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Estórias na Caixa de Pandora

Entre a sombra e a luz, as estórias que me habitam

Estórias na Caixa de Pandora

Entre a sombra e a luz, as estórias que me habitam

09
Dez25

Memórias dos sentidos: quando o corpo lembra

Na semana passada, na banca de frutas e legumes que fica no largo da vila, comprei umas tangerinas. Não seria nada de extraordinário, não fosse esta fruta da época despertar os meus sentidos e levar-me, num instante, até à infância. Até ao quintal da minha avó. 

Mal olhei para a caixa com aquelas tangerinas, a memória da visão puxou-me para trás no tempo. Eram exatamente iguais às que eu colhia da tangerineira do quintal: a mesma cor viva, quase luminosa; o mesmo tamanho redondo e regular; as mesmas folhas verdes ainda presas ao caule, como se tivessem acabado de ser colhidas por cuidadosas e rugosas mãos.

Peguei numa e aproximei-a do nariz. O aroma era o mesmo - fresco, cítrico, doce, quase a prometer sol no frio do inverno. Fechei brevemente os olhos e vi-me, menina, debaixo dos ramos da árvore, em bicos de pés e braços esticados para colher a mais madura, a mais doce. A descascá-la, ali mesmo, deixando o perfume espalhar-se pelo ar e pelas minhas mãos. A saborear, gomo a gomo, aquela doçura simples que me parecia dos melhores sabores do mundo.

Peguei num saco e coloquei várias dentro. Escolhi as que ainda tinham folhas, como se fossem pequenos fragmentos daquela memória.

Ao chegar a casa, não resisti. Descasquei uma. Devagar. Sem apressar a memória. Gomo a gomo, de olhos fechados, deixei que o sabor me levasse de volta ao quintal da minha avó. Era exatamente igual - a mesma doçura, a mesma frescura, a mesma sensação da infância.

É curioso como o corpo guarda memórias. E como certas coisas - um cheiro, um sabor, uma textura - não evocam apenas essas memórias, mas fazem-nos regressar a elas por instantes, como se cruzássemos um qualquer portal do tempo. Como se o corpo guardasse arquivos secretos que se abrem quando menos esperamos.

E ali com uma tangerina na mão, percebi que algumas memórias não se perdem. Dormem. Esperam. E despertam ao primeiro sentido. 

As tangerinas eram apenas tangerinas. E naquele dia foram também infância, casa, e tudo aquilo que a memória guarda em silêncio - sabores que alimentaram o corpo no passado e gravaram-se na alma até ao fim dos dias.

✨ Entre sombras e luz, floresço.
11
Nov25

O tempo lá fora, o humor cá dentro

O dia acordou indeciso. Eu também.

Está sol, céu livre de nuvens carregadas. Porém vento frio.

Pouco depois chove. Vejo um arco-íris no percurso para o trabalho.

Sol, vento, de repente nuvens, chove, abre sol novamente. 

De facto, os dias têm andado esquizofrénicos. Na semana passada apanhei chuva, no fim de semana mergulhei os pés no mar.

Um dia é inverno tempestuoso. No outro um sereno verão.

O tempo muda de dia para dia. E dias há em que passamos pelas estações todas num par de horas.

E estas oscilações andam sincronizadas com o meu humor. 

Quase como o mistério de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, atrevo-me a indagar sobre o que afeta o quê? É o estado do tempo que afeta o meu humor? Ou será antes que o estado de espírito faz o clima?

Como manter o equilíbrio quando tudo parece tão incerto?

O desafio logo pela manhã é o dilema: o que vou vestir? Nada muito quente - não está assim tanto frio. Nada muito leve - olha o fresquinho e o nariz que já funga.

Visto roupa. Resposta sempre certeira do marido quando lhe pergunto: "o que visto?". Roupa. 

Olho no espelho, uns dias mais confiante na escolha da indumentária. Outros nem tanto. Oscilo, como as nuvens.

Pequeno almoço. Café. Silêncio enquanto sinto o corpo a fazer download da alma.

Antes de sair olho para os gatos. Enroscados no sofá, entre mantas. Sacanas com sorte.

Percurso de carro em silêncio. Download ainda em curso. Permito-me o momento de quietude, exterior e interior, antes de picar ponto e entrar no modo funcional. Abasteço-me no silêncio. Desfruto da paisagem, com a devida atenção ao trânsito. 

E aos cromos da estrada, que se julgam pilotos de F1 em pleno temporal, desejo-lhes boa viagem. (Com vontade de lhes mostrar o dedo do meio).

Durante o dia de trabalho, umas pitadas de humor. Daquele que alivia. 

Rir ainda é a forma mais eficaz de sermos humanos. Perceber que, modo geral, andamos todos meio nublados, meio ensolarados, a tentar encontrar equilíbrio na incerteza do clima. Interno e externo. O riso une, permite dar espaço à loucura dos dias. O riso extravasa. Purga. 

Depois de umas gargalhadas, ficamos mais leves. E voltamos a focar nas tarefas com um pouco mais de ânimo. E quiçá, na esperança de outro momento de leveza, entre piadas e risos, desses que unem. 

