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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

07
Mai19

...

Há dias em que a vida dá uma bofetada nos teus planos, nas tuas expetativas. Há dias em que percebes que estás simplesmente sozinha, entregue a ti própria. Há dias em que isso é motivo para encher o peito de coragem e orgulho. Há dias em que é um soco no estômago que te põe zonza, com vontade de vomitar uma angústia que se embrulha na garganta. 

Hoje levei esse soco.

É fodido!

 

25
Set18

A solidão que dói

Estava de férias quando, abalroada pela notícia da minha amiga, decidi agir em vez de permanecer no “eu gostava, um dia eu vou…”. Procurei informações, liguei, e soube que afinal eu não precisava deslocar-me a outra cidade para me inscrever como dadora de medula. No mesmo dia tornei-me dadora de sangue e de medula. Fiz testes, preenchi questionários, tive uma consulta médica, fui logo para a doação de sangue, onde me deu um fanico (tensão baixa é assim), e saí de lá com um orgulho (e braço dorido) de dever cumprido.

Mas quase fui barrada logo na primeira fase de seleção. No questionário para dador de medula, mesmo no fim, eram solicitados dois contactos de emergência. Preenchi o primeiro com os dados do Gandhe. Deixei o segundo em branco, achando que era opcional. Só que não, e só aceitavam a minha humilde candidatura com preenchimento de um segundo contacto.

Para a grande maioria das pessoas isto é simples e corriqueiro, até devem sobrar opções de preenchimento. Há pai, mãe, irmãos, tios, primos, and so on... mas eu bloqueei, completamente congelada na minha consciente (e dolorosa) solidão. Não há mãe, não há pai, não há irmãos, os primos estão longe, distantes, em vidas tão afastadas da minha, os tios idem… quem me sobra?

Gandhe sugeriu pôr os dados da mãe dele. Que remédio, ou engolia esse orgulho e dava os dados da sogra como meu segundo contacto de emergência, ou vinha-me embora sem sequer ter tentado voluntariar-me para o banco de dadores.

Vim para casa, meia combalida do que se passou durante a doação de sangue, e totalmente aturdida com um vazio que se abriu dentro do meu peito.

À noite, já mais recuperada, entrei em contacto com uma das minhas amigas mais próximas, que ironicamente, vive noutra cidade, expliquei-lhe o que tinha acontecido e perguntei se podia, caso voltasse a confrontar-me com uma situação destas, dar os dados dela. Prontamente me disse que sim, que era uma honra. E agradeci tanto quanto pude, engolindo esta solidão amarga de não ter ninguém na vida.

Ontem voltei a sentir este amargo. Num momento de grande dor e angústia, quis falar e não tinha com quem. Corri mentalmente a lista dos amigos com quem me sentiria à vontade para procurar colo, e felizmente ainda são alguns. Detive-me, no entanto, por não querer incomodar. Têm a sua vida, alguns com filhos pequenos, pouco passava da hora de jantar, estariam ocupados a jantar com a família, a arrumar a cozinha, a preparar as coisas para o dia seguinte, eventualmente a descansar ou a aproveitar para ver uma série, um filme, para namorar ou ler uma história ao filho.

Fiquei sozinha, enrolada no meu casulo, quebrando o silêncio com as soluçantes lágrimas que caíam desamparadas sobre o peito vazio.

Eu sei, tenho este feitio orgulhoso de me fazer de forte e independente. Estupidamente consciente das carências afetivas e emocionais que fazem parte do meu ADN, da minha herança genética e educacional, criei esta fortaleza em meu redor. Mas caramba, é uma muralha de papel. E que não fosse, até os fortes caem e precisam de uma mão estendida, de um ombro que ampare a cabeça que tomba, de um abraço que conforte, de uma palavra que acalme a angústia.

 

17
Jan18

Gerir expectativas

 

 

O problema não são os outros. Sou eu. E a expetativa que crio em relação a eles. Esta mania de me entregar e dar(-me) tanto que depois quando eu preciso de ajuda, de apoio, de cinco minutos do seu tempo, está tudo concentrado nas suas vidas, extremamente ocupados sem espaço e vontade para a minha pessoa.

É fodido, mas é a vida. Aceito. Tenho de aprender, de uma vez por todas, a não criar expetativas em relação aos outros e muito menos esperar que um dia retribuam, nem que seja uma ínfima parte, o que já lhes dei. Tenho de aprender a ser ainda mais egoísta com o meu tempo e a minha energia, a saber que só posso contar comigo e comigo mesma, e que mesmo eu própria posso não estar à altura das expetativas.

E quando tiver definitivamente aprendido essa lição, não terei de lidar com as desilusões amargas que me assaltam nos meus momentos de fragilidade.

 

07
Dez17

Era tudo o que (não) precisava!

Sentia-me já com algum animo para juntar os meus cacos, sacudir o pó e fazer-me à estrada da vida, quando a vida, que não está para meiguices, achou que era hora de eu levar uma valente bofetada.

Recebi ontem uma SMS, vinda da mãe de quem não havia qualquer relação desde há quatro anos, a informar que a minha avó faleceu.

E se eu era um monte de cacos, em poeira de caquinhos fiquei. 

 

23
Nov17

Escondida, mas não esquecida?!

E afinal há quem note a falta de sorriso.

E o ar abatido.

Há quem me alerte para os indícios de depressão à vista.

Há quem, na distância de kms, me resgate do isolamento dormente em que me tenho mantido.

Sabes lá tu o que o teu "está tudo bem contigo?" me fez estremecer?

Afinal sou vista. Afinal há quem se lembre que eu existo. E que posso estar a precisar de um "olá, está tudo bem contigo?".

 

16
Jun17

Se tivesse de resumir a semana numa palavra...

