanta gente ambiciona, às segundas. Ora, uma grande maioria de nós às segundas está a enfrentar trânsito, transportes públicos, picar ponto, trabalhar horas a fio fora de casa. Quando chega o fim de semana há limpezas / arrumações, tratar de roupa, supermercado, e ainda tentar encontrar tempo para lazer e descanso.

A Helena Coelho trabalha no digital onde tudo se mostra e se exibe, e onde, obviamente, se procura mostrar e exibir o melhor, a sua melhor versão. Trabalhar o corpo para ser capa de revista e fazer a campanha dos biquínis faz parte do seu trabalho. Enquanto milhares de mulheres estão sentadas atrás de um computador, ou horas em pé atrás de um balcão de atendimento, ou seja qual for o seu trabalho que as limita a um espaço diminuto e a tarefas que não incluem exercício físico, Helena Coelho pode literalmente trabalhar o corpinho.

Não se fazem omeletes sem ovos. E não se pode proclamar aos quatro ventos que se a Helena Coelho, com a vida que tem e as condições que reúne consegue, outra mulher, daquelas que acorda às 6h30 enfrenta um dia com filhos, trabalho, tarefas domésticas, transportes, trânsito, muito tempo e energia despendidos para outras pessoas e outras tarefas que não passam por tratar de si próprias, também consegue. E já nem estou a entrar naquele campo minado de que cada corpo tem o seu próprio ritmo e características e, se umas para emagrecer basta deixarem de beber refrigerantes e comer pizzas para passar a comer mais saladas e beber mais água e chás e quiçá fazer umas caminhadas, para outras não é bem assim. E deste lado fala uma mulher que está em luta consigo própria e a tentar lidar com a frustração de ter alimentação saudável, exercício físico moderado e o corpo responder de forma oposta: engordo sem perceber porquê. Já fiz despiste em várias especialidades médicas, exames vários, e esbanjo saúde (e não sou magra com o estômago encostado às costas). Muito grata por isso. Agora o que vejo ao espelho não gosto e está a custar muito encaixar, work in progress. E independentemente dos filtros que até considero ter, é fodido levar com as Helenas Coelho deste mundo, que dão aquele ar que  tudo é tão fácil e simples como somar 2 + 2, como se aquilo que exibem fosse o pináculo da existência humana, o atingir o nirvana. E quem não consegue é uma preguiçosa que não mexe o rabo do sofá e não come o que devia.

Por analogia, nem todas temos as segundas feiras livres para nos dedicarmos ao meal prep da semana toda. E nem todos os corpos reagem da mesma maneira à alimentação ou ao exercício (sim gente, não é uma equação matemática com um resultado certo). É que esta aqui que vos escreve, durante a quarentena fez sessões diárias de 30 minutos de indoor cycling, e também fazia aulas de fitness pelo Youtube, e caminhadas e comia legumes e carnes brancas ou peixe, fruta como snacks em vez de bolachas e pão. And guess what? Engordei e ostento uns pneus que fazem uns rolinhos quando me sento. O drama que foi escolher entre fato de banho e biquíni quando, há dois fins de semana atrás, decidi começar a ir à praia. E por falar nisso, expliquem-me como raio é que o fato de banho (alegadamente) disfarça mais a barriga? Eu só me sinto uma grávida de 6 meses (sem o estar). Escolhi o biquíni e assumo os rolinhos. Eu disse, work in progress.

Parte do meu processo de aceitação está a passar pelo Yoga. Trabalhar de dentro para fora. E tem sido diário. às 6h30 acordo e os primeiros 30 minutos do meu dia são dedicados ao Yoga. Os rolinhos estão cá, bem como a celulite. Eu estou é a aprender a aceitar o que vejo ao espelho, agradecendo a bênção de ser saudável e tendo como objetivo, não o six pack, mas ultrapassar a ansiedade e stress que fazem estragos no meu organismo (e não só). Estou a aprender a viver com mais calma, aprender a respirar e a parar, olhar para dentro de mim e procurar equilíbrio e serenidade. E isso faz-me mais feliz que as costelas à mostra.

Só gostava era de sentir menos pressão por não caber nos estereótipos, gostava de não ter vergonha por vestir um biquíni e ficar de rolinhos à mostra, ou gostava de não ter de responder vezes sem conta que não, não estou grávida.

 

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