Entre nuvens e brechas de sol, aprendo a navegar a maré. E, tão importante é seguir, como parar. Um pouco. Para ganhar fôlego. Para rir. De si. Dos outros. Dos insólitos destes dias esquizofrénicos. 

E no final, talvez seja este o segredo: manter o humor como guarda-chuva, o coração em modo solar e confiar que o céu, com ou sem nuvens, aberto ou carregado, luminoso ou mergulhado em escuridão, será sempre o símbolo da vida - impermanente, bela e em constante transformação.

 

✨ Entre sombras e luz, floresço.
20
Out25

Monday mood

Sinto-me com o cérebro em papa. Consequência óbvia de um domingo em estado vegetativo, pijama all day long, sofá e maratona de uma temporada (quase inteira) de uma série que acompanho.

Um domingo reduzido ao mínimo dos mínimos de atividade, a chuva ajudou a esta clausura voluntária e inércia.

Às vezes também é preciso este desligar a ficha e ficar só a existir. Sinto é que o meu dia de ontem até foi literalmente um desligar a ficha, sem direito a carregamento de energia vital. 

 

✨ Entre sombras e luz, floresço.
15
Set25

Fui lá e não me demorei

Fui à página de Instagram criada em tempos para o blog. Ainda se diz página? É perfil? 

Fui lá tirar o pó. Atualizei a descrição biográfica. Ainda fazia referência a ter quatro gatos. O gang dos quatros, dos quais sobrevive um e entretanto outro foi adotado.  Apolo, conquistou-me com a sua doçura e travessuras.

Atualizei a foto, e escolhi a mesma que tenho aqui no perfil do blog. A foto é de 2023, especificamente da sessão fotográfica do dia em que casei. Amo a foto! Tirada sem eu saber, captou um momento íntimo e de conexão, em que oferecia algumas das tulipas brancas do meu ramo ao mar. 

Olho para aquele perfil de Instagram e é assim tão aleatório nas partilhas que fui fazendo, dos momentos que ali registei. Eu sou estupidamente reservada, e no dia em que publiquei uma foto do meu rosto (está desatualizada, cabelo creceu e mudei a cor) deixei de publicar de todo. 

Não sei, genuinamente, se quero recuperar a página ou deixa-lá assim, no esquecimento. Fui lá, atualizei umas coisas, como quem abre a porta e deixa o ar entrar. E só. 

Não sei se me quero meter nessas andanças de perfil de Instagram associado ao blog. Se mantenho o que já existe ou se, na loucura, crio um novo. Um recomeço. Um falacioso recomeço do zero. Pelo menos em perfil de Instagram.

Porque na vida os recomeços são na verdade novos ciclos, para os quais levamos a sabedoria e experiência do passado, com disponibilidade para viver e aprender o novo.

 

✨ Entre sombras e luz, floresço.
26
Ago25

O regresso

Chega aquela segunda-feira que assinala o regresso ao trabalho (irei ponderar em marcações futuras de férias regressar a uma sexta). Pessoa sai de casa leve, com aquela aura de quem descansou e carregou baterias. A bater palminhas por dentro a pensar que é um mês e repete a dose de férias. 

E eis que chega ao seu posto de trabalho e... a cadeira? 

Sim, imaginem-se a chegar e a depararem-se com a secretária onde se sentam para trabalhar e não há cadeira. E ninguém sabe da cadeira. E ninguém se apercebeu. Ah se calhar foi necessária para uma reunião na sala ao lado. Tudo bem, levam emprestada, devolvem à procedência. Nada. Não havia sinais da cadeira na sala de reuniões, e sem evidências, também não se pode acusar que algum colega se tivesse apropriado da dita.

Situação constrangedora. Desconfortável. Uma situação de merda. 

Fui buscar uma ao espaço de refeições, uma cadeira nada adequada a uma secretária, tão pouco a estar um dia inteiro sentada. Mas era isso ou era ajoelhar-me em frente da secretária. 

Hoje o mistério foi desvendado. A minha cadeira foi dada pela própria senhora diretora do serviço a um colega novo que entrou ao serviço há uma semana, enquanto eu estava de férias.

A mesma senhora diretora que tomou decisões com impacto direto em mim e no meu trabalho, enquanto eu estive de férias, e sem que me fosse dado qualquer conhecimento. Decisões como retirar acessos, os quais foi ela própria que há uns meses decidiu atribuir-me, quando me retirou das funções e cargo para o qual concorri e assinei contrato, para colocar no meu lugar uma das suas amiguinhas. Agora retira-me acessos, retira-me também funções (para as quais, curiosamente, recentemente tive formação para essas mesmas funções) e atribui-as a quem? À amiguinha.

Situação de merda. Passei o dia tensa, stressada, a segurar a raiva que me revolvia as entranhas. A crescente sensação de estar a ser alvo de assédio moral para que seja eu a sair do serviço e entrar em mobilidade interna (convite pouco subtil que me estendeu poucos dias antes de eu vir de férias). 

Mas foda-se, não é precisamente ela que está de saída? Qual é a ideia? Deixar as amiguinhas protegidas, sem ninguém no serviço que possa fazer sombra? Serei assim uma ameaça tão grande a estes grandes egos, de competências frágeis?