... seria morte.

Dramático? Forte? Sem dúvida. Mas real.

Na quarta começo o dia com a notícia da morte da avó de uma grande amiga. Um aperto no peito, uma sensação amarga por estar a centenas de kms e não lhe poder dar um abraço.

Horas depois, no mesmo dia, soube da morte do pai de um amigo. Murro no estômago. Ninguém contava, foi tão repentino, tão inesperado, tão chocante. 

Por fim, uma amiga que no fim de semana tinha resgatado dois gatinhos recém nascidos abandonados à sua sorte, uma lutadora que tudo fez para tratar deles e eu, em socorro, recorri a pessoas conhecidas dos meus tempos de associação para ver se arranjava uma gata que estivesse a amamentar e pudesse adoptar aqueles pequenotes. Depois de muitos contactos trocados, palavra passa palavra e eis que uma mamã adotiva aparece. A felicidade e o alívio. Logo toldados por um internamento repentino dos pequenos bebés. Um deles teve alta no próprio dia e seguiu para a mamã adotiva, que o recebeu muito bem. O outro permaneceu internado e não sobreviveu. 

Mais um murro no estômago. No mesmo dia. Assim, notícia atrás de notícia. Morte atrás de morte.

O meu feriado não foi na praia, nem numa esplanada. O meu feriado foi juntar-me a um grupo de pessoas, algumas amigas, outras conhecidas, outras desconhecidas, mas todas com uma missão: ir confortar o amigo que acabara de perder o pai. Uma hora de viagem até à serra, meios perdidos nas curvas e contracurvas, moídos pelo calor, com um sentimento a pesar cá dentro, mas chegámos ao destino, e juntámo-nos todos em redor do nosso amigo, em múltiplos abraços, apertos de mão, palavras de apoio. A presença que conforta num momento de grande dor. 

Vim tarde para casa. Esgotada emocionalmente. Com um vazio cá dentro. Com a cabeça perdida e vaga, alheia.

Hoje foi dia de trabalho mas passei as horas apática, desconcentrada, sem ponta de energia. 

Agora é respirar fundo, aproveitar a fim de semana para ver se reanimo e melhores dias virão. Para todos. 

 

27
Mar17

Autocensura

Escrevi um longo post, literalmente a vomitar os dramas que me invadiram a vida e me derrubaram a paz nas últimas semanas. Escrevi num frenesim de quem quer expurgar as preocupações, as ansiedades e os medos. De quem quer, desesperadamente, voltar a ter controlo sobre a vida, acreditar que tudo vai correr bem e resolver-se. Que entre mortos e feridos, hei-de escapar. Que os planos e projetos que desenhámos no arranque do novo ano não estão, de todo, perdidos. Ainda que os tenhamos de reformular, refazer, redefinir, sim é possível lutar por eles. 

Mas está ali, guardado nos rascunhos, sem coragem de o publicar. Já desabafei inúmeras vezes sobre estórias dos meus dias, das minhas tristezas e preocupações, das minhas dores e angústias. Mas são as minhas estórias, se publiquei publicamente, foi sobre mim e foi decisão minha expor-me. Desta vez não sou a protagonista. Sou um dano colateral, e por isso está a custar publicar algo que envolve outras pessoas, ainda que sob anonimato, ainda que sem nomes, nem iniciais, nem nada que as possa identificar. E é absolutamente irónico eu ter esta espécie de respeito por quem não teve uma gotinha dele por mim (nós). Nem respeito, nem consideração nem merda nenhuma. 

A tensão tem aumentado. Começo a soltar faíscas, sabendo que não tarda o rastilho será aceso e vai explodir. Não consigo prever com exatidão os danos. As consequências. Mas vou fazendo uma ideia, daquilo que conheço dos principais intervenientes, daquilo que já senti na pele. E este ter de esperar e não poder fazer nada, este tentar precaver-me e salvaguardar-me antecipando as prováveis reações e consequências está a dar comigo em doida. 

Vai tudo correr bem. Acreditar e confiar. Eu quero, muito. Mas está difícil. 

Entretanto, sinto-me um pouco mais leve por ter exorcizado pela escrita o que me angustia. Mas por enquanto ficará ali, nos rascunhos, fechado a sete chaves, sem saber se alguma vez será publicado.

 

31
Out16

As máscaras

Poderia ser um post sobre o Halloween, essa espécie de carnaval temático, uma tradição importada que pouco ou nada tem a ver com a nossa cultura. Mas não. Mera coincidência.

Falo das máscaras que usamos na vida, no dia a dia, na sociedade. Não que usar essas máscaras seja sinónimo de falsidade, mentiras. Ou pelo menos não de forma generalizada.

Eu tenho as minhas máscaras. Como pessoa tímida e insegura, uso a máscara do humor para quebrar gelo. Uso o humor comigo própria, para relativizar coisas que de certa forma me afetam. Antes do humor eu ficava-me mesmo por uma certa distância, quieta no meu canto, facilmente me catalogavam como antipática e arrogante... até o gelo se quebrar, eu me sentir um pouco mais à vontade e deixar cair a máscara que usava como defesa. 

Mas tem dias que qualquer coisa faz a nossa máscara de defesa cair. E a minha caiu-me aos pés este fim de semana. No rosto estava bem estampada a frustração que me invadia. Uma tristeza imensa por me ver assaltada por fantasmas do passado. Abriu-se o armário de esqueletos e revivi certas sensações que me frustraram, magoaram, marcaram. Não há humor que lhe valha. Só este ficar quieta no meu canto, calada, de cara fechada, que seja a antipática, a arrogante; as pessoas só vêem o que querem mesmo, e a arrogante que julgam ver é, nem mais nem menos, uma miúda assustada, com vontade de fugir e chorar.

 

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