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Estórias na Caixa de Pandora

Estórias na Caixa de Pandora

09
Abr19

Um livro, diversas histórias, um homem que luta para matar o esquecimento!

Há uns tempos falei do orgulho que senti ao saber que um dos meus parceiros do curso de escrita criativa (um dos especiais) tinha publicado um livro. O seu livro. O primeiro (assim espero e desejo) de muitos. Ou alguns, pelo menos. Eu já lhe pedi um romance. Tem capacidade para isso e muito mais.

Já o li, de fio a pavio, e confesso que reli e marquei uns quantos textos que me ficaram na memória. Há sempre os que mais marcam, seja por que motivo for: o humor, a surpresa, a emoção, o insólito de situação. 

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Dá para ter uma ideia de que foram muitos os textos marcados?! 

Primeiro, deixo que o autor se apresente:

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Os nossos caminhos cruzaram-se online, num curso de escrita criativa, ministrado pelo sobejamente conhecido Pedro Chagas Freitas (mestre, na altura confesso que era um nome totalmente desconhecido para mim, e o curso foi-me recomendado por um amigo que tinha uma amiga que o tinha feito uns tempos antes).

O Carlos e eu conhecemo-nos online, na turma 10, entretanto batizada de Canecos, e ambos partilhávamos uma fase da vida complicada: o desemprego. Curiosamente, e apesar dos anos que nos separam, o sentimento era semelhante: velhos para trabalhar, novos para nos reformarmos. E sim, eu depois de fazer 30 anos passei a ter muito mais dificuldade em encontrar trabalho. Brincava a dizer que era como os iogurtes, tinha o prazo de validade expirado. Brincava por fora, chorava por dentro. 

2013 foi um ano negro na minha vida. Um longo desemprego, que começou em fevereiro e terminou em finais de novembro. Nesse intervalo de tempo, muitos CV's enviados, muitas candidaturas, muitos anúncios respondidos, e duas meras entrevistas. A segunda foi para o emprego que mantenho até hoje. 2013 foi um ano de doenças e morte. A súbita morte do pai do Gandhe abalou-nos a todos e deixou-nos de rastos. 

Só que 2013 também foi o ano em que decidi investir em mim, já que me sobrava tempo. Fiz várias formações, para enriquecer o CV, e a escrita criativa veio como um velho e antigo desejo/sonho. Sempre gostei de escrever, sou da área das línguas e literaturas (clássicas e portuguesa), e havia anos que me sentia bloqueada na escrita. Como se estivesse vazia. Precisava de um empurrãozinho. 

Como anteriormente disse, um amigo falou-me de um curso online, não era muito caro (estava desempregada), uma amiga dele tinha feito e adorado. Arrisquei. E foi assim que me cruzei com um desempregado na casa dos 50's, velho para trabalhar, novo para se reformar, uma vida de trabalho para depois ser mais um na estatística negra do desemprego. Também ele aproveitou o tempo que sobrava para dedicar-se a um sonho adormecido: a escrita.

Foram 25 semanas, com encontro marcado todas as quintas à noite. Eu, com tantas amarras associadas à minha formação literária, levei muito na cabeça para esquecer tudo isso e me libertar. Ao mestre, como carinhosamente lhe chamávamos, agradeço cada puxão de orelhas, cada facada que me dava e cortava as minhas amarras às teorias literárias, às regras linguísticas e gramaticais, aos conceitos e preconceitos. Ao mestre agradeço que me tenha tirado fora da caixa e me empurrado para um caminho sem retorno... (desculpa mestre, eu continuo a gostar das reticências, aquele sinal de pontuação que abominas!!). 

Leio muitas críticas negativas em relação a Pedro Chagas Freitas. Que é cheio de clichés e não sei quês. Os clichés estão nas Rebelo Pinto e nos Gustavos desta vida. Oh literatura mais oca e vazia para o intelecto do ser humano (do racional, pelo menos). 

Se eu gosto dos livros do Pedro Chagas Freitas? Não li muitos e, sinceramente, não faz muito o meu estilo de leitura. Mas como formador de escrita criativa, só tenho três palavras: EX-TRA-ordinário!

Voltando ao Carlos Musga. Eu arranjei emprego, conciliava com explicações, mais as rotinas dos dias - jantares, compras, roupas, tratar dos gatos. Deixei de ter tempo para me dedicar mais a formações em escrita (embora não faltasse vontade), e também sendo eu de Aveiro, restavam-me as opções online, que não abundavam. O Carlos, por seu turno, continuou a apostar na sua formação em escrita. E foi a melhor decisão que podia ter tomado. No seu (nosso) primeiro curso o Carlos começou com uma escrita simplista, tímida, recatada, mas foi-se revelando a cada semana, e desabrochando, e expandindo, até se tornar excecional e ganhar vários desafios de escrita. O derradeiro ganhou com maioria absoluta. O único voto que não teve foi o dele próprio, que mo deu a mim - e diz ele que sempre fui a sua preferida. Oh Carlos, o que posso ter em jeito para escrever, tens tu em experiência de vida, que faz de ti um autor completo. Genuíno. Com uma escrita que nos envolve e nos desperta as mais variadas reações e sentires.

Este livro não é um romance, uma história com personagens, com um enredo, com um princípio, meio e fim, peripécias e intrigas. Este livro é uma coletânea de contos e textos escritos por ele nestes últimos anos, desde que se dedicou a isto da escrita. Este livro é fruto de uma enorme e admirável coragem de, literalmente, ser o homem que luta para matar o esquecimento

O Carlos luta há largos meses com uma doença, daquelas doenças filhas da puta, que ninguém merece ter. Mas o Carlos não se deixou abater. Não. Foi a doença que o motivou, definitivamente, a reunir os seus textos e realizar o seu sonho: publicar um livro. Parabéns pela coragem e pela luta, mais ainda quando se vê a braços com uma grave doença, daquelas em que o poder acordar no dia seguinte já é um bom dia.

E eis aqui o seu livro, polvilhado de contos e histórias, de humor e sátira, de insólitos a malandrices eróticas, sem tabus nem merdas. 

Eu não consigo definir melhor este livro, porque o nosso mestre já o fez de forma perfeita e irrepreensível:

A forma de conhecer esta obra é um desafio: abra em qualquer página, leia um conto, sinta-o. Agora repita o processo: seguramente a reacção será diferente. e é desta forma de Carlos Musga, como um viajante experiente da vida, nos obriga a relembrar fases, histórias, sentimentos. É com personagens ricas e cenários comuns que reaviva, no leitor, o esquecimento comum do passar do tempo. «Há uma pessoa - e um escritor - de verdade nestas palavras.»
Pedro Chagas Freitas

Só acrescento aqui aquilo que já disse, na nossa esfera pessoal, ao Carlos: permite-me a ousadia, mas fazes-me lembrar Eça de Queirós. Tens tudo para ser o Eça do séc. XXI.

Humildemente responde-me que adora Eça de Queirós. Nota-se, Carlos. Nota-se a presença subtil dos teus modelos de autor e escrita. (Aqui fala a gaja com formação literária e que até sabe umas merdas de literatura, história da literatura, teoria da literatura e crítica literária.)

Carlos, se me estás a ler (vais ler, que eu vou já partilhar o link contigo, como prometido), só tenho mais uma coisa a dizer-te: fico à espera do teu romance. 

 

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