Estou sossegada. Hoje recuperei a cadeira, estou de nariz e olhos postos no computador. Phones nos ouvidos. Novamente fechada na minha armadura, com as defesas levantadas. Cumpro as minhas tarefas o melhor que sei e posso. Chega a hora e vou à minha vida.

Se é um ambiente saudável? Não. É o que é. E se me sinto atacada ou com um alvo nas costas, é legítimo que me queira defender e proteger. 

Que belíssimo regresso ao trabalho. Só que não! 

Há uma hipocrisia vestida de empatia que me cerca e me enjoa. 

✨ Entre sombras e luz, floresço.
23
Jul25

Últimas

Tenho andado ausente da escrita aqui. Sublinho o aqui (blog).

Recentemente comecei a utilizar um dos cadernos "bonitinhos" que estava lá enfiado numa gaveta, e tem sido muito bom esse discorrer da caneta pelo papel. Autoterapia pura e dura, sem filtros. Sem medos de julgamento ou de opinião alheia não solicitada. 

Vejamos, quando nos expomos temos de ter noção que não controlamos as reações, os julgamentos ou opiniões dos outros. Nem mesmo a sua indiferença. Ou a interpretação que fazem do que publicamos. É dos outros. Ponto. 

Agora, o meu caderno é apenas meu e para mim. A liberdade de expressão tem outra dimensão. 

Não é sobre o meu caderno o que me traz aqui. Na verdade é só e apenas a minha vontade de escrever aqui qualquer coisa, nem que seja uma espécie de sinopse das últimas semanas. 

Então já comecei pelo ter voltado à escrita terapêutica. Agora chamam-lhe journaling, no meu tempo de adolescente era diário. 

Este mês também me dediquei mais à leitura. Um livro já foi, iniciei outro.

Li A Qualquer Momento de Liane Moriarty e fiquei, uma vez mais, rendida à escrita e construção narrativa da autora. A história é cativante, um desassossego que nos faz virar página atrás de página e sentir as dúvidas e ansiedade que as personagens sentem. Histórias e personagens tão comuns que facilmente reconhecemos características e situações nas nossas vidas ou nas vidas de pessoas que nos rodeiam. E creio que é por isso que Liane Moriarty consegue com que os leitores se identifiquem e se aproximem tanto das suas personagens e enredos. Podia ser qualquer um de nós ali descrito nas páginas dos seus livros. Este, em particular, deixou sementes para reflexão. Leitura que recomendo. 

Entretanto, e como ouvi o episódio do Podcast Vale a Pena, da Mariana Alvim, no qual esta escritora foi convidada, comecei o Pequena Coreografia do Adeus, de Aline Bei. Prosa poética e uma sinopse que me leva para os temas que exploro e disseco em terapia. 

Ando meia desligada da TV. Ou a TV é que passa muito tempo desligada. As séries que gosto de acompanhar estão em transição de temporada, pelo que agora na silly season os canais de séries ficam desprovidos de interesse. Contudo, há uma série que me mantém cativa, à espera do dia de exibição dos seus dois episódios. Cobra Kai, no AXN. Sou fã do universo Karate Kid, como já aqui escrevi, portanto, estou completamente viciada na série e a adorar. A série está disponível na Netflix, não subscrevo. Tenho o Prime. Então vou fazendo "à moda antiga", esperar que os episódios passem em canal "aberto". Podia dedicar todo um só post, digno de dissertação sobre a série? Podia. Eventualmente poderei fazê-lo no futuro, quando estiver mais avançada nas temporadas. Por ora, deixo só a nota que, para quem é fã do Karate Kid original, a série está genial, absolutamente espetacular. Recomendo este artigo, que descreve muito bem a essência da série. 

De resto, a vida vai acontecendo. Assim, conjugada no gerúndio, no vai-se andando, vai-se indo, vai-se vivendo. E não está errado de todo. A vida vai-se vivendo. Dia a dia, momento a momento. Conjuga-se no gerúndio, tempo da ação contínua. E que bom é poder conjugar a vida no gerúndio: é sinal que a temos em movimento.

✨ Entre sombras e luz, floresço.
03
Jul25

São os passos que fazem o caminho*

Por estes dias podia ter vindo aqui, a esta caixa de texto em branco, despejar palavras. Teria muito a despejar. A questão é que a sessão de mentoria da semana passada deixou-me naquele estado de quem levou terapia de choque e precisou de silêncio e recolhimento para processar.

Ir cada vez mais a fundo nos traumas recalcados há anos é uma viagem solitária, ainda que esteja a ser devidamente orientada. E sim, é denso, é pesado. Enfrento os bloqueios que toda a vida me serviram de defesa, proteção, sobrevivência. 

Não me curvo perante a dor. Sei que o caminho é enfrentar e seguir em frente. E tem o seu preço. E demora o seu tempo. Exige resiliência, consistência e coragem. 

Card-frase-bert-hellinger-texto-cicatrizes-trauma-

* Mário Quintana

✨ Entre sombras e luz, floresço.

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